“Ribeirão do Tempo” faz mais sucesso na atual reprise que em sua exibição original

A Record vive (mais) uma fase de crise em sua dramaturgia. Foi-se a época dos excelentes índices de “Os Dez Mandamentos”, com direito até a sucessivas vitórias sobre a Globo em pleno horário nobre. Agora, a emissora sua a camisa para contornar os desempenhos coxos de “Belaventura” – a qual por vezes chega a amargar o quarto lugar de audiência, atrás da Globo, SBT e até da Band – e de “Apocalipse” – que vem colecionando derrotas vergonhosas para a infantil “Carinha de Anjo”, do SBT.

Tamanho declínio em pouco mais de dois anos não é fruto do acaso. Há tempos, desde quando a saga de Moisés (Guilherme Winter) estourava na audiência, o canal de Edir Macedo peca pelas decisões precipitadas e imaturas em termos de planejamento de programação. A emissora explorou até a última gota do sucesso de “Mandamentos”, forçando um desgaste precoce do filão bíblico, que desembocou no fracasso de “O Rico e Lázaro”, título anterior da faixa de novelas.

Ao invés de repensar sua rota diante dessa queda “inesperada” na preferência do público, a emissora insistiu em seu planejamento inicial e apostou em uma produção igualmente bíblica, porém contemporânea. Uma renovação parcial válida, que poderia dar certo num momento futuro, mas não em um contexto em que a temática religiosa precisava de um resgate à altura de seus primeiros êxitos. A mudança brusca da Antiguidade para o mundo contemporâneo certamente só serviu para afugentar ainda mais os espectadores que começaram a migrar para outros canais com o fim de “A Terra Prometida”.

Um outro lado da questão, porém, se faz observar quando comparamos a rejeição a “Belaventura” e “Apocalipse” ao sucesso da reprise de “Ribeirão do Tempo”. Com médias de 7 pontos em plena faixa vespertina, a trama original de 2010 tem garantido com facilidade a vice-liderança de sua faixa e vem se posicionando como o folhetim mais assistido da grade atual da Record.

Interessante perceber que o padrão de qualidade ofertado por “Ribeirão” foge muito dos produtos mais recentes da emissora. Seu autor, Marcílio Moraes, usa o dia a dia da cidade fictícia que dá nome à história como uma verdadeira sátira ao Brasil da época em que a escreveu – e que não difere muito do país de hoje. Com referências inteligentes e bem-humoradas a eventos e personagens político e sociais da época – nem o presidente Lula escapou -, não seria exagero dizer que ela tem um quê da icônica “Roque Santeiro” (1990), de Dias Gomes. Qualidades que o espectador tem feito questão de valorizar, até mais do que na primeira exibição da obra.

A Record tem algo a aprender desse sucesso inesperado e até um pouco tardio. A alta de “Ribeirão do Tempo” talvez esteja avisando à emissora que o momento de monopolizar tramas místicas e conservadoras passou, e que a plateia está pedindo por outras propostas em termos de dramaturgia. O filão bíblico funcionou muito bem durante algum período, é verdade, mas é bobagem insistir em vê-lo como única opção quando os anseios populares claramente apontam em outra direção.

É hora de recalcular rota, rever conceitos, traçar novas estratégias – e fazê-lo com precisão, não ao Deus dará. A própria escolha de “Luz do Sol” para substituir “Ribeirão” nas tardes do canal é uma prova de que essa falta de discernimento ainda ronda a direção de programação do canal – a trama de Ana Maria Moretszohn não tem a metade da força da atual reprise. A nós, telespectadores e críticos (formais ou informais) do que vemos na telinha, só nos resta torcer para que a Record reencontre o caminho e as ferramentas para apurar seu diálogo com a audiência.

____________________________________________

Felipe Brandão é jornalista diplomado pela Faculdade Pitágoras (PR) e atua desde 2010 escrevendo sobre televisão e cinema. Aficionado por entretenimento, com predileção especial pelas novelas – nacionais e estrangeiras -, possui passagens por veículos como as revistas “Conta Mais” e “TV Brasil” e integra desde 2016 a equipe do RD1, nas funções de redator e editor-assistente.

____________________________________________

Saiba Mais:

“Celebridade” tem tudo para (re)cair no gosto do público

Vendida como superprodução, “Apocalipse” faz estreia trash na Record

Acompanhe muito mais na sua Rede Social preferida:

Instagram: @RD1Oficial

Twitter:   @RD1Oficial

Facebook: @RD1Oficial  


Recomendados para Você:

COMENTÁRIOS - Interaja Você Também! ⬇

Os comentários aqui não refletem a opinião do site e seus autores. Está opção de comentário NÃO publica automaticamente nada em seu Facebook, fique tranquilo!