Percursora de Verdades Secretas, Sex Appeal promoveu estreias e enfrentou vetos

Duh Secco

20/12/2021

Sex Appeal

Cláudia Rangel (Andréia), Carolina Dieckmann (Claudinha), Danielle Winits (Eva), Camila Pitanga (Vilma) e Luana Piovani (Angel) em Sex Appeal; minissérie estreia no Globoplay (Imagem: Divulgação / Globo)

Nesta segunda-feira (20), o Globoplay resgata a minissérie Sex Appeal (1993). A trama desenvolvida por Antônio Calmon mergulhou no submundo da moda muito antes de Verdades Secretas (2015). O grande marco, porém, foi o lançamento de atrizes que fizeram carreira nos anos seguintes, como Luana Piovani, Danielle Winits, Carolina Dieckmann e Camila Pitanga. A coluna destaca esta e outras curiosidades sobre a produção.

O MP causou mudanças na sinopse

Consagrado no cinema e na TV por trabalhos vinculados a adolescentes e jovens adultos, como o filme Menino do Rio (1982), o seriado Armação Ilimitada (1985) e a novela Top Model (1989), Antônio Calmon buscava ampliar as discussões sobre tal parcela do público com Sex Appeal. “Quero abordar o relacionamento dos jovens de hoje, falar sobre sexo, Aids e drogas. Enfim, aproveitar meu marketing junto aos jovens para explorar temas que não pude desenvolver em ‘Armação Ilimitada’, ‘Top Model’ e ‘Vamp’ por limitações do horário”, revelou o autor ao Jornal do Brasil (28/08/1992).

A minissérie, contudo, sofreu intervenções do Ministério Público, que, em parceria com o Juizado de Menores, fiscalizava atrações televisivas com crianças e adolescentes no elenco. Na sinopse original, Angel (Luana Piovani) era violentada sexualmente, ainda na infância, pelo padrasto. A mãe dela, Margarida (Elizabeth Savala), assassinava o marido. As duas fugiam da cidade onde viviam, mas o passado batia à porta quando a moça ganhava notoriedade, como finalista do concurso de new faces promovido pela agência Sex Appeal – administrada pelo casal Cecília (Cleyde Yáconis) e Edgar (Walmor Chagas).

O MP determinou modificações em sequências “impróprias e transgressoras às leis do Estatuto da Criança e do Adolescente”, como a do “estupro de uma menina de 8 anos” e a de um personagem fazendo uso de cocaína como “coisa natural”, além de diálogos com “palavrões e frases grosseiras, violentas e chulas”. O veto causou celeuma em outras tramas, como Renascer, em exibição às 20h, na qual Paloma Duarte, então com 16 anos, interpretava uma menina grávida e em situação de rua. É que a Globo temia multas e vetos do Juizado de Menores, que, na época, expedia alvarás para a participação de menores em programas de TV. Trabalho seguinte de Calmon, Olho no Olho foi lançada em setembro de 1993, às 19h, sem crianças e adolescentes no elenco.

O episódio incomodou Luana Piovani. “ Fiquei triste com o veto do Juizado de Menores porque foi comigo. O fato de ter interpretado a Angel não me prejudicou em nada. Acho que falar de abuso sexual, AIDS e drogas ia servir para abrir os olhos das pessoas. Só ia ajudar”, lamentou a atriz em entrevista ao Jornal do Brasil (29/05/1993). “Angel continua problemática, só que não mais por ser vítima de abuso sexual. Ela agora sempre vai ver nos seus sonhos a mãe apanhando do padrasto”, completou. Além disso, a jovem era perseguida por um psicopata, identificado apenas como Homem Misterioso (Dennis Carvalho).

As muitas promessas de Sex Appeal

Sex Appeal

Nico Puig (Toni) em Sex Appeal; ator foi alçado ao estrelato com produção (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

Luana Piovani foi escalada para Sex Appeal após testes com mais de 400 candidatas. Aos 16 anos, então modelo exclusiva da agência Ford, Luana abdicou de convites posteriores para a televisão por conta dos trabalhos nas passarelas no exterior. A volta ao vídeo se deu no último trimestre de 1994, atendendo ao chamado do diretor geral Ricardo Waddington e do autor Carlos Lombardi para Quatro Por Quatro, às 19h. Cláudia Rangel (Andréia) e Renata Lima (Patrícia) não seguiram carreira.

Danielle Winits, Felipe Folgosi e Nico Puig seguiram com Calmon e Waddington para Olho no Olho, todos com “polo invertido”. Dani deixou a ardilosa Eva, da minissérie, para encarnar, na novela, a recatada Dominique. Felipe passou do desajustado Júlio, dependente químico, para o paranormal “do bem” Alef. Nico trocou Toni, lutador de boa índole, pelo mau-caráter Fred. Puig, aliás, dividiu os estúdios de Sex Appeal com Ariel Borghi (Alfredo), colega dos tempos de apresentador do Revistinha, atração infanto-juvenil da Cultura.

Assim como Ariel, Camila Pitanga (Vilma) também passou por um programa do gênero: o Clube da Criança, apresentado por Angélica na Manchete. Os dois estavam seguindo os passos dos pais: ele, filho dos atores Renato Borghi e Esther Góes – que participa de Sex Appeal como a editora de moda Jacqueline –; ela, de Antonio Pitanga. Ainda, a herdeira do cantor e compositor Edu Lobo, Isabel Lobo (Bia). Após a minissérie, Camila e Carolina Dieckmann (Claudinha), com 15 e 14 anos, seguiram para Fera Ferida, lançada em novembro, às 20h.

