Bruna Lombardi e Fábio Jr, como Patrícia e Luís Carlos, em “Louco Amor” (1983) (Imagem: Divulgação / Globo)

Há 35 anos, precisamente às 20h25, a Globo exibia o último capítulo de “Louco Amor”, novela de Gilberto Braga, concebida às pressas em razão do encurtamento de “Sol de Verão” (1982) – trama de Manoel Carlos combalida pela morte do protagonista, Jardel Filho. O folhetim, bem-sucedido em audiência e mal avaliado pela crítica, não agradou o autor: “A minha pior novela”, declarou Giba ao livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, de André Bernardo e Cíntia Lopes. Tal posicionamento, no entanto, difere de sua primeira avaliação sobre, logo após o término da produção… Resgato agora esta e outras curiosidades de “Louco Amor” – bem como um “resumão” do enredo.

Sinopse

O ano é 1977. E os cantinhos mais escondidos da mansão de Edgar Dumont (José Lewgoy) testemunham o romance de Patrícia (Bruna Lombardi), sobrinha do milionário e esclerosado velhinho, e Luís Carlos (Fábio Jr), filho da empregada Isolda (Nicette Bruno). A união desagrada Renata (Tereza Rachel), a frívola madrasta da mocinha, decidida a afastá-la do pobretão. Para tal, a esposa do embaixador André (Mauro Mendonça) promove uma espécie de “exposição pública” da condição subalterna do rapaz: impede Luís Carlos de participar da festa de 17 anos de Patrícia, exigindo que ele trabalhe, durante o evento, como garçom. Também trabalha para que a enteada se interesse por Marcelo Paiva (Edson Celulari), jovem “de boa família”.

Mauro Mendonça e Tereza Rachel como André e Renata, em “Louco Amor” (Imagem: Divulgação / Globo)

Humilhado, Luís Carlos põe fim à recepção ao soltar os cães que vigiam a residência. Um dos animais ataca André, pai de Patrícia, coxo em decorrência do ocorrido. É quando os Dumont decidem deixar o Brasil; a função de André o leva até Buenos Aires e, posteriormente, Londres. Mas, seis anos depois, é hora de voltar. A presença de Patrícia por aqui atordoa Luís Carlos, que acabara de se formar em Jornalismo, mas que, devido à “crise” – sempre ela –, não consegue se colocar no mercado, tendo de aceitar o cargo de vendedor numa sapataria e dividir um quarto de pensão com Alfredo (Fernando Torres), repórter fotográfico em fim de carreira. Eis que, logo no reencontro, surge um novo empecilho para o casal: João (Eduardo de Micheli).

O pequeno de seis anos é apresentado como filho adotivo de André e Renata. Mas tudo leva a crer que a criança é fruto do relacionamento de Luís Carlos e Patrícia, o que ela insiste em negar. Temerosa com uma possível recaída da enteada, a embaixatriz trata de aproximá-la do atlético Márcio (Carlos Alberto Riccelli), com quem mantém uma ligação bastante suspeita – amantes, talvez. A ideia é leva-los ao altar, colocando as mãos em uma polpuda quantia que Edgar prometera à sobrinha, tão logo ela se casasse. Não demorou para que os dois mistérios fossem elucidados: João, de fato, era filho de Luís Carlos e Patrícia; Márcio, herdeiro de Renata, criado pelo pai desta, o cozinheiro Agenor (Mário Lago).

André tomou conhecimento de tais verdades às vésperas de sua morte, entre os capítulos 48 e 49 – praticamente uma Luzia (Giovanna Antonelli), de “Segundo Sol”, de tão alheio aos acontecimentos em seu entorno. Luís Carlos, decidido a se aproximar do filho, o leva para o prédio onde mora. Distrai-se conversando com o porteiro, Pedro (Stepan Nercessian), tempo necessário para João, numa estripulia, subir ao telhado do edifício. Renata então forja um pedido de resgaste por parte de Luís: 500 mil dólares. André então corre até o “cativeiro”; chegando lá, toma para si a missão de socorrer o menino; ele consegue entregar a criança ao pai, mas desaba em seguida. Acusado de sequestro – e da morte do embaixador –, Luís Carlos foge.

