Danilo: Odiado por uma patrulha ideológica
Danilo: Odiado por uma patrulha ideológica

Eu não gostaria de estar na pele de um pensamento. Os dias andam perigosos para eles. Se ousam pôr a cabeça para fora de casa, são ameaçados por rajadas de preconceito, tolice e algumas mortíferas bombas de efeito emburrecedor.

Não usamos algemas, mas nunca estivemos tão presos. Na Internet, nunca navegamos tanto, mas nunca estivemos tão “ilhados”. No Brasil atual, pensar não é crime, mas pode dar cadeia.

Danilo Gentili é um dos principais candidatos à prisão perpétua imposta pelo PPP, “Partido dos Proprietários dos Pensamentos”, um grupo que diz amar grandes causas, mas parece odiar bons argumentos.

Longe de ser uma unanimidade – o que é saudável -, Gentili tem sido alvo de um Morro do Alemão Virtual – o que é assustador – devido a recentes críticas aos mensaleiros, ao PT e aos políticos de forma geral.

O fato, corriqueiro por si só, torna-se alarmante devido à natureza das frases do ‘braço eletrônico’ do PPP. Eis algumas:

“Não critique o PT, Danilo, seu racista!”.

“Lave a boca para falar do Dirceu, Danilo, seu reacionário!”.

“Cresça e apareça, filhinho de papai direitista!”.

Em suma, o que eles querem dizer é isto: #$%&*@!

Esta onda de ódio leva quem tenta decifrá-la a uma triste conclusão: A razão da ira deste grupo não é a certeza de que estão certos, mas o vício de dizer que outros estão errados.

Danilo está sendo odiado porque pensa. Pior: porque pensa diferente deles. Pior ainda: porque dialoga com quem pensa diferente deles.

Seu Agora é Tarde pode ser acusado de muitas coisas. “Antidemocrático”, porém, não é um adjetivo que combine com o programa, que recebe de Marco Feliciano a Juarez da Tecpix.

Danilo, aliás, exerce a real democracia, aquela que não apenas suporta a presença do opositor, mas também permite que ele fale o que pensa. Mesmo viciado em tiradas e trocadilhos, Gentili dá ouvidos a seus convidados e, à sua maneira, os respeita.

Na semana passada, por exemplo, o Agora é Tarde recebeu Rodrigo Constantino, economista e blogueiro da VEJA, famoso por seus posicionamentos “conservadores”, outra palavra corrompida pelo PPP. Que outro programa daria espaço a Constantino, autor de um dos livros mais vendidos do momento, mas solenemente ignorado pela grande mídia?

No programa, Danilo tirou sarro da esquerda. Noto, porém, uma diferença interessante – e gritante – entre ele e seus opositores ideológicos: o humorista não está travando guerra alguma, mas apenas fazendo o seu trabalho, buscando grana e audiência, e simplesmente dizendo o que pensa.

Só isso, sem planos mirabolantes, estratégias militares ou patrocínio de estatais.

Danilo não está com uma “agenda” debaixo do braço e é isso que faz com que os guerrilheiros virtuais o odeiem, já que a categoria possui um ódio especial por aqueles que não se dividem em grupos, mas optam por pensar como indivíduos.

É esta mentalidade que deseja levar o pensamento puro e simples à extinção. O PPP está tentando transformar a discordância em guerra e a argumentação em golpe de estado.

***

Digamos que eu seja apaixonado por panquecas de frango e as coma sempre que possa, indicando-as para amigos, dizendo: “Cara, você devia experimentar panquecas de frango um dia!”.

Este é o mundo de Danilo e, convenhamos, o das pessoas normais.

No mundo do PPP, porém, eu seria apaixonado por panquecas de frango e, consequentemente, deveria detestar as de carne moída, protestando em frente a restaurantes que comercializem panquecas, criando uma página no Facebook (a foto de capa ilustraria um frango ao lado de uma foto de Che Guevara, para “vender mais”) e tweetando 16 horas por dia, vasculhando a expressão “carne moída” e rebatendo a todos os internautas que a utilizarem.

Um adendo: Neste cenário, eu não trabalho nem estudo, apenas me dedico à causa.

A depender dos meus contatos, acabaria criando uma ONG. Alguns dias depois, iria ao “Programa do Jô”. Tempos depois, cotado para “A Fazenda 7”, já teria me esquecido panquecas, pois estaria ocupado demais tentando defendê-las.

Gentili é odiado por fazer a sua parte para evitar um Brasil assim.

Há diferença entre defender uma tese e transformá-la em causa. Há diferença entre pregar algo a alguém e passar a detestar os que não concordam com a pregação.

Ainda na hipótese das panquecas, aposto que Danilo citaria minha ONG em tom de ironia, mas não hesitaria em me conceder espaço em seu programa (ainda que só para me escrachar) se isso lhe parecesse legal.

O que os disseminadores de ódio não entendem é que ‘amar A’ não significa ‘odiar B’ e que ‘discordar de X’ não significa ‘queimar vivos todos os que praticam X’.

Acho que essa ainda é a principal diferença entre os que pensam e os que guerreiam. Os primeiros querem crescer como indivíduos; os segundos, querem ver seu grupinho no topo.

Quanto a mim? Eu me contento em assistir ao Agora é Tarde. Só de vez em quando, é claro. Tenho certeza de que Danilo não me perseguirá só porque eu uso meu controle remoto.

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Arthur Vivaqua não é jornalista, mas publica. Não é escritor, mas escreve. Não é uma máquina, por isso pensa. Mantém um Blog pessoal. Ele sabe que aqui deveriam constar seu currículo e ocupações, por isso deixa claro que atua como gerenciador de mídias digitais.

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