Já Lui Mendes, que assinava Luís Cláudio, chegou a ser escalado para Renascer. Mas o personagem reservado para ele, Du, pai do filho de Teca, acabou ficando de fora do enredo. Após dar vida a King Kong, Lui ganhou os holofotes como Jefferson, par de Sandrinho (André Gonçalves) em A Próxima Vítima (1995). O desempenho dele em Sex Appeal ganhou elogios da crítica, enquanto o de Felipe Folgosi colocou o ator, logo na primeira semana de exibição, no ranking dos campeões de correspondência da emissora.

Uma novidade nos bastidores da minissérie

Sex Appeal

Betty Lago (Vicky) em Sex Appeal; promessas da TV passaram por preparação para minissérie (Imagem: Arley Alves / Globo)

Pela primeira vez, a Globo contou com o auxílio de uma preparadora para o time de estreantes. Estrela de novelas com Dancin’ Days (1978) e Marron Glacé (1979), Sura Berditchevsky foi recrutada para desenvolver na TV o mesmo trabalho que fazia no teatro. Exercícios de corpo e voz, além de estudos sobre os personagens, dominaram a rotina dos muitos lançamentos de Sex Appeal.

A investida veio de encontro às queixas de atores sobre egressos das passarelas ou de outros meios que não o teatro e o cinema. “Se o Ricardo teve esse feeling para perceber que é hora de abrir esse espaço é porque está sendo necessário”, avaliou Sura, que também contribuiu com a preparação de Betty Lago (Vicky), em entrevista ao Jornal do Brasil (28/11/1992).

As participações pra lá de especiais

Sex Appeal

Supla (Dino) em Sex Appeal; cantor participou da obra com personagem envolvido com lutas (Imagem: Divulgação / Globo)

Dos nomes cotados para a minissérie, apenas Ney Latorraca ficou de fora, com quem Antônio Calmon dividiu as glórias de Vamp (1991). A obra contou com várias participações especiais. Malu Mader surgiu como ela mesma numa sequência ao lado de Luiza (Sandra Barsotti), atriz que lutava contra a depressão. A modelo Carla Barros apresentou a seletiva do concurso no Rio de Janeiro.

O roqueiro Supla interpretou Dino, lutador que desafia Toni. A escrevente de polícia Marinara Costa, que ganhou fama por conta do ensaio para a Playboy e do romance com o narrador e repórter Fernando Vannucci, viveu Elizabeth, esposa de Renato (Kadu Moliterno), flagrada por ele nos braços do amante Carlão (Mauro Jasmim). A filha de Marinara, Júlia, fez uma ponta como herdeira do casal.

O projeto de Monique Evans

Monique Evans também marcou presença em Sex Appeal. A pré-produção da minissérie coincidiu com a entrega à Globo de um projeto assinado por ela, intitulado Make-Up, recusado pela coincidência de temas, conforme ela contou em entrevista ao jornal O Globo (16/06/1993):

Eu participo do último capítulo da minissérie como jurada do concurso, e na gravação pude perceber que tem muita coisa irreal. Não que eu esteja falando mal do trabalho do Calmon, mas é apenas ficção. A minha história também aborda os temas de sexo e drogas, só que com mais profundidade. Por exemplo, as garotas não transam com donos de agência para ganhar concurso, mas com os donos da política no interior. Mostro também tráfico de drogas entre as garotas. Eu falo de coisas que realmente acontecem e que servem de alerta”.

Na época de Sex Appeal, a emissora também engavetou outras duas minisséries, que entraram em produção anos depois. Decadência, de Dias Gomes, então intitulada O Procurador de Jesus Cristo, foi gravada em 1995. Presença de Anita, de Manoel Carlos, saiu do papel em 2001.

Os jovens na TV

Sex Appeal estreou no rastro da aposta, de todas as emissoras, em atrações para o público jovem. O SBT colhia os frutos do Programa Livre, que fez de Serginho Groisman o grande ídolo dos adolescentes da década de 1990. A Globo tentou combater o concorrente com Radical Chic, que unia o game conduzido por Maria Paula, egressa da MTV, aos esquetes da personagem criada pelo cartunista Miguel Paiva – interpretada por Andréa Beltrão.

O último capítulo da minissérie foi ao ar em 2 de julho, mesmo dia em que o canal encerrou a edição especial de Vamp às 16h15, outra arma para atrair a garotada – o Vale a Pena Ver de Novo, então às 13h30, reapresentava Sinhá Moça (1986).

A obra foi reprisada apenas na TV paga. Em 2005, por conta dos 40 anos da Globo, o Multishow exibiu a versão internacional, de apenas 5 capítulos, às 16h e à 1h. O Canal VIVA resgatou a trama em 2011. O curioso é que esta reprise contou com um capítulo extra, suprimido na exibição original por conta de uma partida de futebol. Sex Appeal não foi ao ar em 24 de junho por conta da disputa entre Brasil e Paraguai pela Copa América. O capítulo 15 foi editado junto do 16 e veiculado no dia seguinte (25), tal qual está no Globoplay.

Só que, no Viva , tal colagem foi desfeita, o que possibilitou a veiculação dos 20 conforme escritos originalmente.

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Escrito por

Duh Secco

Duh Secco é  "telemaníaco" desde criancinha. Em 2014, criou o blog Vivo no Viva, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.