Hebe
Hebe falou sobre sobre pito que recebeu de presidente da República (Imagem: Reprodução/ TV Cultura)

Hebe Camargo (1929-2012) voltou aos holofotes nesta semana com a estreia do filme Hebe, a Estrela do Brasil. O longa usou como referências entrevistas com pessoas próximas a ela e até suas declarações em programas de televisão. O Do Fundo do Baú, então, resgata o dia em que ela soltou o verbo sobre assuntos polêmicos e saiu aplaudida pelos entrevistadores.

Na noite de 17 de agosto de 1987, a apresentadora, que faleceu há sete anos, concedeu uma das suas entrevistas mais emblemáticas. Ela aconteceu no Roda Viva, da TV Cultura. Para os jornalistas presentes, Hebe não poupou palavras para falar de temas sensíveis à população na época e que até hoje são discutidos, como o aborto e a liberdade.

Logo no começo da sabatina, Boris Casoy questionou a convidada se existia pressão de políticos pelas declarações polêmicas dela. “Eu sempre tive por norma não mentir, nem para o meu telespectador, muito menos para você, Boris, e para vocês. Eu sempre uso e sempre usei a verdade. Eu acho que são atitudes que eu tomo que acho que uma dona de casa comum, se tivesse o veículo que eu tenho, ela diria a mesma coisa que eu digo”, começou ela.

“Porque eu não digo como política, porque não sou. Eu não digo postulando nenhum cargo político que jamais serei e jamais aceitaria. Eu digo como uma mulher comum, uma mulher que ouve, em qualquer canto que eu vou, a dona de casa, a mãe de família reclamando. Então, nunca sofri esse tipo de pressão da emissora, mas eu sofri, sim, pressão lá do [Palácio do] Planalto. E eu não posso mentir, não posso chegar aqui na TV Cultura e dizer: ‘Não, nada! Foi tudo bonitinho, bacaninha'”, disparou a artista.

Em seguida, ela explicou do que se tratava: “Num programa, nós estávamos falando justamente sobre os constituintes, e eu cheguei num momento e disse: ‘Eu gostaria muito que os constituintes se preocupassem com a situação dos aposentados’, que é muito triste. Os aposentados ganham uma aposentaria que realmente não sei, eles são verdadeiramente milagrosos”.

“No dia seguinte, eu recebi um telefonema de Brasília, de um colega jornalista, dizendo: ‘Hebe, você sabia que você vai ser processada pelo doutor Ulysses Guimarães’? Eu falei: ‘Eu? O que eu fiz?'”, revelou ela.

Pressionada, a artista contou que foi o jornalista Alexandre Garcia que ligou para ela e informou do processo: “Aí eu disse: ‘Mas, por quê? O que eu fiz?’. ‘Ah, porque foram dizer para ele que você o chamou de pilantra no seu programa’. Eu falei: ‘Olha, isso não pode, não procede porque isso não faz parte do meu vocabulário. Eu não chamaria! Mesmo que fosse eu não chamaria!’. Porque também não sou tão ignorante como as pessoas, como algumas pessoas, imaginam que eu seja”.

“Eu jamais chamaria o doutor Ulysses de pilantra, e nem citei o nome do doutor Ulysses. Mas eu soube que uma senhora deputada constituinte foi no ouvido dele dizer que tinha que processar porque era um absurdo eu falar sobre os constituintes da maneira como eu falei, que eu estava denegrindo o Congresso”, completou a famosa.

Hebe
Hebe no Roda Viva, da TV Cultura (Imagem: Reprodução/ TV Cultura)

Neste mesmo dia, a comunicadora falou o que pensava sobre Jânio Quadros, Paulo Maluf e até da época da Ditadura Militar. Ela também revelou que recebeu propostas de vários partidos para assumir um cargo político, como o de senadora, mas rejeitou todas.

Legalização do aborto

Questionada se era a favor do aborto, Hebe disse: “Eu acho o aborto uma coisa muito pessoal, não sei. Acho uma coisa tão delicada. Olha, é uma coisa extremamente delicada falar sobre isso, porque dá impressão que a gente vai dizer ‘legalizaria’ e vai sair todo mundo abortando feito louco: ‘Oba, legalizou, vamos abortar!'”.

“O que as pessoas têm que pôr na cabeça é que não é pelo fato de legalizar uma coisa que você vai ser obrigada a fazer, você vai abortar se você, sei lá… é uma coisa muito pessoal. É a mesma coisa que o jogo, por exemplo. A legalização do jogo, tem muita gente: ‘Não, porque não pode!’. Para mim, pode legalizar o quanto quiser, eu sou uma pessoa que não joga, não acho a menor graça”, disparou ela, que, em seguida, contou sobre um aborto que fez.

“Eu fiz, fiz justamente porque achei que era uma coisa muito delicada esse filho ter irmã de um mesmo pai com uma outra mulher, outra irmã com outra mulher, outra irmã com outra mulher… Essa criança ia ficar com uma cabeça tão louca, que ela ia ficar sem saber…: ‘Que mundo em que eu estou?’, certo? Naquela época. Então, eu acho que é uma coisa muito pessoal. Eu não aconselho as pessoas a fazerem. Eu não aconselho, acho que é uma coisa que cada um tem que saber o que deve fazer, é uma coisa de conscientização própria”, desabafou.

Defesa dos homossexuais

Na atração, a então apresentadora do SBT também discutiu com jornalistas e convidados sobre os homossexuais: “Por que não defender? Eles são piores do que a gente? Eles escolheram ser assim? São seres humanos iguais a gente. Eles têm pai, têm mãe, irmãos. Trabalham, pagam seus impostos”.

Em seguida, Camargo foi questionada por outro convidado: “Você não acha que, como uma formadora de opinião, defendendo poderia estar proliferando?”. Hebe, então, disparou: “O fato de eu falar não vai mudar. Ou as pessoas nascem assim ou não nascem, não é porque a Hebe Camargo falou. Quem tem que ser é”.

No vídeo, ainda sobre o assunto, o jornalista de celebridades Leão Lobo, atualmente no “Fofocalizando”, do SBT, também o questionou. “Você acha que as pessoas nascem assim?”, perguntou ele. “Eu tenho muitos amigos homossexuais, pessoas com quem eu aprendo muito. Tenho profundo respeito, eles por mim e eu por eles. Eles dizem que já nascem, mas as vezes demoram um tempo para se manifestar”, completou Hebe.

Assista ao vídeo na íntegra:

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