Ainda que se arrependam, Kevin Spacey e William Waack terão que levar consigo seus respectivos carmas pelo resto da vida

O ano de 2017, definitivamente, será lembrado por grandes revoluções sociais. As duas últimas semanas, especificamente, foram marcadas por grandes escândalos sexuais e falas preconceituosas dentro e fora do Brasil. Os mais recentes casos envolvem Kevin Spacey, da série “House Of Cards”, e William Waack, o âncora do “Jornal da Globo”.

E os dois têm muito em comum, apesar de serem de países diferentes e protagonizarem escândalos distintos (Spacey foi acusado de abuso sexual e Waack, de racismo): nenhum deles esperava perder trabalhos por atitudes do passado. Atitudes que outrora poderiam ser consideradas “normais”, que não despertavam necessidade de autocrítica e que nem eles mesmos lembravam que tinham cometido.

O intérprete do lendário Frank Underwood foi demitido da série da Netflix por ser acusado de assediar homens. O assédio em si já é algo condenável. Entretanto, sempre foi pouco discutido com seriedade quando envolve homens, já que homem tocando indecentemente em mulher é visto como algo viril. Se forem homens gays, a coisa piora, porque “homens gays são promíscuos” (entre aspas).

O sexo masculino sempre foi condicionado ao sexo, independentemente da sexualidade. Estupro masculino é algo que não é levado a sério. Exemplo disso são os comentários na internet em notícias sobre menores que se envolvem sexualmente com suas professoras mais velhas. Nesses casos, o garoto que sofre o abuso é sempre visto como “sortudo”. O adolescente, aliás, é estimulado desde cedo a se masturbar e a perder a virgindade (no caso das meninas, é o oposto).

Já Waack, afastado temporariamente (mas com grandes chances de nunca mais voltar ao ar pela Globo) decorre de um tipo de atitude ainda mais normatizada: a de menosprezar negros. Em época não muito remota, a expressão “Isso é coisa de preto”, usada comumente para denominar alguma atitude negativa, já foi considerada “brincadeira”.

Renegar o negro a algo inferior é uma conduta que faz parte da cultura brasileira. Cresci ouvindo histórias de que minha avó aconselhava os filhos e netos a se casarem com homens e mulheres brancas para “limpar a família”. Muitos cresceram ouvindo pessoas próximas falando “amanhã é dia de branco”, “isso é serviço de preto” ou “nasceu com um pé na cozinha”.

Casos de abuso sexual e piadas racistas não são uma novidade, mas a reação forte contra elas é. Houve um tempo em a convivência social era exclusivamente presencial, onde tudo ficava restrito a memória de um pequeno grupo. Hoje, tudo é registrado online e divulgado publicamente. Waack, jornalista bem informado como é, sabe que essas expressões não são mais aceitáveis e isso torna a atitude dele no vídeo vazado ainda mais grave.

Spacey e Waack são da era pré-internet, onde misoginia, machismo, homofobia, transfobia, segregacionismo e o estímulo ao assédio eram considerados normais. Entretanto, atitudes como as deles não são mais toleradas em um mundo onde todos têm informação, opinião e sabem dos seus direitos. Agora, ainda que se arrependam, esses dois veteranos da mídia terão que levar consigo seus respectivos carmas pelo resto da vida. O tribunal da rede não perdoa.

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Henrique Brinco é formado em jornalismo pelo Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge), de Salvador. Escreve sobre mídia e cultura pop há nove anos em grandes veículos de comunicação, com passagens pela Rede Record de Televisão e Rede Bahia (afiliada na Rede Globo na capital baiana). No RD1, é o responsável pela editoria de Famosos.

Envie ideias, críticas e sugestões de pauta para o e-mail brinco@rd1audiencia.com
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