Chico Buarque
Chico Buarque é homenageado no “Jornal Nacional”, após anos em guerra com a Globo (Imagem: Reprodução / Globo)

O “Jornal Nacional” desta terça-feira (21) dedicou seu último minuto à eleição de Chico Buarque como contemplado do Prêmio Camões 2019, reconhecidamente um dos mais notórios quando se trata de literatura em língua portuguesa. O noticiário de Renata Vasconcellos e William Bonner exibiu uma foto do cantor, compositor e dramaturgo no fim do penúltimo bloco, com os dizeres “Viva o Chico!”. A relação entre Buarque e a Globo, porém, nunca foi das melhores.

Partidário do PT, Chico Buarque tem sido um dos críticos mais ferozes à cobertura política dos telejornais da emissora nos últimos anos. Os entreveros entre o músico e o canal atravessam quase cinco décadas. Tornaram-se públicos em inúmeras declarações dele a diferentes veículos, ao longo de todo este tempo.

Em 2013, num artigo sobre a discussão acerca de biografias não autorizadas para o jornal O Globo, ele declarou: “Nos anos 70 a TV Globo me proibiu. Foi além da Censura, proibiu por conta própria imagens minhas e qualquer menção ao meu nome. Amanhã a TV Globo pode querer me homenagear. Buscará nos arquivos as minhas imagens mais bonitas. Escolherá as melhores cantoras para cantar minhas músicas. Vai precisar da minha autorização. Se eu não der, serei eu o censor”.

De fato, na década de 1970, após participações em festivais, Buarque deu as caras apenas na concorrência. Foi estrela de “Meus Caros Amigos”, produção independente, que carregou o nome de um de seus mais famosos discos, exibida pela Band. Em 1980, esteve em “Ópera do Malandro”, na Tupi.

Por conta do primeiro projeto, disse, em entrevista ao Jornal do Brasil (8 de setembro de 1977), sobre um especial que gravara para a Globo logo após voltar ao Brasil, depois do exílio no exterior em razão da Ditadura Militar: “Nessa ocasião senti lá dentro, na TV, e na pele, a desimportância absurda que o artista tem no esquema Globo, o desrespeito, a censura interna. Quero deixar claro que não é a Globo que é ruim e a Bandeirantes que é boa, mas o que é ruim, nocivo, brutal é o monopólio que permite a uma estação de TV tratar de forma ditatorial os técnicos, artistas e funcionários e, em consequência, o público telespectador“.

Embora avesso à emissora líder, Chico marcou presença lá através de aberturas. Interpretou, por exemplo, o tema de “Espelho Mágico” (1977) e “Sétimo Sentido” (1982). Também em números no “Especial MPB” (1982), “Canta Brasil” (1982) e no infantil “Casa de Brinquedos” (1983).

Em 1986, Globo e Chico Buarque estabeleceram um cessar-fogo – iniciado no ano anterior, a partir da exibição de “Corsário Rei”, especial centrado nas composições dele e de Edu Lobo para a peça “O Corsário do Rei”. Na ocasião deste acordo, o Jornal do Brasil (16 de janeiro de 1986) relatou um episódio ocorrido “no bar Antonio’s, quando Chico retirou, da galeria de fotografias dos frequentadores famosos, a foto de Boni, o todo-poderoso chefão da Globo, e simplesmente urinou em cima”.

A mesma publicação reproduziu uma declaração dele à revista Veja, em 1976: “Na época em que mais precisei de dinheiro, em que a censura estava mais brava, eu todo endividado, o pessoal da Globo, ninguém em particular, apenas um porta-voz da máquina Globo de Televisão, disse que eu estava proibido de aparecer em seus programas. […] Porque nunca ninguém se responsabilizou pela proibição, porque a Globo é prepotente, resolvi me afastar voluntariamente de seus programas“.

O acordo com a estação da família Marinho se deu em prol de “Chico & Caetano”, musical exibido uma vez por mês, apresentado também por Caetano Veloso. Em meio à produção, uma nova rusga: encarregado de compor o tema de abertura da minissérie “Anos Dourados”, tendo por base um instrumental de Tom Jobim. Ele atrasou a entrega da música, a ponto da vinheta ir ao ar apenas com o piano de Tom – a mesma versão incluída no LP da produção.

Situação semelhante se deu em 2005, quando Chico Buarque prometeu e não entregou o tema de abertura de “Belíssima”. Após cogitar uma canção de Adriana Calcanhotto gravada por Ney Matogrosso (“Belíssima”) e outra de Tom e Vinícius de Moraes com voz de Daniel Jobim (“Bonita”), a emissora optou por “Você é Linda”, de Caetano Veloso. Em 2011, contudo, o canal prestou reverência a Chico, de novo, com a minissérie “Amor em 4 Atos”, baseada em cinco músicas dele.

 

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