Os 90 anos e as muitas histórias de Lima Duarte

Lima Duarte
Lima Duarte como Josafá, em O Outro Lado do Paraíso; ator celebra 90 anos neste domingo (29) (Imagem: Divulgação / Globo)

Ariclenes Venâncio Martins, mineiro de Nossa Senhora da Purificação do Desemboque e Santíssimo Sacramento, nasceu em 29 de março de 1930. Não ligou o nome à pessoa? Simples: dos 90 anos completados hoje, 70 foram dedicados à TV, onde ele ficou conhecido como Lima Duarte. O veterano, de grandes trabalhos e grandes histórias, chega ao nono século de vida cheio de vitalidade – Lima é nome certo na segunda temporada de Aruanas, série do Globoplay – e de lucidez.

Lima Duarte deixou sua cidade natal em 1946, a bordo de um caminhão de mangas, incentivo pelo pai boiadeiro a conhecer o mundo. Tentou a carreira de locutor de rádio, sem sucesso; em um dos testes que fez para a Tupi, foi questionado sobre o forte sotaque caipira. Acabou como estagiário de sonoplastia. Outros sotaques, porém, chamaram a atenção de Oduvaldo Vianna – pai de Vianninha, o criador da clássica série A Grande Família (1972 / 2001). As imitações de Ariclenes, ou Lima, renderam um convite de Oduvaldo para as famosas radionovelas.

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Lima Duarte como Murilo Pontes, em Pedra Sobre Pedra (Imagem: Divulgação / Globo)

Eram tempos de renovação… E o que havia de novo atendia por televisão, aparelho nada comum aos lares brasileiros. Lima estava lá, no programa inaugural da TV Tupi – do mesmo Assis Chateaubriand, proprietário da rádio – em 18 de setembro de 1950. No ano seguinte, esteve nos bastidores da primeira novela de televisão, Sua Vida Me Pertence. Dez anos depois, ao lado do mesmo Oduvaldo Vianna, ingressou no Teatro de Arena. Se o objetivo do grupo, diferente do “elitista”, nas palavras de Lima ao Memória Globo, Teatro Brasileiro de Comédia, era contar com sotaques brasileiros no palco, por que não convocar o caipira de Desemboque?

Em paralelo ao teatro – tendo passado dez anos no Arena, de prêmios como o Saci de Melhor Ator e uma bolsa de estudos na França –, Lima seguiu na TV. Na década de 1960, passou a conciliar os trabalhos à frente e atrás da câmera. Foi o diretor, com Henrique Martins e José Parisi, do primeiro grande êxito nacional, O Direito de Nascer (1964). Quatro anos e algumas tentativas de experimentação depois, o enredo do cubano Félix Caignet, embora ainda infalível, parecia antiquado. Coube a Lima, desta vez com Cassiano Gabus Mendes e Bráulio Pedroso, virar o jogo.

Em 1968, a Tupi lançou Beto Rockfeller. Era a história de um pobretão (Luís Gustavo), bom de lábia, que conseguiu se infiltrar na alta sociedade – estabelecendo amizades e relações amorosas com gatinhas e panteras. Em entrevista ao Estado de São Paulo (16/11/2008), Lima comentou o rompimento com a estrutura do folhetim vigente até então: “O sistema telenovela já estava começando a necrosar. E é obrigação do artista enviar um ruído. Beto foi um ruído no sistema da teledramaturgia televisiva”.

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Lima Duarte como Zeca Diabo, em O Bem-Amado (Imagem: Divulgação / Globo)

Nem todo ruído, contudo, é bem-sucedido. ‘Beto’ rendeu convites da Globo para Bráulio e para Lima. Em 1972, os dois implantaram O Bofe, às 22h. Não deu certo. Ainda durante a produção, o “caipira” estreou como ator no plim-plim. Foi em Os Viajantes, Caso Especial que remetia às origens em Minas Gerais. Depois, dirigiu apenas O Duelo (1973), também nesta faixa “episódica” de dramaturgia. Foi como ator – e apresentador – que Lima seguiu dali em diante. E que o Brasil se rendeu, em definitivo, a Ariclenes Venâncio Martins…

A vocação para pioneiro se confirmou com O Bem-Amado (1973). Lima Duarte foi convidado para uma participação de apenas três capítulos. Ficou até o último – e ainda deu cabo do protagonista Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), prefeito eleito graças à promessa de construção de um cemitério, inaugurado por ele mesmo. Zeca e Odorico, ressuscitado, voltaram à cena no seriado de mesmo nome (1980).

Nas palavras de Artur da Távola, crítico de O Globo (31/08/1980), Zeca Diabo era obra de muito estudo: “Sim, um estudo feito por um grande ator, dessa fronteira interna externa entre o convencional e o patológico. Nele há horas em que assoma a criança ingênua e boa; há horas em que um ódio fundo e meio louco lhe brilha nos olhos; há horas de grande esperteza misturada com uma boa fé alarmante. Ele é, enfim, um mundo de emoções, contradições e desvarios que só um grande sabe transmitir”.

