10:56 :: 21/08/2017
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15 curiosidades dos 15 anos de “Esperança”; trama promissora virou “problemão” das 20h

Eva Wilma, Raul Cortez e Reynaldo Gianecchini em cena de “Esperança” (2002)

Há 15 anos, atipicamente às 21h27 (por conta do horário político), a Globo estreava sua nova novela das oito, “Esperança”. O horário incomum para a época – em que as tramas da faixa mais nobre eram exibidas por volta de 20h50 – foi só o primeiro sinal de que a nova empreitada de Benedito Ruy Barbosa teria um caminho difícil a percorrer. A ideia de basear-se em “Terra Nostra” (1999), êxito no Brasil e no exterior, revelou-se frustrada. Problemas com elenco, produção e, principalmente, audiência fizeram desta obra uma das mais polêmicas destes últimos anos. Relembre 15 acontecimentos que marcaram o folhetim, dentro e fora da tela.

Carolina Kasting e Thiago Lacerda, como Rosana e Matteo, em “Terra Nostra” (1999).
Carolina Kasting e Thiago Lacerda, como Rosana e Matteo, em “Terra Nostra” (1999)

“Terra Nostra 2”

“Esperança” foi concebida por encomenda! Canais da Espanha, de Portugal e de países da América Latina solicitaram à Globo uma continuação de “Terra Nostra”, então uma das campeãs de vendas no mercado internacional. Algumas propuseram até coprodução, como a italiana Rette 4 (do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi) – exigindo, no elenco, a presença de Ana Paula Arósio, Antonio Fagundes e Thiago Lacerda, astros da saga italiana. Batizada de “Uê, Paisano”, a “Terra Nostra 2” encontrou problemas logo na confecção da sinopse: Benedito Ruy Barbosa se melindrou ao ver o período que planejava reconstituir, o da Segunda Guerra Mundial, como pano de fundo da minissérie “Aquarela do Brasil”; e a manutenção do elenco, com outras tantas produções em andamento, ficou inviável.

“Semelhança”

Do folhetim que a inspirou, “Esperança” trouxe apenas uma citação ao fazendeiro Gumercindo (Antonio Fagundes), que teria quebrado após o “crash” da Bolsa de Nova York, em 1929 – sua propriedade acaba vendida ao imigrante italiano Vincenzo (Othon Bastos). Toda a ação da nova novela transcorria a partir de 1931, abordando o processo de industrialização, a criação da até hoje debatida CLT, o governo de Getúlio Vargas e a Revolução de 32. O enredo, contudo, não escapou da similaridade; Raul Cortez, por exemplo, viveu um italiano nas duas tramas, Francesco Maglianno e Genaro Tranquili. E o pessoal do “Casseta & Planeta, Urgente!” apelidou a novela das oito, antes mesmo da estreia, de “Semelhança – novela que é igual àquela outra que você já viu, só que tem o marido da Marília Gabriela”, uma referência a Reynaldo Gianecchini.

Bianca Rinaldi e Rodrigo Veronese, como Júlia e Alberto, em “Pequena Travessa” (2002).
Bianca Rinaldi e Rodrigo Veronese, como Júlia e Alberto, em “Pequena Travessa” (2002)

Mudanças no SBT

Ao tomar conhecimento de que a nova produção da Globo teria um núcleo rural, o SBT adiou a produção de “Canavial de Paixões”, roteiro da Televisa que planejava produzir e estrear em novembro, substituindo a exitosa “Marisol”. O temor era de que “Canavial” fosse tida como a “prima pobre” da trama global – um capítulo de “Esperança” custava R$ 120 mil; de “Pequena Travessa”, folhetim que ocupou a lacuna deixada pela produção suspensa, R$ 43,5 mil.

