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Gabriela Spanic, protagonista de “A Usurpadora”; SBT hoje negligencia tramas mexicanas e adultas (Imagem: Divulgação / Televisa)

Há 20 anos, por volta das 21h, o SBT exibia o primeiro capítulo de “A Usurpadora”. A novela estrelada por Gabriela Spanic, na pele das gêmeas Paola e Paulina, tornou-se um clássico da emissora – em seu país de origem, foi, até “O Privilégio de Amar” (que a substituiu lá e aqui), o folhetim de maior audiência da Televisa. Pois bem. Duas décadas depois, o canal de Silvio Santos negligencia tanto tramas mexicanas, quanto adultas.

Histórico

A escolha de “A Usurpadora” se deu em meio à “aversão” do “homem do Baú” a novelas brasileiras. Silvio havia amargado decepções com produções terceirizadas – como “Dona Anja” (1996), da JPO – e próprias – “Os Ossos do Barão” (1997). Na mesma época, experimentou o êxito da trilogia de Thalia – “Maria Mercedes”, “Marimar” e “Maria do Bairro” –, após um período de baixa dos folhetins mexicanos.

Em 1998, porém, Silvio reabriu o setor de dramaturgia com “Fascinação”, animado com o êxito do autor Walcyr Carrasco à frente de “Xica da Silva” (1996), na Manchete. Para substitui-la, cogitou-se “Segredo”, também de Carrasco, centrada na paixão de um playboy, à espera da herança do avô, pela esposa “caipira” arranjada por sua amante. E a adaptação da colombiana “Águas Mansas” – versão original de “Pasión de Gavilanes”, exibida (em termos) pela RedeTV!.

O SBT, contudo, mantinha duas tramas prontinhas na gaveta: a terceirizada “O Direito de Nascer” e a própria “Pérola Negra”. Ambas foram submetidas à avaliação das colegas de auditório de Silvio Santos; optou-se pela exibição de “Pérola Negra”, estrelada por Dalton Vigh e Patrícia de Sabrit. A novela conteve o avanço da concorrente Record, parceira da JPO em “Estrela de Fogo” e “Louca Paixão”.

Quando “Pérola Negra” se aproximava do fim, a direção da emissora voltou a cogitar a exibição de “O Direito de Nascer”. Mas o tom soturno da produção jogou contra. Com “Louca Paixão” mostrando serviço, o SBT decidiu recorrer à “A Usurpadora”, lançada pela Televisa no anterior, preterindo “Rosalinda”, protagonizada por Thalia. Paola e Paulina não só abriram vantagem sobre a Record, como também encostaram na Globo, para desespero do “Jornal Nacional” e da novela das oito, “Suave Veneno”.

Gabriela Spanic virou celebridade por aqui; peregrinou por todos os programas da casa – atuou, inclusive, em “A Xupadora”, sátira do “Programa do Ratinho” – e gravou chamadas para a reta final do folhetim. “A Usurpadora” chegou ao fim com picos de 30 pontos; no ano seguinte, inaugurou, com o spin-off “Mais Além da Usurpadora” e com sua primeira reprise, duas faixas de mexicanas nos fins de tarde.

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Ana Brenda Contreras e José Ron, protagonistas de “A Que Não Podia Amar”, em exibição no SBT (Imagem: Divulgação / Televisa)

Panorama

Dito tudo isso, chamo atenção para a situação das tramas importadas no SBT de hoje. É certo que a Televisa já não fabrica êxitos como antigamente, mas o processo de desgaste das mexicanas no Brasil se deve, única e exclusivamente, às mudanças e cancelamentos de horários, escolhas equivocadas e inúmeras reprises – “A Usurpadora” foi reapresentada em seis ocasiões.

Com “A Que Não Podia Amar” e a reposição de “A Dona”, a emissora respira com certa tranquilidade. Ambas registram índices superiores ao “Fofocalizando” e ao “Casos de Família”, programas próprios. Não estou aqui defendendo formatos tipo exportação e negligenciando a mão-de-obra brasileira. Apenas chamando atenção para o fato do SBT “desmerecer” os folhetins, mesmo com estes em alta.