Patrícia, por sua vez, é confrontada com uma nova, e “difícil”, situação. O pai não era um homem de posses; sem dinheiro, ela, Renata, o meio-irmão Lipe (Lauro Corona) e o pequeno João se abrigam na casa do tio Edgar – a esta altura, encantado pela esteticista Gisela (Lady Francisco), de pouca instrução e quase nenhum recurso. Eis a primeira grande virada de “Louco Amor”: cansado de fugir, Luís Carlos se entrega à polícia; tempos depois, é posto em liberdade e reconhecido como um dos novos valores do mercado literário, por seu romance de estreia – assinado por Lipe, que colheu os louros, e os lucros, do projeto, entregando-os ao amigo posteriormente. A relação entre os parceiros, porém, logo estremece.

Gloria Pires como Cláudia, em “Louco Amor” (Imagem: Nelson di Rago / Globo)

É que Lipe está envolvido por Cláudia Assunção (Gloria Pires), filha de Alfredo e Isa (Arlete Salles), colega de faculdade de Luís Carlos, desde sempre interessada nele. A jovem se aproxima dos Dumont quando Lipe a convida para escrever o livro de memórias de Edgar; tão logo nota algo de podre no reino de Renata, põe-se a investigar, descobrindo a origem de João. Quando, enfim, decide jogar limpo com Lipe, este sofre um acidente automobilístico, ao sentir-se mal por conta de uma patologia que o coloca em risco de vida: estenose mitral. Cláudia e Luís Carlos esperam o restabelecimento do rapaz para então abrir o jogo – e o caminho para Carlinha (Beth Goulart), irmã de Cláudia, apaixonada pelo agora ex-cunhado.

Enquanto isso, Patrícia e Renata trabalham para afastar Edgar e Gisela. Aproveitando-se de um desatino de Alfredo – que, alcoolizado, afirma ser capaz de matar o velho para beneficiar Cláudia, caso esta viesse a se casar com Lipe –, ela o obriga a fotografar a esteticista “em flagrante” com Gabriel (Fernando Amaral); o mau-caráter, na verdade, fingiu estar se afogando, obrigando Gisela a partir para a respiração boca-a-boca. O plano fez água após Alfredo confessar tudo a Isa; também graças a Muriel (Tônia Carrero), a simpática produtora de moda da revista Stampa, casada com um homem mais jovem, Guilherme (Reginaldo Faria). Após uma boa surra, aplicada por Gisela, Renata e Patrícia acabam enxotadas da mansão.

Cabe a Nanda (Rosita Tomaz Lopes) hospedar a amiga Renata e sua enteada. Mãe de Guilherme, Nanda trata a nora, Muriel, com cordialidade; em seu íntimo, porém, reluta em aceitar a relação do filho com uma mulher mais velha. Passa então a trabalhar junto à embaixatriz, e Sabine (Thaís Ballione) – secretária de Guilherme –, para que Patrícia conquiste o editor-chefe da Stampa. A relação com Muriel, que já não vinha bem, degringola de vez. Os planos de Patrícia, contudo, também vão por água abaixo: Estelinha (Rosane Gofman), funcionária da revista, sabota todas as investidas dela de se lançar como modelo, por ter a mocinha ousado tomar o lugar de sua amiga Muriel.

A decadência financeira e moral de Renata chega ao ápice quando ela induz o pai a roubar o dinheiro do buffet que montou em sociedade com Isa e a comadre desta, Alda Maria (Yolanda Cardoso). Ela também se esforça para tomar de Muriel o posto de assessora do editor Rodolfo Prado (Otávio Augusto), estabelecido em Paris. Na ocasião, a produtora de moda se associou a Luiz Carlos, na criação de uma editora, a Becker e Lamarca Editorial. Renata vai então ao apartamento de Muriel, roubar a minuta de um contrato estabelecido com a marchand Márcia (Ilka Soares); esta também está no local, embora não cruze com Renata. Na saída, Márcia é vítima de uma falha no elevador; a queda acaba por causar sua morte.

