Tarcísio Meira
Tarcísio Meira desabafou em entrevista histórica (Imagem: Divulgação / Globo)

Aos 84 anos, Tarcísio Meira concedeu uma entrevista comovente e histórica à revista Veja e falou sobre a perda de companheiros de trabalho, sobre o casamento de mais de meio século com Glória Menezes, e a falta de papéis nas novelas atuais.

“Os autores não gostam de velhos”, lamentou o veterano, que se prepara para voltar a atuar no teatro e deixou claro que artista não se aposenta: “Quer trabalhar, enquanto houver trabalho para ele. Isso não tem idade”.

“Existe sempre a mesma vontade de fazer as coisas. Eu retomei a peça porque ela é belíssima, e achei uma pena não ter sido vista tanto quanto deveria, pois precisei encerrar a temporada em 2015, por causa de meus compromissos na televisão. Na minha idade, como encontrar outro personagem tão instigante?”, questionou.

Em seguida, Tarcísio Meira falou sobre a morte e admitiu: “A possibilidade de morrer o assusta? Sim, ela assusta. Ninguém gosta de pensar que o fim está chegando. Mas ele está chegando para mim. É triste também lidar com a perda dos amigos”.

“Certa vez, fui receber um prêmio de cinema. Dei de cara com o diretor de teatro Antunes Filho. Foi uma alegria, porque fazia anos que não o via. Eu disse: ‘Antunes, somos sobreviventes’. Pouco tempo depois, o próprio Antunes morreu”, declarou.

“A esta altura da vida, muitos colegas da minha idade se foram. Daqui a pouco, vou eu. Talvez eu deixe um vazio nas pessoas”, explicou, dizendo ainda que chega ao trabalho de cadeira de rodas e prefere não usar próteses.

“Chego ao palco de cadeira de rodas também. Tempos atrás, arrebentei o menisco e fui operado três vezes. Sempre me ofereceram colocar uma prótese, e eu recusei. Agora, venho me apresentando num teatro com muitas rampas”, relatou.

“Achei mais cômodo usar uma cadeira de rodas. Talvez fosse mais educado atender o público de pé. Mas, me perdoem, estou cansado demais para isso”, disse Tarcísio Meira, que também falou sobre a última internação, com pneumonia.

“Passei meu último aniversário, em outubro, também internado. Ganhei festinha, bolo, os médicos e os enfermeiros cantaram Parabéns para mim. Nos dois últimos anos, tive duas gripes fortes que atacaram meus pulmões”, declarou.

Já sobre a ausência das novelas, lamentou: “Os autores não acreditam que existam velhos na família brasileira, nem que eles tenham papel relevante. Sabe como é, são jovens autores, que se preocupam com os jovens”.

“O que eles deveriam saber é que hoje são as pessoas de idade que passam mais tempo na frente da televisão assistindo às novelas. E essas pessoas sempre acompanharam minha carreira e a da Glória”, desabafou.

Sobre o contrato com a Globo, Tarcísio Meira revelou que continua em vigor, mas destacou: “Não sabemos por quanto tempo. Os contratos vencem em breve. Creio que devem terminar por esses dias”.

“Quando entrei na TV, o artista brasileiro só era conhecido por uma elite que frequentava o teatro. Uma elite que não era formada por muitas pessoas, mas suficiente para manter o teatro funcionando”, contou.

“Com o advento da teledramaturgia, o ator brasileiro finalmente chegou ao povo como ele queria: a novela revelou-se uma forma de fazer um teatro popular de fato”, falou. Por fim, abordou o gosto pelas novelas, apesar do tempo afastado.

“Eu adoro novela. Marcello Mastroianni dizia que nós, artistas dos folhetins brasileiros, somos os únicos que vivemos papéis que estão em construção em tempo real. Em nenhum outro lugar existem novelas como as do Brasil”, garantiu.

“No México até existe, mas eles usam ponto para gravar. Aqui, não. O ator realmente participa da vida do personagem. O autor escreve a novela de um jeito, o diretor entende talvez uma coisinha diferente e a gente faz ainda mais diferente”, disse.

“Trazemos na memória a atuação nas cenas anteriores. A gente ajuda a escrever a história do personagem, não somos meros repetidores de palavras em cena. Mas é claro que alguns autores não gostam quando mexemos no texto”, destacou.

“Confesso que é difícil para mim decorar tantas palavras. Quando dá um branco, eu troco a palavra por algum sinônimo ou então decoro a ideia que o autor queria passar. Glória e eu trabalhamos tanto que aprendemos a decorar na marra”, revelou.

Sobre política, confessou que não votou no PT nas últimas eleições: “Não nas últimas eleições. Mas já votei no Lula e convenci minha mulher a votar também. Hoje, está tudo muito confuso, as pessoas ficaram tão enraivecidas”.

“Olha, ando com as duas pernas. Não posso caminhar com a direita sem a ajuda da esquerda, assim como não posso caminhar com a esquerda sem a ajuda da direita. O que estou vendo é que uma perna está brigando com a outra, e esse indivíduo, o Brasil, é capaz de soçobrar. Ora, apenas o saci anda com uma perna só, e, mesmo assim, de vez em quando pega carona com o vento”, finalizou.

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