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Cercada de expectativa, “A Lei do Amor” é mais uma na lista de decepções do horário das nove

Duh Secco 20:45 :: 01/04/2017
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Em meio aos desvios de rota, até mesmo protagonistas de “A Lei do Amor” perderam o norte.
Em meio aos desvios de rota, até mesmo protagonistas de “A Lei do Amor” perderam o norte.

Foi com bastante entusiasmo que o público noveleiro recebeu a notícia, em outubro de 2014: Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, autores de duas das melhores produções das 19h na última década (“Tititi” e “Sangue Bom”), estavam, enfim, promovidos ao horário das 21h. Uma trama, originalmente concebida para a faixa das 23h, marcaria a estreia, após “A Regra do Jogo”, de João Emanuel Carneiro.

Problemas de audiência com esta, e com sua antecessora “Babilônia”, causaram o adiamento da trama; oficialmente, uma manobra para não abrir mão do contexto político da sinopse, em tempos de eleição para prefeito e vereadores. O adiamento aumentou a expectativa. Em outubro de 2016, enfim, estreou “A Lei do Amor”.

E a ansiedade se converteu em desilusão. Um prólogo bastante eficaz, quando visto isoladamente – e marcado por uma incoerente escalação de elenco –, complicou o início da segunda e definitiva fase. Personagens que o público demoraram a relacionar com suas versões mais jovens, em meio a um excesso de tipos bastante alheios ao conflito central; eis o primeiro problema. Ao final do sétimo capítulo, um poderoso gancho: morre Suzana (Regina Duarte), vítima de um atentado que deixa seu amante Fausto Leitão (Tarcísio Meira) convalescente. Nova injeção de ânimo, certo?

Errado. Conflitos familiares começaram a se misturar com a tal história política e ficou bastante difícil para o telespectador entender o que se passava ali, em meio a tantos mistérios. O público tem preguiça de pensar ou os autores calcularam mal, ficou a dúvida. Hora da correção: “enxugaram o quadro” e deram clareza ao enredo, que bom.

Com índices ainda claudicantes, “A Lei do Amor” sofreu um novo abalo com o desaparecimento de Isabela (Alice Wegmann), atirada no mar em um atentado orquestrado por Tião Bezerra (José Mayer), interessado em devolver o então namorado da moça, Tiago (Humberto Carrão), à sua filha, Letícia (Isabella Santoni), de quem o jovem era noivo.

O suspense em torno do crime – e do retorno de Isabela sob a identidade de Marina – apontava para uma reta final mais empolgante. Outra frustração. Aproveitaram a ausência da garçonete para modificar o perfil de Letícia (que ficou mais simpática, mas jamais deixou de ser um jovem irritante) e investir em sua reconciliação com Tiago. Quando Isabela voltou, ganhou ares de vilã.

E assim, entre costuras e remendos, “A Lei do Amor” chegou ao último capítulo, ontem (31), como uma colcha de retalhos. Na peça, tecidos finos se uniram a trapos de chita. A “seda”, é claro, atende por Magnólia Costa Leitão, mais um brilhante desempenho de Vera Holtz; criticada por uma certa parcela do público que se acostumou a ter vilãs de frases feitas e não soube ler nas entrelinhas o quão perversa (e fantástica) era Mag, a vilã que rezava para expurgar os crimes que, literalmente, pensavam em suas costas.

Foram delas as cenas de maior impacto da trama; todas desenvolvidas a partir de sua paixão pelo genro Ciro (Thiago Lacerda, também em um bom momento), capaz de leva-la a assassinar Beth (Regiane Alves) – sem dúvida, a grande sequência do folhetim –, e digna de uma execração pública na qual Tarcísio Meira teve sua única chance de brilhar (já que ficou restrito ao leito durante quase toda sua participação).

Brilharam também Cláudia Abreu (a mocinha Helô, pouco exigida), José Mayer, Alice Wegmann, Regina Braga (em participação especial como a deficiente visual Silvia), Camila Morgado (Vitória), Grazi Massafera (Luciane) e Danilo Granghéia (Hércules) – estes dois últimos afetados pelo esvaziamento da trama na reta final. No geral, todo o elenco esteve na média. O que prejudicou, de fato, foi a inconsistência do enredo.

Difícil acreditar que o devotado Pedro (Reynaldo Gianecchini) tenha sido fraco a ponto de se deitar com Laura (Heloísa Jorge), num momento de fragilidade da esposa Helô – entrecho que também prejudicou a trajetória de Tiago.

Impossível crer que a violência sexual de Leonardo (Eriberto Leão) contra Vitória tenha a deixado grávida (uma vez que ela anunciou sua gestação antes do encontro com o engenheiro molestador); estranho ver Mileide (Heloísa Perissé) chegar ao fim como uma vidente oportunista, explorando a fé alheia; pouco crível o troca-troca de casais que mobilizou peças importantes como Antônio (Pierre Baitelli) e Yara (Emanuelle Araújo).

“A Lei do Amor” padeceu em meio às alterações em nome da audiência, matando a cada novo reparo todos os ganchos que poderiam tê-la salvado do marasmo. Teria sido mais interessante ver Isabela descobrir, em dado momento, que Tião a jogou no mar, redirecionando sua vingança; talvez o romance de Antônio e Letícia tivesse excitado a “torcida” se não tardasse tanto a acontecer; um desacerto de Helô a tornaria menos maculada e o erro de Pedro mais aceitável. Talvez…

Talvez “A Lei do Amor” fosse uma boa novela das 23h ou tivesse melhor sorte se entrado na sequência de “A Regra do Jogo”. Talvez não tivesse desalentando o público, como outras tantas que a antecederam – “Salve Jorge”, “Em Família”, “Babilônia”, “A Regra do Jogo”. Talvez, um dia, possamos ter uma boa novela das nove de novo. Talvez este dia seja segunda-feira (3), quando estreia “A Força do Querer”. Resta torcer.


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