Chica Xavier, Fábio Jr e Nicette Bruno como Denise, Luís Carlos e Isolda, em “Louco Amor” (Imagem: Nelson di Rago / Globo)

Ardilosa, Renata queima o documento, fazendo com que Muriel passe por impostora diante de Rodolfo. Ela conquista o cargo em Paris – Edgar lhe presenteia com um apartamento na “cidade-luz”. Todo seu plano, porém, cai por terra quando, durante o jantar de despedida oferecido por Nanda, Cláudia a desmascara. Renata Dumont era, na verdade, Agetilde Rocha – o nome peculiar veio da junção de Agenor, o pai, e Matilde, a mãe. Enquanto Agetilde, envolveu-se com Bernardo, irmão de André e Edgar, ao mesmo em que flertava com um garçom. Irado, Bernardo disparou contra o rival; preso, suicidou-se na cadeia. Agetilde então mudou, legalmente, de nome – possibilidade permitida quando o batismo gera constrangimento à pessoa.

Tempos depois, já Renata, cruzou o caminho de André, com quem se casou, omitindo a existência do filho, que delegou à empregada Isolda, sua amiga de juventude – com quem dividiu um quarto numa “cabeça de porco”, espécie de cortiço –, em meio a desentendimentos com sua mãe. Após a morte desta, Renata buscou o pequeno, fruto do romance com o garçom, e o levou a Agenor. Na ocasião, Sérgio (Milton Moraes), o “outro” na vida de Agetilde / Renata, tenta se aproximar do suposto filho, Márcio. Acontece que o jovem morre, tempos depois, vítima da explosão de uma lancha, programada para detonar, a princípio, com Edgar. Isolda reage desesperada, trazendo à tona um novo segredo.

Era Luís Carlos, e não Márcio, o filho de Renata; a empregada trocou as crianças, de forma a dar melhores condições ao seu filho, cuidado pela embaixatriz – ainda que distante –, ficando com Luís, a verdadeira cria de Agetilde. A sabotagem da lancha dá início ao “quem matou Márcio, tentando dar fim a Edgar?”. Tornam-se suspeitos Agenor, por conta da adoração à filha enjeitada pelo cunhado milionário; Alfredo, para beneficiar Cláudia, envolvida com Luís Carlos; Isolda, por ver Márcio já rico, graças a Sérgio, e querer fazer de Luís também milionário; Luciana, a enteada; Patrícia, excluída do testamento do tio; Renata, apenas para castigar o senhorzinho esclerosado; e até Gisela.

Renata, claro, tenta faturar com o ocorrido. Procura Cláudia e exige que ela se afaste de seu filho, ameaçando entregar à polícia a gravação, em fita K7, na qual Alfredo cogita assassinar Edgar. Luciana age da mesma forma: disposta a ficar com Lipe, inventa para o rapaz que Márcio se suicidou ao ser abandonado por Carlinha; temendo ter causado, indiretamente, a morte do “irmão”, Lipe se afasta da moça. Já Edgar sofre um novo atentado: um vinho envenenado, cuja garrafa é quebrada, acidentalmente, por Alda Maria; um cachorro morre ao lamber o líquido no chão. O delegado Cunha (Ivan Cândido) arma uma emboscada para o criminoso; eis que Fernando (Carlos Eduardo Dolabella) é preso, tentando afogar o sócio numa banheira.

Carlos Eduardo Dolabella como Fernando, em “Louco Amor” (Imagem: Divulgação / Globo)

Ao longo da narrativa, Fernando revelou-se um machista da pior espécie. Ele se opôs ao trabalho da esposa, Lúcia (Christiane Torloni) – irmã de Guilherme – na galeria de artes de Márcia. Ela abandona o esposo após um escândalo deste num restaurante, o que a faz perder um cliente. Ludibriada por Gabriel, Lúcia aluga um apartamento mobiliado; o imóvel é tomado pelo proprietário, Jorge Augusto (Antonio Fagundes) – filho de Muriel –, voltando de viagem, no mesmo dia. Esclarecida a confusão, Lúcia e Jorge engatam um romance. Fernando então vai à Justiça contra a ex, tentando afastá-lo do filho, Marquinhos (José Leonardo). Com a prisão de Fernando, Lúcia consegue, enfim, embarcar com Jorge e Marquinhos para Nova Iorque.

Nos momentos finais, Muriel se entende com Guilherme; o mesmo acontece com Alfredo e Isa, separados por conta do vício dele na bebida. O repórter fotográfico passa a se dedicar às artes plásticas, conquistando relativo sucesso. Rejeitada por Lipe – que a proíbe de ir a seu casamento com Carlinha –, Renata tenta se entender com Luís Carlos, que pede a mãe para que se atire debaixo de um carro. O jornalista consegue a guarda de João, passando a dividir as responsabilidades sobre o filho com a esposa, Cláudia; Patrícia, rechaçada por Guilherme e Fernando, se emprega em uma joalheria, almejando conquistar, com o tempo, o afeto do filho. A última cena cabe a Edgar e Gisela; após o tradicional “fim”, o velhinho exclama seu famoso bordão: “E eu não sei?”.