Festa das nações

Nem só de italianos viveu “Esperança” – compunham o painel da história núcleos de judeus e espanhóis; personagens franceses, nordestinos e portugueses. A Globo apostou nessa pluralidade produzindo quatro versões do tema de abertura, composto, entre outros, por Benedito Ruy Barbosa e seu filho Marcelo: em hebraico, com Gilbert – presente no elenco como Ezequiel; em espanhol, com Alejandro Sanz; em português, com os participantes do reality musical “Fama” (2002); e em italiano, o mais executado, com Laura Pausini. A quantidade excessiva de sotaques, contudo, desagradou o público; o de Ana Paula Arósio, como a judia Camille, precisou ser atenuado.

Chico Anysio como Professor Raimundo, o mestre da “Escolinha”.
Chico Anysio como Professor Raimundo, o mestre da “Escolinha”

Elenco provisório

Na primeira lista de possíveis nomes no elenco, destaque para Paulo José, que acabou fora da trama. Reynaldo Gianecchini também não foi a primeira opção para o protagonista, Toni; Luiz Fernando Carvalho, diretor geral, pretendia contar com um ator italiano. Outro nome que desfalcou o time foi Chico Anysio. Criador de mais de 200 personagens, Chico vivia uma má fase profissional: a Globo havia suspendido sua “Escolinha do Professor Raimundo” diária. Satisfeito com a participação afetiva do humorista em “Terra Nostra”, Benedito o chamou para viver o escultor Agostino – sabe-se lá por que o personagem acabou nas mãos de Cláudio Corrêa e Castro.

Nuno Lopes, intérprete do “Murruga”, estampou a trilha internacional de “Esperança”.
Nuno Lopes, intérprete do “Murruga”, estampou a trilha internacional de “Esperança”

Tipo exportação

Sem um ator italiano à frente do elenco, “Esperança” foi buscar um galalau português para um importante personagem: José Manuel, o “Murruga”, estudante de boa família e de posses, que se encanta pela operária Nina (Maria Fernanda Cândido) – filha que o tio de Toni, Giuseppe (Walmor Chagas), teve no Brasil com a simplória Madalena (Laura Cardoso). Nuno Lopes, então com 24 anos, desembarcou por aqui após derrotar mais de 70 concorrentes num teste, com um salário mensal de R$ 10 mil. O tipo, um dos mais elogiados pelo público em grupos de discussão, fez tanto sucesso que acabou estampando a capa da trilha sonora internacional.

Hollywood brasileira

O esmero na escalação também foi visto na produção, como não poderia deixar de ser, ainda mais se tratando de Globo – não por acaso apelidada de “Hollywood brasileira”. As primeiras cenas de “Esperança” foram gravadas em Civita di Bagnoregio, cidadela a 100 quilômetros de Roma com apenas 20 moradores. A equipe da emissora conferiu um ar de “anos 30” ao local, trocando portas, escondendo fios e caixas de luz, revestindo bancos e retirando placas de sinalização. No último capítulo, sem tempo suficiente para retornar à Itália gravar as últimas cenas, a Globo usou o município de Monte Belo do Sul, Rio Grande do Sul, para simular os parreirais de uvas italianos. Em Santa Gertrudes, interior de São Paulo, ficava a fazenda de Francisca Mão-de-Ferro (Lúcia Veríssimo), depois utilizada pela Record em “A Escrava Isaura” (2004). Já a cidade cenográfica reproduzia a São Paulo dos anos 30; 13 profissionais, entre cenógrafos e arquitetos, construíram fachadas e interiores, algo atípico. No cortiço onde moravam Madalena e Nina, banheiros e cozinhas funcionavam de verdade!

