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Globo silencia Jô Soares quando ele ainda tem muito a dizer

Duh Secco 19:30 :: 17/12/2016
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Globo tira Jô Soares do ar, mas prepara novo talk show; saiba detalhes
Patrimônio da TV brasileira, Jô Soares não pode, nem deve ficar fora do ar.

Não parecia que ia doer tanto. Ano passado, com sucessivos afastamentos por problemas de saúde, o fim se fazia inevitável e necessário. Mas neste 2016, com o término cravado para o fatídico 16 de dezembro, tal desfecho passou a parecer uma decisão precipitada – diante de tantas entrevistas que repercutiram não só pelas declarações dos entrevistados, como pelas manifestações do entrevistador. O último “Programa do Jô” soou como um término precoce. E como todo fim sem razão de existir, doeu; doeu muito – ainda que existisse razão, doeria.

A edição final foi marcada pela emoção de Jô Soares, o homem de 14.426 entrevistas (incluindo a última com, seu convidado mais constante nestes 28 anos de talk show, Ziraldo). Mais emocionados estivemos todos nós, em casa, habituados a “ir para a cama” com o Jô. É fato que nossos mitos um dia chegarão à finitude; mas, no caso do gordo mais beijoqueiro do Brasil, o desfecho parece longínquo.

Jô ainda tem muito a dizer. E a Globo errou, feio, ao não perceber isso. Não há peças de reposição no elenco do canal. Marcelo Adnet se revelou um engodo com a mistura de entrevista e “humor” do “Adnight” que, espantosamente, terá uma segunda temporada mesmo diante da repercussão negativa. Pedro Bial, o substituto oficial, pode vir a ser um grande entrevistador, mas, neste momento, nem o êxito de seu programa no GNT, nem a condução do “Na Moral” (um programa de debates, não de entrevistas) o credenciam para preencher a lacuna deixada por Jô Soares. Seus concorrentes, Danilo Gentili e Fábio Porchat, apostam mais no show do que no talk – válvula de escape para o conteúdo muitas vezes raso tanto de entrevistados, quanto dos entrevistadores. É evidente que uma hora haveria a necessidade do multimídia se ausentar no vídeo. Mas esta hora não é agora.

Afinal, Jô Soares ainda tinha muito a dizer. Esta última temporada – como ele frisou a cada edição e nós nos negamos a acreditar – do “Programa do Jô” surpreendeu pelo alto nível das conversas. Com tempo de arte reduzido e a diminuição do número de convidados, Jô pode explorar melhor as potencialidades do seleto time que passou pelo seu sofá. Dominou a imprensa, afugentou a concorrência e “zerou” a internet em encontros memoráveis com Fausto Silva, Fernanda Montenegro, Roberto Carlos… Acompanhou a efervescência política – e foi acusado de defender o PT da presidente impichada Dilma Rousseff – não só com convidados do meio, como também no “Meninas do Jô”, talvez sua melhor criação nos últimos anos; farão falta os embates verbais, cheios de doçura e cumplicidade, que travava com Lilian Witte Fibe.

Para sorte dos telespectadores – e talvez do SBT – e para azar da Globo, Jô Soares não pretende se aposentar. Isto ficou claro no monólogo que tradicionalmente abriu o programa durante todos esses anos, ontem em tom mais sóbrio e terno. Uma frase estrategicamente pensada para gerar indagações no público acendeu nos telespectadores mais atentos a possibilidade de uma segunda estadia na emissora de Silvio Santos, a quem agradeceu quase de joelhos – “esse programa modificou minha vida e foi graças a ele [Silvio] que estou aqui até hoje”, palavras do gordo. Também não está distante a possibilidade de ingresso nos canais Globosat. Jô, no entanto, é grande demais para uma TV fechada.

E por outras declarações feitas também no derradeiro “Programa do Jô”, não parece estar em paz com o Grupo Globo a ponto de fechar um novo contrato. O diretor-geral da emissora, Carlos Henrique Schroder, sentado na plateia à frente de Jô, sequer foi mencionado pelo apresentador. Com uma pontinha de ressentimento na entonação, frisou o quanto foi bem quisto por “seu Roberto” e, jocosamente, citou Roberto Irineu, hoje à frente da holding da família Marinho. Só o tempo (e a sinceridade educada de Jô) dirá se havia ali uma rusga ou foi só uma percepção errônea de milhares de telespectadoras buscando respostas para esse final nada feliz.

Fato é que a partir de segunda todos os insones estarão órfãos de um Jô Soares ainda muito vivo e cheio de histórias para ouvir e para contar. Que seja mesmo “daqui a pouco, a gente volta”, como ele fez questão de dizer no encerramento do “Programa do Jô” – me recuso a usar o termo “despedida”. Volta logo, Jô!


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