Bastidores

– Com o término precipitado de “Sol de Verão”, a Globo se viu obrigada a recorrer a uma reapresentação de “O Casarão” (1976), de Lauro César Muniz, conferindo tempo hábil à equipe responsável por implantar “Louco Amor”. A participação na audiência caiu consideravelmente: 49% no Rio de Janeiro e 36% em São Paulo, de acordo com a revista “Amiga”. A Band se aproveitou da ocasião para lançar “Sabor de Mel”, escrita por Jorge Andrade; já o SBT apostou na mexicana “Cristina Bazan”. Ao constatar o êxito da concorrência, a emissora-líder resolveu precipitar o lançamento da novela em duas semanas: de 25 para 11 de abril.

– A estreia atingiu 69% de participação na “cidade maravilhosa” e 64,5% na “terra da garoa”. O primeiro mês anotou 66% no Rio de Janeiro e 54% em São Paulo. Os índices recuaram em maio: 60% x 51,4%. Em julho, “Louco Amor” esboçou crescimento nas duas capitais, registrando 66,5% e 56,2%; em setembro, já na reta final, o folhetim conquistou 71,8% – com picos de 83% – e 56,8% – com picos de 75%.

Fábio Jr e Gloria Pires como Luís Carlos e Cláudia, em “Louco Amor” (Imagem: Divulgação / Globo)

– Fábio Jr surpreendeu a equipe ao se apresentar, para as primeiras gravações, de barba por fazer e cabelos cacheados. O diretor-geral Paulo Ubiratan exigiu o que ator retomasse o antigo visual, de cara limpa e fios lisos. “O forte do Fábio eram os olhos e esse cabelo caído em cima. Achei um horror, mas agora não tem jeito mesmo e a gente vai tentar fazer o possível para que ele fique tão bem quanto antes”, declarou Ubiratan a “Contigo!”, diante da insistência do ator em manter o estilo. Logo, porém, Fábio acatou o desejo da produção.

– Lauro Corona conciliou as gravações da trama com a apresentação do dominical “Cometa Loucura”, em parceria com Carla Camuratti.

– Reginaldo Faria fez aula de tênis para seu personagem, Guilherme. Mas nas sequências em que o editor-chefe da revista Stampa aparecia competindo, um dublê o substituía, conferindo mais veracidade aos jogos.

– “Louco Amor” marcou a estreia de Rosane Gofman, com passagem recente por “Orgulho e Paixão”, na TV. Também a do menino Eduardo de Micheli, filho da atriz Bárbara Bruno – contracenando com a avó, Nicette Bruno, e a tia, Beth Goulart.

– A novela, aliás, estreou em meio a um “baby boom”: Bruna Lombardi voltava às novelas após o nascimento de Kim, em 1981, do casamento com Carlos Alberto Riccelli. Já Gloria Pires deu luz a Cleo Pires, do romance com Fábio Jr, em outubro de 1982. Beth Goulart também se tornou mãe, de João Gabriel Carneiro – hoje roteirista na Record – em 1982.

– O batismo dos personagens tinha a ver com homenagens de Gilberto Braga a filhos de amigos: Carlinha veio de Carla Daniel, herdeira de Dorinha Duval e Daniel Filho – também pai de João, com Betty Faria; Denise, Alfredo e Guilherme, os rebentos de Dias Gomes e Janete Clair; e Agenor – o Cazuza –, de João e Lucinha Araújo.

Christiane Torloni como Lúcia, em “Louco Amor” (Imagem: Divulgação / Globo)

– Integravam o elenco nomes que estiveram com Paulo Ubiratan em “Água Viva” (1980), também de Gilberto, e “Baila Comigo” (1981), de Manoel Carlos, em reexibição no Canal Viva. Da primeira, Arlete Salles, Carlos Eduardo Dolabella, Fábio Jr, Gloria Pires, José Lewgoy, Mauro Mendonça, Reginaldo Faria e Tônia Carrero. Arlete e Reginaldo também presentes na segunda, assim como Beth Goulart, Christiane Torloni, Cláudia Costa (Mônica), Fernando Torres, Lady Francisco, Lauro Corona, Tereza Rachel e as participações de Carlos Gregório (Eurico), Gilberto Martinho (Silvio) e Otávio Augusto. De fora, ficou Terezinha Sodré, presente em “Água Viva” e “Baila Comigo”, cotada, a princípio, para viver uma das secretárias de Guilherme.