Nas redes sociais, há inúmeras queixas ao tratamento dispensado às tramas, da edição de cenas – mesmo com certo “relaxamento” da Classificação Indicativa – às aberturas. O disse-me-disse acerca de problemas com dublagem, o que compromete a escolha de substitutas e desencadeia, segundo consta, novas reprises, também incomoda. O departamento parece viver na instabilidade.

Chamo atenção ainda para o desprezo por novelas próprias e adultas. A última foi “Corações Feridos” (2012). É certo que os enredos infanto-juvenis, ou “para a família” como costumam chamar, representam cases de sucesso. O que não deveria, porém, inviabilizar a retomada de folhetins “para maiores” – como cogitado quando o SBT encerrou contratos com grandes produtoras de filmes.

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Zezé Motta e Gracindo Jr em cena de “Ouro Verde”, novela portuguesa que a Band estreia em breve (Imagem: Divulgação / TVI)

Sobe o som

Falando em conteúdo “de fora”, a Band escalou Daniel para a abertura de “Ouro Verde”, novela portuguesa com bons nomes do Brasil no elenco. O cantor já embala as chamadas com o hit ‘Casava de novo’. Curioso é que o SBT adotou expediente similar na fase áurea das mexicanas; Paulo Ricardo, por exemplo, surgiu em áudio e vídeo na vinheta de “A Usurpadora”, com ‘Sonho Lindo’. Agora, a emissora só faz compilar meia dúzia de cenas, dispensando até mesmo as entradas originais, como a belíssima abertura de “A Que Não Podia Amar”.

Ligo

“Porto dos Milagres” no Viva. Confesso que, de início, dei de ombros para a adaptação da obra de Jorge Amado, por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, exibida pela Globo em 2001. A morosidade dos primeiros capítulos quase apagou a boa impressão que guardei da primeira e única vez que acompanhei a trama.

Só que agora “Porto dos Milagres”, cerca de quatro meses antes do “fim”, entrou em sua melhor fase, com o romance de Félix (Antonio Fagundes) e Rosa Palmeirão (Luiza Tomé), a presença de Selminha Aluada (Taís Araújo), as aflições de Leontina (Louise Cardoso) – apaixonada pelo cunhado Osvaldo (Fúlvio Stefanini) – e a face mais maquiavélica de Adma (Cássia Kis), além dos mistérios que a aproxima de Amapola (Zezé Polessa). Vale conferir, de segunda-feira a sábado, 15h30 e 0h.

Desligo

“A Dona do Pedaço” e os furos de Walcyr Carrasco. Como é de praxe em suas novelas das 21h, o autor toca a narrativa sem se importar com informações já disparadas, com a coerência de seus personagens ou mesmo com as implicações de determinadas sequências na trama.

Como exemplo, o parentesco modificado “aos 45 do segundo tempo” de Cornélia (Betty Faria) e Eusébio (Marco Nanini); a mudança no perfil de Maria da Paz (Juliana Paes) da primeira para a segunda fase; a demora de Maria e Amadeu (Marcos Palmeira) em questionar Evelina (Nívea Maria) e Nilda (Jussara Freire) sobre a mentira que separou o casal na mocidade. Agora, vem aí o matador Chiclete (Sergio Guizé) tentando eliminar a vítima errada. Haja paciência…

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Globo renova domínio do título “A Casa das Sete Mulheres”, minissérie de 2003 (Imagem: Divulgação / Globo)

Fecha a conta

Tramita no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) um processo aberto pela Globo acerca da renovação do domínio sobre o título “A Casa das Sete Mulheres”. A minissérie de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, baseada no livro de Letícia Wierzchowski, foi um dos maiores sucessos da TV brasileira em 2003. Não há indícios de que a manutenção do título seja por conta de uma possível reprise. Mas que seria bom ter “A Casa das Sete Mulheres” toda tarde, ali na faixa ocupada hoje por “O Álbum da Grande Família”, seria…

 

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