Ana Paula Arósio e Reynaldo Gianecchini como o casal em desacerto Camille e Tony.
Ana Paula Arósio e Reynaldo Gianecchini como o casal em desacerto Camille e Tony

Baixou enfermaria

“Esperança” ainda é lembrada pelo incidente ocorrido durante as gravações da cena em que Camille destrói a estátua de Maria (Priscila Fantin), feita por seu marido Toni, ainda apaixonado pela ex. Ana Paula Arósio acabou atingindo o rosto de Reynaldo Gianecchini com uma barra de ferro; o ator tomou pontos internos em razão do corte na boca e precisou reconstituir um dente – anteriormente, ele havia caído de um burro, durante montaria nas tomadas feitas na Itália. Já Ana sofreu um entorse no tornozelo direito. Os dois atores, mesmo machucados, levaram a cena até o fim. Na mesma época, Nuno Lopes teve a perna esquerda atingida por uma prancha de windsurfe, numa praia da Barra da Tijuca. E o ator Luís de Lima, intérprete de Antônio, pai do “Murruga”, faleceu vítima de uma infecção pulmonar. Otávio Augusto (Manolo) ainda sofreu um infarto, Laura Cardoso desfalcou a produção por conta de uma pneumonia e Arósio padeceu com uma gastroenterite, já nas últimas semanas.

José Mayer e Christiane Torloni, como César e Helena, em “Mulheres Apaixonadas” (2003).
José Mayer e Christiane Torloni, como César e Helena, em “Mulheres Apaixonadas” (2003)

“Mulheres Apaixonadas” no circuito

Inicialmente convocado para uma participação de apenas 20 capítulos, José Mayer – Martino, homem arranjado para desposar Maria – foi ficando, ficando, ficando a ponto de Benedito Ruy Barbosa não querer liberá-lo para a produção substituta, “Mulheres Apaixonadas”, sem sucesso. O italiano acabou vítima de uma emboscada do insano Maurício (Ranieri Gonzalez), criando um mistério para os personagens – não para o público – que tirou o núcleo rural do marasmo. Em contrapartida, “Esperança” ganhou as participações de Marcos Palmeira (Zequinha), Jackson Antunes (Zangão) e Cosme dos Santos (Chiquinho Forró), encarregados de conferir humor à trama. Posteriormente, Caco Ciocler foi cogitado para o judeu Samuel, que acabou nas mãos do cantor Paulo Ricardo, de volta às paradas com seu RPM por conta da música-tema do recém-estreado “Big Brother Brasil”.

Ladeira…

“Esperança” estreou com consideráveis 47 pontos e picos de 51 pontos, desempenho similar ao da antecessora, “O Clone” (2001). No segundo capítulo, contudo, os índices despencaram para 40. Surgiram os primeiros comentários acerca do “luto” do público, afeito à novela anterior, e dos desajustes entre Benedito e Luiz Fernando – um escrevia uma novela, outro dirigia outra –, desmentidos por ambos com direito à carta aberta de Barbosa para o elenco. O folhetim sobreviveu às férias escolares e ao horário político, com índices próximos aos 40 pontos. Mas a Globo preferia enaltecer os feitos da novela publicando os números do share (participação no total de televisores ligados), mais “impressionantes” – um indicativo de que o desempenho estava aquém do esperado. O primeiro grupo de discussão trouxe queixas sobre a iluminação escura e, pasmem, a falta de proximidade com “Terra Nostra”.

Novela “ao vivo”

A audiência minguou de vez com a excessiva quantidade de flashbacks, cenas de transição – aquelas que não servem para nada além de indicar uma curta passagem de tempo – e filmes em preto-e-branco das greves ocorridas na década de 30. Recursos que serviam para preencher os capítulos, entregues em cima da hora pelo autor. Em setembro, jornais e revistas deixaram de publicar os resumos da semana porque a Globo, simplesmente, não tinha o que divulgar. Cenas gravadas pela manhã eram exibidas no mesmo dia à noite; ventilou-se, inclusive, a possibilidade de encurtar “Esperança” e substituí-la pela minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, então em produção – a emissora chegou a tentar a reclassificação da obra, para levá-la ao ar mais cedo. Em dezembro, a novela chegou a então preocupantes 27 pontos num sábado, com o elenco gravando mais de 12 horas por dia. Não deu mais para Benedito…