– Assim como em “Água Viva”, Tônia Carrero perdeu o papel de megera. Escalada para viver Renata Dumont, a atriz foi preterida em favor de Tereza Rachel; na trama de 1980, Tônia foi remanejada para a grã-fina Stella Simpson, tipo semelhante a Muriel, deixando a vilã Lourdes Mesquita a cargo de Beatriz Segall.

– Lourdes Mesquita, aliás, surgiu no último capítulo, como convidada de honra da exposição de Alfredo – mesmo com Beatriz Segall gravando a novela substituta, “Champagne”. Nesta cena, também é possível observar as presenças de Gilberto Braga e Leonor Bassères.

– Durante a produção, Otávio Augusto e Rosane Gofman sofreram um acidente de carro, mas seguiram gravando. Já Mário Lago e José Lewgoy se afastaram do set; um por enfarte, outro por fratura na bacia e no nariz.

– A novela foi chamada, a princípio – sabe-se lá por que – de “Sangue Leve”. O título definitivo deriva do tema de abertura, ‘Nosso Louco Amor’, do grupo Gang 90 & Absurdetes. O hit não correspondeu às expectativas de Gilberto Braga: “Acho totalmente sem graça e só aceitei porque estava escrevendo essa novela sem o menor entusiasmo”, declarou ao livro “Teletema – A história da música popular através da teledramaturgia”, de Guilherme Bryan e Vincent Villari.

– Fábio Jr e Lauro Corona integraram a trilha sonora da trama, com ‘Seres Humanos’ e ‘Tem Que Provar’. O repertório nacional vendeu 80.395 cópias; já o internacional – repleto de músicas dançantes – emplacou 403.795.

– O principal tema internacional, ‘We’ve Got Tonight’, de Kenny Rogers e Sheena Easton, tocou desde o início – uma novidade para a época. A canção embalava Patrícia e Luís Carlos.

Antonio Fagundes como Jorge Augusto, em “Louco Amor” (Imagem: Nelson di Rago / Globo)

– A sinopse inicial passou por alterações substanciais. Na primeira versão, divulgada pela jornalista Cidinha Campos – “Jornal do Brasil”, 20 de março de 1983 –, Luís Carlos vendia joias de Patrícia para subornar o coordenador de um concurso de poesia, arrematando o primeiro lugar. A descoberta deste crime acaba por afastar o casal. Cláudia, por sua vez, tentava fazer a vida em Nova Iorque, onde conhece Lipe; este oculta da jornalista a sua condição de milionário. A morte de André se dava em um acidente, supostamente causado por Luís, alcoolizado. Salvo por uma VHS gravada por Lipe, o protagonista consegue status como escritor, desposando Patrícia, apenas para vingar-se da família dela.

– Ao livro “Autores – Histórias da Telenovela”, do Projeto Memória Globo, o autor declarou: “Louco Amor era uma bobagem de novela. O único personagem que prestava era o do José Lewgoy, o Edgar Dumont, que era muito divertido. […] Houve erros graves de escalação. O escritor depende muito do elenco. Não gostei de trabalhar com a Bruna Lombardi. Ela não deu certo comigo. Não que seja má atriz, só não é da minha praia. Escrevi por honra da firma. Louco Amor é a pior novela que fiz, de longe”.

– “Por honra da firma”, entende-se, a necessidade de levantar a faixa. Ao “Jornal do Brasil”, de 9 de outubro de 1983, ele afirmou: “Fiz o diabo, soltei cachorros, fui de um maniqueísmo marcante. Coloquei filho de empregada querendo casar com a mocinha, fiz da embaixatriz Renata uma verdadeira bruxa. Usei todas as armas do folhetim para conquistar o público”.

– Por ocasião do término, porém, Giba foi mais “generoso” consigo mesmo, em entrevista à revista Amiga: “Vendo cada capítulo, é a melhor novela que já escrevi. Teve sempre bons ganchos prendendo a atenção, lances interessantes em todos os capítulos. Isso é o tempo, a técnica adquirida, a experiência necessária para não deixar a peteca cair, como aconteceu em “Dancin’ Days” (1978)”.

