Ana Paula Arósio em “Hilda Furacão” (Imagem: Arley Alves / Globo)

– Lançado em 1991, o romance “Hilda Furacão”, do jornalista e escritor mineiro Roberto Drummond, foi adquirido pela Globo no ano seguinte. Em entrevista ao jornal “O Globo” de 19 de outubro de 1997, Drummond revelou que a adaptação foi entregue a Walter George Durst. A emissora não aprovou a sinopse, passando o projeto para Luiz Carlos Maciel e Tiago Santiago. Por fim, Glória Perez se encarregou do texto.

– Na mesma entrevista, o autor do livro fala sobre a possibilidade de Daniella Perez estrelar a minissérie. Daniella, filha de Glória, foi brutalmente assassinada por Guilherme de Pádua, seu colega de elenco em “De Corpo e Alma”, e Paula Thomaz, em dezembro de 1992.

– “Hilda Furacão” voltou à pauta em maio de 1997, quando Glória Perez – após o julgamento dos assassinos de sua filha – retomou o trabalho. A previsão era de que a produção fosse lançada no segundo semestre, com direção-geral de Jorge Fernando.

– Letícia Spiller e Marcello Novaes, então casados e dirigidos por Jorginho em “Zazá”, foram cogitados para os protagonistas Hilda Furacão e Frei Malthus. Já Marcos Winter se encarregaria de Roberto Drummond, narrador e personagem, homônimo do autor do romance – conservando quase todas as suas características. Ainda, Cláudia Jimenez como Maria Tomba-Homem (defendida por Rosi Campos) e Diogo Vilela na pele de Cintura Fina.

– Em setembro de 1997, já sob o comando de Wolf Maya, “Hilda Furacão” sofreu alterações. Cláudia Abreu assumiu a protagonista. Também foram cogitados, nesta época, Floriano Peixoto (como Orlando Bonfim, entregue a Chico Diaz), Juca de Oliveira, Marieta Severo, Selton Mello e Vera Holtz. Vale considerar que, lá em 1992, Drummond chegou a sugerir Letícia Sabatella e Lúcia Veríssimo para o principal papel, bem como José Mayer para Malthus.

Rodrigo Santoro e Ana Paula Arósio em “Hilda Furacão” (Imagem: Divulgação / Globo)

– Em outubro, surgiram as primeiras informações acerca do interesse da Globo em Ana Paula Arósio, recém-saída de “Os Ossos do Barão”, do SBT. As negociações entre os canais não foram fáceis. O contrato de Ana Paula como a emissora de Silvio Santos se estendia até maio de 1998. O empresário se negou a rescindi-lo, emprestando sua estrela à casa dos Marinho, mediante a condição de voltar à TV que a revelou, participando de quatro episódios do “Teleteatro”, adaptação de textos mexicanos de Marisa Garrido, de qualidade bastante duvidosa.

– Dias após o acerto, o SBT surgiu com outra exigência: a de que Ana Paula Arósio renovasse seu contrato por dois anos, após a passagem pela Globo. O canal já previa o intento da emissora-líder de ter a atriz em seu casting, em definitivo. Carolina Kasting, já escalada para Bela B., surgiu como possibilidade para Hilda Furacão, caso as negociações com Ana Paula naufragassem. Assim como Luana Piovani, que em 1993, assumiu a personagem oferecida a Arósio em “Sex Appeal” (1993). Na época, Ana Paula não quis deixar a consolidada carreira de modelo em São Paulo para se aventurar na televisão, no Rio de Janeiro – em 1994, ela ingressou no núcleo paulistano de teledramaturgia do SBT, atendendo ao chamado de Nilton Travesso para “Éramos Seis”.

– Ventilou-se ainda a possibilidade de Tarcísio Filho, então namorado de Ana Paula Arósio, também integrar o “empréstimo”. O ator, contudo, permaneceu no SBT, saindo em 1998, para integrar o elenco de “Suave Veneno” (1999).

– A protagonista chegou ao set de gravação, em Tiradentes (Minas Gerais), em 7 de novembro. A primeira cena de Ana Paula como Hilda foi a da prostituta sobrevoando a cidade; na segunda-feira (10), se despiu em um cruzeiro, na sequência em que seduz Malthus. O contrato de cavalheiros entre Globo e SBT expirava em 31 de janeiro de 1998, o que obrigou Arósio a trabalhar cerca de 14 horas por dia.

– Conforme combinado, Ana Paula Arósio se apresentou à casa que a revelou em 2 de fevereiro, para as tomadas de ‘A Estrangeira’, episódio do “Teleteatro” no qual dividiu a cena com Delano Avelar, Marcelo Picchi e Tônia Carrero. Foi seu último trabalho na casa. Em junho, a atriz já gravava um episódio da série “Mulher”, escrito por Glória Perez especialmente para ela. A autora também pretendia contar com Ana Paula no remake de “Pecado Capital”, lançado em outubro. Já Miguel Falabella a convidou para “Escândalo”, texto para a faixa das 19h que acabou engavetado. A primeira novela de Arósio na Globo foi “Terra Nostra” (1999).

– Também do SBT veio Danton Mello, que após o protagonista Héricles, de “Malhação” (1995), atendeu chamado da produtora JPO para “Dona Anja”, veiculada pelo canal de Silvio Santos em 1996. Para viver Roberto Drummond, Danton se encontrou com o autor. Gestos dele, como a constante mão no queixo, foram reproduzidos pelo ator. Mello também voltou a fumar, após dois anos longe do cigarro.

