A tradicional “foto do elenco da Tupi”, com o time reunido em “Éramos Seis”.
A tradicional “foto do elenco da Tupi”, com o time reunido em “Éramos Seis”

Há 40 anos, a Tupi, já em seus últimos suspiros, viveu uma de suas glórias na teledramaturgia: em 6 de junho de 1977, estreava “Éramos Seis”, adaptação da obra de Maria José Dupré (ou Sra. Leandro Dupré), feita pelos então estreantes em novelas Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho. Àquela altura, a saga de dona Lola (aqui vivida por Nicette Bruno) já havia tido duas adaptações (uma com Gessy Fonseca, outra com Cleyde Yaconis).

Essa de 1977, no entanto, se tornou a mais famosa, em razão do bom trabalho dos autores e da excelência do elenco. Também por ter ganho, em 1994, uma regravação, responsável por inaugurar uma nova (e talvez a melhor) era da teledramaturgia do SBT (com a personagem central a cargo de Irene Ravache). O texto, adquirido das mãos dos autores, quase não sofreu alterações.

Mas, a princípio, este não foi este o projeto proposto por Rubens e Silvio à Tupi. O então diretor artístico Roberto Talma sonhava com um sinopse dividida em três tempos: antes, durante e após um acidente aéreo. Mas Talma acabou deixando a emissora e seus substitutos, Carlos Zara e Henrique Martins, derrubaram “O Acidente”. Coube aos autores recorrerem a “Éramos Seis”, então em sua 21ª edição, com cerca de novecentos mil exemplares vendidos em diversos países.

A história veio à mente de Dupré a partir da observação que ela fazia de um ponto da Avenida Angélica, “onde o bonde dobrava”, no qual se localizavam duas casinhas geminadas, em meio à edificações de luxo. A saga é dividida em três tempos: de 1921 a 1924, quando os filhos de Lola ainda são pequenos; de 1931 a 1935, com eles já adultos; e 1942, quando a matriarca se abate diante da viuvez e da dificuldade em manter a família unida.

Rubens e Silvio ampliaram a narrativa acrescentando fatos históricos, como a revolução de 1932, e novos personagens, como imigrantes espanhóis e a prostituta Marion (Carmem Marinho), amante de Júlio (Gianfrancesco Guarnieri), amante de Lola – o que teria desagradado Sra. Dupré, que acreditava que sua protagonista já era sofrida demais para ter de suportar também uma traição.

Num primeiro momento, “Éramos Seis” não se saiu bem em sua tarefa de reerguer o horário, outrora relevante com sucessos como “A Barba Azul” (1974, de Ivani Ribeiro, que inspirou “A Gata Comeu” (1985) e “Meu Rico Português” (1975, de Geraldo Vietri). A Tupi aproveitou-se da primeira mudança de fase, em agosto, para alterar o horário da trama, chegando a publicar um anúncio comunicando ao público que a mudança havia se dado para que fosse possível conferir “Locomotivas”, a novela das 19h da Globo, e produção paulista.

Eva Todor como Kiki Blanche, estrela de “Locomotivas” (1977).
Eva Todor como Kiki Blanche, estrela de “Locomotivas” (1977)

Primeiro trabalho de Atílio Riccó – hoje em Portugal – como diretor, a novela contou com externas gravadas na Vila Belmiro, em Santos (litoral de São Paulo) e no bairro do Bonsucesso. O êxito de “Éramos Seis” determinou a quase que imediata contratação de Rubens Ewald Filho e Silvio de Abreu pela Globo – ambos estrearam por lá em 1978, com dois projetos de pouca repercussão, “Gina” (também uma obra de Maria José Dupré) e “Pecado Rasgado”.

Com relação ao elenco, destaque, claro, para Nicette Bruno. A atriz ganhou o prêmio APCA por conta de sua interpretação, muito centrada no olhar terno da abnegada mãe e esposa. Nicette, que volta à televisão nesta terça-feira (6) em “Pega Pega”, contracenou com a filha Beth Goulart (intérprete de Lili) e com o marido Paulo Goulart – em participação especial como o médico que atende Júlio às vésperas de sua morte.

Para atender às necessidades da produção das 20h, “O Profeta”, de Ivani Ribeiro, os autores se viram obrigados a liberar Carlos Augusto Strazzer, que vivia Carlos, o filho mais velho de Lola. A Tupi esperava contar com ele ou com Carlos Alberto Riccelli (Alfredo) como o protagonista paranormal Daniel; optou-se então por seguir a história do livro, na qual Carlos morria num embate causado pela revolução de 1932.

Ainda, a ausência de Wanda Stefânia e Patrícia Mayo, escaladas para a segunda fase da novela, mas que, grávidas, acabaram substituídas por Reny de Oliveira (Carmencita) e Carmem Monegal (Adelaide). Wanda e Patrícia, no entanto, marcaram presença na abertura do primeiro ao último capítulo – a vinheta reproduzia um álbum de família; confira abaixo.

Em 1994, o SBT escalou alguns atores presentes na versão da Tupi, de 1977. Chica Lopes reviveu a empregada de Lola, Durvalina. Jussara Freire (Olga), a irmã caçula de Lola na primeira versão, passou à “irmã do meio” (Clotilde), repetindo o par com Paulo Figueiredo (Zeca/Almeida). E Lia de Aguiar, que fez uma rápida aparição como uma madre do asilo em que Lola termina seus dias, assumiu Dona Marlene, mãe de Júlio.

Em seus últimos meses no ar, a Tupi recorreu a “Éramos Seis” para manter a teledramaturgia no horário das 19h; enquanto isso, a primeira versão de “A Viagem” (1975) era reexibida às 20h. Por ocasião desta reapresentação, a emissora concebeu uma nova abertura; veja.

A trama

Lola é a mãe que sacrifica tudo pelos filhos – Carlos (Paulo César de Martino/Strazzer), Alfredo (Douglas Mazzola/Riccelli), Isabel (Ivana Bonifácio/Maria Isabel de Lizandra) e Julinho (Marcelo Pinsdorf/Ewerton de Castro). A educação das crianças consome praticamente toda a renda da família. Quando a situação enfim se estabiliza, Júlio morre, vítima de úlcera gástrica.

Carlos então abandona seu sonho de cursar medicina para assumir o sustento da família. Isso inviabiliza seu relacionamento com a vizinha Carmencita (Ana Cláudia Pereira/Reny). Quando enfim toma coragem de deixar a casa da mãe para se unir à amada, estoura a Revolução de 32. Numa praça em guerra, o rapaz acaba atingido por uma bala perdida.

Antes de morrer, Carlos pede ao irmão Alfredo que zele pela mãe e pelos irmãos. Mas o jovem tem outras pretensões. Metido com política, cai no mundo após matar acidentalmente um de seus opositores, afastando-se de Adelaide, a prima rica e doidivanas, e de Carmencita, a quem deixa grávida.

Por fim, a bonequinha de Júlio, Isabel, criada para se casar com o vizinho bom-moço Lúcio (Mateus Carrieri/Flávio Galvão) rompe com a família para se unir a um desquitado, Felício (Adriano Reys). E Julinho, o caçula aparentemente tão doce, troca a namoradinha Lili para ascender socialmente ao se casar com Maria Laura (Nara Gomes). Nos momentos finais de “Éramos Seis”, o então comerciante tenta se redimir levando Lola para morar em sua casa. Desconfortável, a matriarca acaba optando pelo asilo.


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