Também às 22h, antes de O Bem-Amado – a série, Lima foi o italiano Egisto Ghirotto de Os Ossos do Barão (1973) e o bandido Boneco de O Rebu (1974) – outra inovação, com mais de 100 capítulos, e inúmeros acontecimentos contados de forma não-linear, ambientados em apenas uma noite. Reencontrou o teatro num folhetim das 20h, Espelho Mágico (1977), como o artista do palco e do picadeiro Carijó.

Em 1979, estreou no horário das 19h, na companhia do amigo Cassiano Gabus Mendes, autor de Marron-Glacé. Cassiano o homenageou anos depois, batizando o protagonista de Tititi (1985) – a cargo de Luís Gustavo, o Beto – como Ariclenes, ou Ari. Lima esteve também em Meu Bem, Meu Mal (1990), êxito de Gabus Mendes às 20h. Dom Lázaro Venturini, a exemplo do vilão de O Direito de Nascer, sofria um derrame cerebral que o impedia de revelar o grande segredo da trama. Voltou a falar com um pedido que as redes sociais tornaram célebre: “Eu prefiro melão”.

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Lima Duarte e Regina Duarte, como Sinhozinho Malta e Porcina, em Roque Santeiro (Imagem: Divulgação / Globo)

Ao longo de sua trajetória, Lima Duarte colecionou amigos como Cassiano Gabus Mendes – respondendo, inclusive, pela despedida do autor, no capítulo final de O Mapa da Mina (1993), último trabalho dele. Dias Gomes, responsável pelo texto de O Bem-Amado, foi outro. Juntos, enfrentaram a censura de Roque Santeiro (1975). Mais uma revolução na dramaturgia da qual Lima participou. A novela foi impedida de ir ao ar por atentar contra a “moral e os bons costumes” adotados por um regime militar, certamente mais corrompido do que a novela que condenara.

‘Roque’ foi liberada em 1985. Naqueles tempos de Nova República, e reabertura política, apenas Lima sentiu-se confortável para regressar aos estúdios. Os colegas Betty Faria e Francisco Cuoco, que seguiram com ele para Pecado Capital (1975) – que substituiu a versão censurada de Roque Santeiro –, ficaram de fora. Regina Duarte e José Wilker substituíram os dois.

O tilintar das pulseiras de Sinhozinho Malta renderam ao ator não só o prestígio do público, como também os principais prêmios daquele ano. Sinhozinho era o velho coronel que, para manter o poderio, fazia o povo “de besta”, mantendo o mito do santo Roque (Wilker) – vivíssimo da silva, enquanto toda Asa Branca o julgava morto, num sacrifício em prol da cidade – e também da viúva Porcina (Regina), que o suposto marido sequer conhecia. A volta à telinha, após a conclusão deste clássico, se deu com uma figura completamente inversa.

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Lima Duarte como Sassá Mutema, em O Salvador da Pátria (Imagem: Divulgação / Globo)

Em O Salvador da Pátria (1989), Sassá Mutema era feito de bobo por poderosos como Sinhozinho – no caso, Severo Toledo Blanco (Cuoco). A paixão pela professorinha Clotilde (Maitê Proença) e o desejo de trabalhar em prol dos lavradores, como ele, e dos demais moradores de Tangará, fizeram de Sassá também político. A imprensa, e setores da política, viam tanto apoio, quanto desmoralização de Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à Presidência da República. A Globo, pressionada, interferiu nos rumos da trama, uma das mais bem-sucedidas em audiência daquele período.

Lima também se afinou com os sertanejos através do Som Brasil, dominical que apresentou durante boa parte da década de 1980. O programa é sempre associado ao início da dupla Sandy & Junior na carreira artística. Não se resumiu a isso, claro. Duarte recitava poesias, contava “causos”, recebia nomes em evidência na música e também os mentores do gênio. Um marco da TV brasileira.

Nos anos seguintes, o homem de muitos sotaques viveu grego, italiano, indiano, português… Também político, militar, mafioso, garimpeiro. Revisitou a boleia do pai com o Zé Bolacha, de A Próxima Vítima (1995); reencontrou a “mineirice” através do prefeito Viriato, de Desejo Proibido (2007). Esteve à frente de clássicos como Pedra Sobre Pedra (1992), Fera Ferida (1993), Uga-Uga (2000) e Da Cor do Pecado (2004). Também testemunhou o êxito da filha Débora Duarte, com quem fez Pecado Capital, e das netas Daniela e Paloma. Lima chega aos 90 anos, já tendo feito muito e ainda causando, em todos nós, a sensação de que ainda há muito a fazer.

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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