Gugu e Suzane: Encontro gerou controvérsias
Gugu e Suzane: Encontro gerou controvérsias

No jornalismo, utilizar bem uma boa pauta pode ser mais difícil do que consegui-la. É possível, por exemplo, encontrar-se com Bill Gates na rua, ter um gravador no bolso, ganhar um minuto de sua atenção, mas simplesmente não saber o que lhe perguntar ou como se portar.

Neste cenário, não basta obter a “exclusiva”, é preciso usufruir dela.

Em seu retorno à TV, Gugu demonstrou não ter problemas com isso e apresentou uma mescla perfeita de oportunismo e sabedoria. O primeiro surgiu ao conseguir uma exclusiva com Suzane von Richthofen; a segunda, veio através da forma de conduzi-la.

Alguns criticaram os sorrisos e os bons modos de Gugu durante o bate-papo: “Como pode um homem ser tão simpático com uma assassina? Como pode um apresentador transformá-la em celebridade?”. A resposta para ambas as perguntas é simples: Ali não estava o homem, tampouco o apresentador. Diante de Suzane, estava um entrevistador.

É mais do que óbvio que Gugu, alguém que sempre expressou publicamente seu amor pela mãe e já citou suas lembranças do pai, condena a atitude de Suzane. Que tipo de ser humano não a condenaria?

É igualmente óbvio que ele não a tratou como uma celebridade. Não houve game, táxi, pegadinha, homenagem. Houve apenas perguntas seguidas por respostas.

Gugu, de forma magistral, permitiu que Suzane se abrisse e conseguiu arrancar de sua entrevistada revelações importantes, impactantes e, quando menos, interessantes.

Não há erro em dialogar com uma assassina. Somente destrinchando-a será possível entender o que a levou a cometer tal insanidade e este conhecimento pode ser útil para a compreensão de tragédias passadas e até mesmo para a prevenção de futuras.

Seria errado se Gugu mostrasse uma assassina que olhasse para as câmeras e dissesse: “Matei mesmo e mataria outra vez. Façam o mesmo!”.  O que ele mostrou, porém, foi uma Suzane aparentemente arrependida.

Eis aqui um importante adendo: A sinceridade do “arrependimento” de Suzane não é da alçada de Gugu. Se ele é verdadeiro ou não, isso só diz respeito a ela, não ao entrevistador.

Foi graças à paciência e à gentileza demonstradas que Gugu conseguiu o que muitos jornalistas mais gabaritados do que ele não conseguiriam: Fazer com que Suzane se sentisse ouvida, e não acuada. O resultado foi uma coleção de falas reveladoras que podem gerar grandes reflexões.

Foi produtivo, por exemplo, descobrir que uma homicida pode receber um salário e gastá-lo com hidratantes e esmaltes. Não é uma boa pauta para ser discutida? Tais benefícios são compatíveis com a rotina ideal de uma acusada de assassinato?

Foi igualmente interessante ouvir Suzane falar que tenta “se auto perdoar todos os dias”. Até que ponto o arrependimento pode superar um erro? Até onde o perdão humano pode ir? É possível superar uma tragédia? Não são estes bons debate filosóficos (ou, para alguns, religiosos)?

As respostas de Suzane produziram perguntas que afetam toda a sociedade.

***

Gugu foi tecnicamente perfeito.

Todas as suas perguntas foram respondidas, suas réplicas vieram em bons momentos e seu olhar humanizado trouxe à entrevista uma linha narrativa que dificilmente seria encontrada por outrem.

Eu escrevi “humanizado”? Errei. A palavra correta seria “imparcial”. E é justamente ela, a imparcialidade, que faltou a muitos telespectadores e analistas. Nada mais do que normal, é claro, pois telespectadores e analistas não precisam ser imparciais. Apresentadores também não.

Mas entrevistadores sim. Estes só terão sucesso se abraçarem a imparcialidade, tanto diante das vítimas quanto dos carrascos.

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