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Crônicas de uma novela: 15 anos de “Desejos de Mulher”

Duh Secco 18:20 :: 21/01/2017
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15 anos de “Desejos de Mulher”: tramas, curiosidades e audiência.

Tudo o que você deseja na próxima novela das sete”. Era este o slogan de lançamento de “Desejos de Mulher”, trama que completa neste sábado (21) quinze anos de sua estreia. No teaser, mulheres de diferentes regiões do país comentavam suas vontades, seus intentos, suas ambições. Parecia que estava por vir, de fato, uma novela com tudo o que o público – em especial as mulheres, claro – desejava. Parecia. Em retrospecto na coluna de hoje, a tortuosa trajetória de “Desejos de Mulher”.

As Filhas da Mãe Fernanda Montenegro
Em “As Filhas da Mãe”, nem Fernanda Montenegro foi capaz de atrair o público.

Nos anos 1990 e 2000, a Globo amargou sucessivas experiências malsucedidas no horário. Dentre o que funcionou, o drama “A Viagem” e a comédia “Quatro Por Quatro”. Este segundo estilo ainda dominava a faixa, até o desempenho pífio de “As Filhas da Mãe”, incompreendido enredo de Silvio de Abreu. A solução: encurtar a novela em dez semanas e substituí-la por uma “tragédia” de tintas fortes, centrada nas divergências entre duas irmãs, acentuadas após a revelação de que uma delas, a mais velha, fora adotada; roteiro de Euclydes Marinho, da bem-quista “Andando Nas Nuvens” e de séries e minisséries “femininas”, como “Malu Mulher”. Para os papeis centrais, duas das maiores estrelas da TV: Regina Duarte e Glória Pires, reeditando a parceria da aclamada “Vale Tudo” – e ainda cogitaram Glória Menezes como mãe das duas, posteriormente a cargo da bissexta Amélia Bittencourt.

Vale Tudo Regina Duarte Glória Pires
Regina Duarte e Glória Pires em “Vale Tudo”, clássico da teledramaturgia nacional.

Infalível? Não. “Desejos de Mulher” naufragou, comprometida pelo noticiário político-policial envolvendo o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, filiado ao PT, pelo período de férias e horário de verão, pelo adiantamento da produção – com gravações iniciadas um mês antes da estreia e uma sinopse ambientada em São Paulo transferida a toque de caixa para o Rio de Janeiro. Um “apagão” jogou contra o primeiro capítulo, revisto em retrospecto pelo público antes do segundo episódio; uma tentativa de ampliar a parca plateia da estreia, 29 pontos (dado alarmante para a época).

A comédia havia falhado; o dramalhão falhava também. “Desejos de Mulher” chegou a amargar índices aquém dos de “Malhação” e “A Padroeira”, a novela das seis. Viu a reprise do “Vale a Pena Ver de Novo”, “História de Amor”, ficar a apenas quatro pontos de sua média (em 31 de janeiro de 2002, dados da “Folha de São Paulo”). Apavorada, a Globo lançou mão da “operação-salvamento”, deflagrada após o Carnaval, na segunda semana de fevereiro. A solução: diminuir as desavenças entre as irmãs, que passaram a ter suas histórias correndo em paralelo.

Desejos de Mulher Eduardo Moscovis Glória Pires
Júlia (Glória Pires) e Chico (Eduardo Moscovis), vertente romântica de “Desejos de Mulher”.

Júlia Moreno (Glória) perdeu importância. Na luta para livrar o marido Renato (Cássio Gabus Mendes) da cadeia, a dona de casa por opção tirou o diploma de jornalista da gaveta. Entrou em disputa profissional com o aliado Chico Maia (Eduardo Moscovis), com quem se acertou no último capítulo, após descobrir que o esposo era realmente corrupto. Renato passou boa parte da trama numa cadeira de rodas, quando arrependido de seus atos tentou impedir seus comparsas de atirarem em Chico.