– Para entender os desejos do público, Gilberto precipitou a separação de Muriel e Guilherme, tipo infiel. Também manteve a esclerosa de Edgar – que, com o auxílio da produtora de moda, buscaria tratamento na Suíça.

– A suposta conversão de Patrícia, de heroína à vilã, não foi interpretada pelo autor como “mudança”: “Patrícia era uma personagem que, na primeira semana de novela, jurava ao Luís Carlos nunca ter tido um filho. Portanto, nunca teve caráter, eu acho. Enquanto protegidas, as pessoas sem caráter podem parecer apenas frágeis. Quando desprotegidas – no caso de Patrícia com a morte do pai e a insegurança financeira – elas começam a roubar e matar”.

– Gilberto Braga escrevia entre duas da tarde e duas da manhã. Leonor Bassères, sua colaboradora, entre cinco da manhã e duas da tarde. O trabalho de seis capítulos consumia uma semana: dois dias para bolar as próximas emoções, mais um para estruturar cena por cena e o restante para os diálogos.

Bruna Lombardi como Patrícia, em “Louco Amor” (Imagem: Nelson di Rago / Globo)

– A revista “Amiga” – rebatizada, por alguns, como “Inimiga” – trouxe, após a conclusão do folhetim, algumas “fofocas” de bastidores: ataques de estrelismo de Lady Francisco teriam motivado uma greve de silêncio na sala de maquiagem – ela não admitia que as maquiadoras conversassem com o supervisor, Eric Rzepecki, enquanto ele a produzia; também, atritos de Lady com José Lewgoy, o descontentamento de Reginaldo Faria com seu personagem e até boatos de “namoricos” de Bruna Lombardi com Antonio Fagundes e Fábio Jr. Fábio e Gloria, aliás, se separaram poucos meses após o término das gravações.

– Em meio aos burburinhos, a imprensa foi barrada na sala de atores, prática comum na época. O diretor-geral Paulo Ubiratan se irritou e deixou o cargo, passando a supervisor, após emitir uma circular queixando-se da indisciplina do elenco, atrasos e textos não decorados.

– “Louco Amor” marcou a estreia de José Wilker como diretor. Também passaram pelo time Wolf Maya – após a conclusão de “Final Feliz”, às 19h –, Fred Confalonieri e Ary Coslov.

– “Louco Amor” divulgou artistas plásticos e romancistas – como a atriz Carmem Monegal, em meio ao lançamento de seu livro “Duração Ordinária da Vida”. Também faturou alto com campanhas para cervejarias e fábricas de bicicleta. E apostou no merchandising social: Alfredo buscava livrar-se do alcoolismo através dos Alcoólicos Anônimos.

– Um banho de tinta verde previsto para Patrícia, em sua fase modelo, foi substituído por sabotagens nos negativos, por conta de compromissos comerciais envolvendo Bruna Lombardi – numa vibe Marina Ruy Barbosa… A Globo vetou a cena para não causar conflitos como uma marca de xampu.

– “Louco Amor” foi indicada ao Troféu Imprensa de “melhor novela” e “melhor ator”, com José Lewgoy; “Guerra dos Sexos” e Paulo Autran – pelo Otávio, da novela das 19h – levaram as estatuetas.

– A trama fez sucesso no exterior, especialmente em Portugal, onde contou com um especial de lançamento – “RTP Brasil: “Louco Amor” está chegando” –; Beth Goulart, Fábio Jr, Gloria Pires, José Lewgoy, Lauro Corona, Nicette Bruno e Tereza Rachel, além de Gilberto Braga e Paulo Ubiratan, concederam depoimentos à atração. A abertura, com takes de um casal, supostamente, durante o ato sexual, foi censurada na região de Açores. Por lá, o folhetim foi substituído por “Corpo a Corpo”, trabalho posterior de Giba.

– Ainda, uma versão internacional, batizada “Entre el amor y el deseo”, produzida pela mexicana Azteca em parceria com a Globo. No elenco, Héctor Bonilla, famoso no Brasil por sua participação em “Chaves”, como Alfredo, personagem de Fernando Torres no original.

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Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de editor, repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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