Protagonista burra de “A Dona do Pedaço” afronta inteligência do público

Duh Secco - 07/07/2019
COMPARTILHE
Burrice de Maria da Paz (Juliana Paes), de “A Dona do Pedaço”, torna novela enfadonha (Imagem: Artur Meninea / GShow)

O capítulo da última sexta-feira (5) de “A Dona do Pedaço” chegou ao fim com a descoberta de Maria da Paz (Juliana Paes) acerca do filho cadeirante que Régis (Reynaldo Gianecchini) esconde, em mais uma investida de Amadeu (Marcos Palmeira) para impedir o casamento da ex com o bon-vivant. Ganchão? Sim, caso nós não soubéssemos que Maria vai cair em mais uma desculpa esfarrapada de Régis – o casório deve ir ao ar na próxima segunda-feira (8).

Com pouco mais de um mês no ar, “A Dona do Pedaço” já afronta a inteligência e abusa da paciência do telespectador. Para seguir com a sinopse, claramente mal estruturada, Walcyr Carrasco deturpou o perfil da protagonista, justamente o que a novela parecia ter de melhor. A filha de pistoleiros que progrediu vendendo bolos, tornando-se dona de uma rede de confeitarias, agora é uma parva facilmente ludibriada pelo namorado e pela filha Josiane (Agatha Moreira).

Para fazê-la vítima das armações primárias de Jô e Régis, Carrasco tenta forçar o público a acreditar que uma empresária do ramo alimentício não sabe o que é canapé e desconhece os valores comumente cobrados por um buffet. Então a dona dos Bolos da Paz não está habituada a fornecer sobremesas para serviços do tipo? E a confiança no administrador Márcio (Anderson Di Rizzi) é tamanha que Maria não buscou sequer aprender a fazer as mais básicas das contas?

Não é a primeira vez que Walcyr Carrasco submete a coerência de suas novelas à necessidade de preencher capítulos e produzir ganchos capazes de prender o público. O autor é hábil nesta última tarefa – os índices de audiência atestam o êxito de “A Dona do Pedaço”. Mas, o fato de falhar miseravelmente na manutenção do perfil de seus personagens começa a incomodar até o mais fiel dos fãs. A atual novela das 21h não é de todo ruim, mas a condução começa a torná-la “inassistível”.

Maria do Carmo (Regina Duarte), de “Rainha da Sucata”; a prima inteligente de Maria da Paz (Imagem: Divulgação / Globo)

As primeiras notícias a respeito de “A Dona do Pedaço” indicavam a inspiração de Walcyr Carrasco, na concepção de Maria da Paz, em Raquel de “Vale Tudo” (1988) e Maria do Carmo de “Rainha da Sucata” (1990), ambas defendidas por Regina Duarte. Da primeira, a aversão da filha Maria de Fátima (Gloria Pires) à honestidade da mãe e o crescimento profissional e financeiro através da culinária. Da segunda, a espontaneidade de quem veio de baixo, incomodando seus contatos na alta sociedade.

Em Raquel e Maria do Carmo, no entanto, sobravam a astúcia e a perspicácia que a “prima” Maria da Paz, um dia, demonstrou ter. Raquel e Do Carmo não abriram mão das coisas boas dos “tempos de pobre”, mas buscaram aprender o mínimo necessário para conviver com madames, empresários inescrupulosos e cafajestes. Curioso constatar que, quase trinta anos depois, Da Paz, tipo parecido, se porte de forma tão burra. Sinal dos tempos ou da incapacidade de quem escreve?

Manuzita (Isabelle Drummond), de “Verão 90”, padece com epidemia de burrice nas novelas da Globo (Imagem: Artur Meninea / GShow)

Contágio

A burrice, aliás, não é defeito só de Maria da Paz. A atrapalhada Manuzita (Isabelle Drummond) de “Verão 90”, lesa e cega de ciúme – do João (Rafael Vitti) que lhe deu inúmeras provas de amor e fidelidade –, foi incapaz de ouvir o namorado e juntar lé com cré ao flagrá-lo na casa de Moana (Giovana Cordeiro). Artifício das autoras Izabel de Oliveira e Paula Amaral para empurrar a trama das 19h até os últimos dias de julho.

Em “Órfãos da Terra”, o boa praça Jamil (Renato Góes) acredita piamente que Basma / Dalila (Alice Wegmann), figura que ninguém sabe de onde veio e para onde vai, poderá salvá-lo dos problemas financeiros arranjados por Miguel (Paulo Betti). Jamil está deixando se envolver pela criatura, para desespero de Laila (Julia Dalavia), a refugiada que lutou bravamente pela vida e agora age como a mais completa das trouxas.

Como bem destacou Nilson Xavier em seu blog no “Teledramaturgia”: “As três novelas da Globo atualmente no ar usam do subterfúgio mais raso possível para que suas tramas possam seguir adiante: a burrice de seus protagonistas“. Isso, sem falar em coadjuvantes como Chiclete (Sergio Guizé), também de “A Dona do Pedaço”, o matador que desconhece a própria vítima…

Marcílio Moraes deixou a Record, após anos de contribuição à dramaturgia da emissora (Imagem: Reprodução / Facebook)

A coluna lamenta a saída de Marcílio Moraes na Record. Ou melhor: a coluna lamenta o fato de Marcílio estar fora do ar há tanto tempo – o mesmo para Carlos Lombardi e Lauro César Muniz. O autor deixa a casa onde concebeu obras-primas como “Essas Mulheres” (2005) e “Vidas Opostas” (2006) após cinco anos de geladeira, período em que a Record apostou, quase sempre, em enredos bíblicos. Em tempos de tramas e personagens inverossímeis, saber que Marcílio Moraes está “inutilizado” dá uma tristeza…

Ligo

“Casos de Família”, especialmente episódios como o da última segunda-feira (1º). A discussão de temas como violência doméstica deixa claro que o programa pode ir além do barraco. Não por acaso a edição em questão emplacou a vice-liderança de audiência, prova do interesse do público nas explanações sobre o tema e na prestação de serviço. Destaque para a psicóloga Anahy D’amico, que, com seu comentário final, esclarece os “meandros” do comportamento humano e facilita o entendimento dos debates.

Desligo

“Malhação – Toda Forma de Amar” e o rame-rame de Rita (Alanis Guillen) e Lígia (Paloma Duarte), que disputam a guarda da pequena Nina. Todo dia Rita tenta ver a filha “clandestinamente”; todo dia Lígia flagra e ameaça ir à Justiça. O conflito já esgotou. A entrada da vilã Martinha (Beatriz Damini) no circuito talvez esquente a trama. Ou já é hora de partir em definitivo para o romance de Rita e Filipe (Pedro Novaes), desafiando a família para ficar com a mãe biológica de sua irmã adotiva.

Patricia Abravanel volta à telinha com nova versão do “Topa ou Não Topa”, no SBT (Imagem: Reprodução / Instagram)

Fecha a conta

O SBT anunciou nesta sexta-feira (5) a estreia do “Topa ou Não Topa” com Patricia Abravanel. O game-show será exibido a partir de 3 de agosto, 15h30, entre o “Programa da Maisa” e o “Programa Raul Gil”. Pode dar muito certo – como os games do “Caldeirão do Huck” – ou pode não dar em nada. Fato é que Patricia se mostrou desenvolta quando cobriu a licença-maternidade de Eliana. Logo, por que não um auditório para a filha número 4 de Silvio Santos? Ou um formato menos frio, como o “Family Feud”?

CONTINUE LENDO →

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

Deixe sua opinião!