Casal lésbico de "Babilônia" sofre rejeição?
Casal lésbico de “Babilônia” sofre rejeição?

Imagine duas celas. Uma é azul e a outra, vermelha. Alguma delas deixa de ser menos sufocante do que a outra devido à cor de suas grades? Certamente não.

Esta analogia boba reflete bem a incoerência do discurso de alguns defensores de “Babilônia”. A trama global aposta num enredo forte, repleto de vingança e violência, com narrativa ágil e vilãs sombrias. Em suma: Uma superprodução moderna.

No mesmo horário, o SBT reprisa “Carrossel”, que possui muitas qualidades, mas está longe de ser “super” ou “moderna”. O resultado? “Babilônia” bate recordes negativos e “Carrossel” alegra a Silvio Santos

O que este resultado significa?

Para os carcereiros da primeira cela, eles são o retrato de uma sociedade preconceituosa, reacionária e homofóbica, que só não assiste à novela da Globo devido ao beijo gay estrelado por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.

Ora, teria o universo gay todo este poder negativo? Se assim fosse, por que “Amor à Vida”, cujo principal personagem era um homossexual, alcançou números tão bons? Por que “Império”, recheada de gays, teve grande repercussão?

A rejeição a “Babilônia” não se resume ao beijo gay. O caso é mais amplo e retrata o anseio do telespectador pelo retorno das novelas tradicionais. O modelo moderno adotado pela Globo – baseado em algumas séries americanas e inventado por autores ávidos por inovação – não deu certo.

Neste ponto, alguns podem questionar: “Novelas tradicionais?! Você quer dizer sem beijo gay, Arthur?”. Não! Refiro-me a folhetins que não pareçam ter saído da tela do cinema. Tramas sem excesso de ação, de vingança, de maldade e de histórias mirabolantes.

O público quer de volta novelas bem delineadas, leves, ingênuas; locais onde o moço se apaixona pela moça enquanto uma louca tenta separá-los. Enfim, novela com cara de novela. Embora tenha sido abandonado pelos autores, a dramaturgia “água-com-açúcar” nunca deixou de ser um estrondoso sucesso.

Este fato incomoda profundamente os carcereiros, que fazem parte de uma imaginária “elite intelectual” que tenta exigir que o público compre suas brigas e causas, sejam elas a do beijo gay ou a do aborto, do incesto, da legalização das drogas ou seja lá qual for.

A verdade é que os autores – não apenas os de “Babilônia”, mas os da grande maioria das mais recentes novelas da Globo – queriam que o público fosse mais sofisticado e menos conservador do que ele realmente é. Os dramaturgos inserem em suas tramas as próprias angústias e ideologias e os números de audiência estão mostrando o quanto isto tem custado caro.

Tal teoria é testificada pelos altos índices da reprise de “O Rei do Gado” na própria Globo. Por que ela é um sucesso? Seria só porque não exibe um beijo gay? Obviamente não! A trama é um estouro porque representa a TV antiga, na qual as novelas eram um universo à parte que distraía trabalhadores e donas-de-casa cansados. Hoje, estas mesmas novelas tentam ser uma extensão do mundo real e a verdade é que todos nós já estamos saturados dele.

"Carrossel": Sucesso inesperado
“Carrossel”: Sucesso inesperado

CIRILO E SUA TURMA

É justamente neste encontro entre o anseio do público e a ilusão dos autores que entra o sucesso de “Carrossel”. Ela não foi escrita para “causar”, mas para entreter. É, como o SBT a apelida, uma “novela para a família”, afinal, sua classificação é Livre.

“Babilônia”, por sua vez, foi classificada pela Globo como “inadequada para menores de 14 anos”. Note bem: Esta classificação não foi dada por homofóbicos ou por pastores, mas pela própria emissora e, em última instância, pelo Ministério da Justiça.

Ora, se crianças menores de 13 anos não devem assistir à trama (isso quem diz é a própria Classificação!), logo, “Babilônia” não é uma novela para toda a família! Esta não é uma afirmação opinativa, mas factual. Transformar isto em polêmica é guerrear contra a própria lógica.

“Carrossel”, com todas as suas músicas e inocência, é um protesto silencioso – e, em grande parte, inconsciente – de um público que quer suas novelas de volta. Um público que não deseja bandeiras, polêmicas, discussões, debates…

Tudo que eles querem é chegar em casa e assistir à TV. Parece pouco para intelectuais e militantes. Mas é para o povo, e não para eles, que a TV existe!

A SEGUNDA CELA

Enquanto trancafiam numa cela aqueles que não gostam de “Babilônia”, um grupo exibe a segunda cela, afirmando que moram lá devido ao “preconceito do público sem cultura”.

Quem bate no peito dizendo que é livre para assistir à “Babilônia” deseja extirpar da Terra quem diz que é livre para não assisti-la. Não seria uma incoerência?

Será que não estamos diante de um caso em que a intolerância está disfarçada de liberdade? Use o controle remoto, seja qual for o seu botão favorito. É o seu livre-arbítrio que te livrará desta prisão ideológica!

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