O “desvio de rota” afetou Fernanda (Deborah Evelyn), quarta linha deste quadrado amoroso, rifada da novela. Em substituição, surgiu Gilda (Drica Moraes, escalada após as recusas de Débora Bloch, Júlia Lemmertz e Vivianne Pasmanter), interesse de Chico, e Alex Müller (Paulo Betti), escritor virgem que queria Júlia para sua primeira mulher. O perfil de Gabriela (Mel Lisboa), mocinha interiorana decidida a ganhar a vida como modelo, foi drasticamente alterado: prevaleceu o olhar lancinante da atriz, ainda impregnado de Anita (sim, a de “Presença de Anita”), em um tipo arrivista que chegou a dormir com o vilão para conquistar um lugar ao sol – e acabou debaixo da terra.

Desejos de Mulher Regina Duarte Herson Capri
Andréa Vargas (Regina Duarte) e seu amado Diogo (Herson Capri).

Andréa Vargas (Regina), contudo, foi a mais atingida pela “operação-salvamento”. Estilista complexada que chega aos 50 anos desejando ser mãe, Andréa descobre ser irmã biológica de Selma (Alessandra Negrini), a gerente de marketing que se deitou com o marido da patroa, Bruno (José de Abreu), para tomar posse de tudo o que pertencia a ela. Selma se tornou a principal figura do enredo, numa virada que chegou a ser atribuída ao então colaborador João Emanuel Carneiro, por se assemelhar a trajetória de vilãs como Bárbara (Giovanna Antonelli), de “Da Cor do Pecado”.

Vilã com sérios transtornos psiquiátricos, Selma tentou tomar Diogo (Herson Capri) de Andréa, chegou a persegui-la com uma faca e apostou em inúmeras tentativas de liquidar Bruno; ambos contrataram o mesmo capanga, Beto (Márcio Kieling), com o mesmo objetivo, o de eliminar o outro. Tão odioso quanto a amante, Bruno chegou a trocar os frascos de remédio de Isaura (Miriam Pires), mãe de Andréa e Selma, para que esta segunda envenenasse a própria mãe quando fosse lhe medicar. E em meio a tanta maldade, Andréa chegou a perder a memória (num festival de excessos expressivos de Regina), ao ver Selma cair de um penhasco – surpreendentemente, sobreviveu, entrou para um convento e morreu num confronto com Bruno, expurgando o remorso que a corroía pelo mal que fez à irmã.

Desejos de Mulher Alessandra Negrini
Alessandra Negrini na pele de Selma, o grande destaque de “Desejos de Mulher”.

Essa virada digna de novela mexicana turbinou os índices de “Desejos de Mulher”, que se colocou acima dos 30 pontos ainda em fevereiro. Saiu de cena como êxito de audiência, mas “dramaturgicamente” criticada. O melodrama, no entanto, não dominou a cena por completo. O núcleo homossexual, capitaneado por Ariel (José Wilker), também se destacou. Companheiro de Tadeu (Otávio Muller), o devoto de Santa Terezinha de Lisieux se envolve sexualmente com Virgínia (Sílvia Pfeifer), dona da agência de modelos Classy; Arial já havia sido casado com a motociclista Raquel Vonnegut (Renata Sorrah), mãe de sua filha Patty (a estreante Nathália Rodrigues). Pelo desempenho, longe da mera caricatura, Wilker e Muller subiram no trio elétrico da revista G Magazine na Parada do Orgulho Gay daquele ano.

Desejos de Mulher Vera Holtz Otávio Muller
Bárbara (Vera Holtz) e Tadeu (Otávio Muller), o núcleo fashion da trama.

Cabe destacar ainda a deliciosa presença de Vera Holtz, como Bárbara Toledo, editora da revista Estilo Mulher – que ganhou um site com matérias de comportamento, moda e variedade no então recém-criado portal Globo.com. “Desejos de Mulher” chegou ao fim em agosto, com 32,6 pontos de média geral (seu recorde, 42, se deu em 28 de maio, quando Selma ameaçou se atirar do alto de um prédio e foi salva por Andréa). A despeito do último capítulo, a então primeira-dama Ruth Cardoso, ao encontrar Regina Duarte, comentou: “Assisti ao último capítulo da novela no sábado. Não entendi nada de nada, mas você estava bonitinha”. Talvez boa parte do público também não tenha entendido, mas aplaudiu. Uma novela que entreteve, divertiu e cumpriu seu objetivo, ainda que por vias tortas, sacrificando a coerência e abraçando o folhetim desvairado.