Walcyr Carrasco, que havia contornado a crise de “A Padroeira” (2001), foi recrutado para “Esperança”.
Walcyr Carrasco, que havia contornado a crise de “A Padroeira” (2001), foi recrutado para “Esperança”

Sob intervenção

As dificuldades de produção e as queixas da equipe tornaram-se públicas. Beatriz Segall, em participação especial como Antônia (mãe de “Murruga”), gravou o suficiente para concluir, em entrevista a Hebe Camargo: “É uma tremenda falta de respeito com o ator entregar o texto daquele jeito”. Benedito Ruy Barbosa revidou: “Não fui eu quem a escolheu para fazer o papel. Para mim, ela é a eterna Odete Roitman”, referência à clássica vilã de “Vale Tudo” (1988). O autor estava extenuado, com inúmeros problemas pessoas – a mãe há tempos no CTI por problemas pulmonares; ele, enfrentando conflitos com o cigarro, ainda se acidentou com o carro. Não houve jeito. Benedito se afastou da novela e Walcyr Carrasco assumiu o posto de titular, embora as notícias insistissem em tratar o esquema como “colaboração”.

Benedito x Walcyr

A princípio, Benedito Ruy Barbosa definiu Walcyr Carrasco como “um ótimo autor e de um belo caráter”. Depois, em entrevista ao livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, de André Bernardo e Cíntia Lopes, declarou insatisfeito: “Na época, liguei para o Mário Lúcio Vaz [então diretor artístico da Globo] e disse ‘avisa o Walcyr que quando eu encontrar com ele, eu vou dar porrada, entendeu?’ Ele simplesmente acabou com minha novela. Não terminou como eu queria. Depois, mandou uma carta pedindo desculpas”. À frente de “Esperança”, Walcyr alterou substancialmente o perfil de alguns personagens – como Farina (Paulo Goulart) e Justine (Gabriela Duarte em ótimo trabalho), “temporariamente” convertidos em vilões. Também trouxe novos tipos, como a tia e a prima de “Murruga” (Jussara Freire, Amália, e Luciana Braga, Adelaide) e investiu em sequências de erotismo.

“Por Amor”, então em reprise no “Vale a Pena Ver de Novo”, se aproximou da índices de “Esperança”.
“Por Amor”, então em reprise no “Vale a Pena Ver de Novo”, se aproximou da índices de “Esperança”

Alívio

E “Esperança” reagiu! Embora tenha chegado ao fim com uma das piores médias da faixa naquele tempo – 38 pontos – a novela voltou aos 40, batendo os 45, 51 e 50 de média, respectivamente, nos últimos três capítulos. No mesmo período, “Sabor da Paixão”, às 18h, e “O Beijo do Vampiro”, às 19h, também fraquejaram; o grande destaque daquele segundo semestre de 2002, início de 2003, foi “Por Amor”, então em reprise no “Vale a Pena Ver de Novo”, atualmente revista no Viva. O penúltimo capítulo da obra de Manoel Carlos, em 9 de janeiro de 2003, chegou a 32 pontos, acima das tramas das 18h e 19h, índice bastante próximo a “Esperança”.

Na gringa

Por fim, “Esperança” também não cumpriu o prometido no mercado internacional. Lançada num coquetel para 200 convidados na embaixada brasileira em Roma, a novela decepcionou o canal Rette 4, que desembolsou US$ 4 milhões para ver seus índices caírem de 8,4% para 4% em menos de um mês de exibição. Na SIC, em Portugal, enquanto “Terra Nostra” chegou a 76% de share, “Esperança” penava para alcançar 30%. O curioso é que a Globo insistiu na “semelhança” no mercado externo, batizando a produção de “Terra Speranza”. Foi a esperança de fazer dar certo, né?




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