– Já a preparação de Rodrigo Santoro para Malthus incluiu a leitura dos salmos da Bíblia, filmes religiosos, conversas com padres de diversas ordens – especialmente a Dominicana, seguida pelo frei – e a observação da postura de párocos durante cerimônias como casamentos e batizados. Malthus representou a consagração de Santoro, que, no ano anterior, havia sido contemplado com o protagonista de “O Amor Está no Ar”, resultado de sua excelente participação em “Explode Coração” (1995), atualmente em reprise no Viva.

Matheus Nachtergaele em “Hilda Furacão” (Imagem: Divulgação / Globo)

– “Hilda Furacão” impulsionou as carreiras de Matheus Nachtergaele (Cintura Fina) – destaque em filmes como “O Que é Isso, Companheiro?” (1997) e “Central do Brasil” (1998) –, Daniel Boaventura (Zico), Serjão Loroza (M.C.) e Thiago Lacerda (Aramel). De todos, apenas Boaventura e Loroza eram, realmente, estreantes: Matheus esteve em dois episódios de “A Comédia da Vida Privada” (1997) e Thiago marcou presença em “Malhação” (1997).

– A produção reproduziu a zona boêmia de Belo Horizonte na cidade cenográfica. Já para Santana dos Ferros, foi escolhida a histórica Tiradentes, no interior de Minas Gerais. Comerciantes e moradores se incomodaram com o vai-e-vem de caminhões, ruas fechadas e interdições em pontos turísticos. Toda a investida da Globo, contudo, contou com o aval de órgãos competentes.

– Por conta da Copa do Mundo na França, a estreia foi adiantada de 2 de junho para 27 de maio, com o intuito de conceder um tempo maior para o público se habituar com trama e personagens, não desistindo da produção mediante alterações de grade. O lançamento se deu na quarta-feira, 27, logo após a série “Mulher”, por conta da transmissão da Copa do Brasil, na terça-feira, 26.

– Fato é que “Hilda Furacão” foi um grande sucesso desde o início. A minissérie acabou com o martírio da Globo pós-novela das 20h, causado pelo “Ratinho Livre”, atração da Record. Nem mesmo estratégias de guerra – como a presença de Gugu Liberato, então contratado do SBT, no palco de Carlos Massa – foram capazes de frear ‘Hilda’.

– A minissérie incitou a curiosidade do telespectador a respeito do paradeiro de Hilda e de outros “personagens reais”. Surgiram inúmeras correntes: a de que a prostituta casou-se com o jogador de futebol Paulo Valentim, seguiu para o Rio de Janeiro e, posteriormente, Argentina e México, foi a que ganhou mais força. Hilda Furacão, então Hilda Maria Valentim, morreu em 29 de dezembro de 2014, na véspera de seu 84º aniversário, em um asilo em Buenos Aires. Outros boatos ligavam a história de Hilda à trajetória da atriz Lady Francisco, também eleita “garota do maiô dourado” – e que também desfez um casamento quase no altar. Burburinho também acerca do destino de Cintura Fina: alguns alegaram que o travesti morreu na prisão, após ferir policiais com sua navalha; outros, de que ele falecera vítima do vírus HIV.

– O Partido Social Democrático (PSD) tentou suspender a exibição de “Hilda Furacão”. O PSD, coligado ao PSDB do então presidente Fernando Henrique Cardoso, alegava que as citações ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – apoiador de Lula (PT) – feria a legislação eleitoral.

– A atriz Priscila Luz foi atacada pelo leopardo que dividia a cena com Stenio Garcia (Tonico Mendes). O animal, suspostamente, ficou enciumado ao ver o ator em cenas de intimidade com Priscila numa cama. A atriz foi ferida na nuca, tendo de ser submetida a tratamento medicamentoso e ao uso de colar ortopédico. A Globo custeou todas as despesas médicas.

Caio Junqueira e Danton Mello em “Hilda Furacão” (Imagem: Divulgação / Globo)

– A Globo cogitou uma reprise da minissérie em 2006, por conta do horário eleitoral. “Hilda Furacão” acabou preterida por “A Casa das Sete Mulheres” (2003). Os planos de lançar uma edição em VHS também foram abortados. ‘Hilda’ chegou às lojas em julho de 2002, em DVD. Foi reapresentada no Canal Viva em duas ocasiões (2010 e 2013). E no quadro ‘Novelão’, do Vídeo Show, em 2015 (em cinco capítulos).

– O livro de Roberto Drummond se encerra com o desencontro de Hilda e Malthus em 1º de abril de 1964, quando os dois combinam de fugir juntos – e acabam impedidos pelo golpe militar que encerrou o governo de João Goulart. Glória Perez inseriu uma cena no qual o casal protagonista se reencontrava, durante um protesto contra a ditadura.

– Também no último capítulo, Aramel realiza o sonho de atuar em Hollywood. Imagens de Thiago Lacerda foram inseridas em cenas do filme “El Cid” (1961), com Charlton Heston e Sophia Loren. Antes da opção por este clássico, a Globo tentou a liberação de longas-metragens com Marylin Monroe e “Cleópatra” (1963), com Elizabeth Taylor.

– Após “Hilda Furacão”, Glória Perez apresentou à Globo uma adaptação de “Os Maias”, de Eça de Queiroz. O projeto, contudo, só saiu do papel em 2001, então desenvolvido por Maria Adelaide Amaral.

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