Selva de Pedra
Tony Ramos e Fernanda Torres, como Cristiano e Simone, em “Selva de Pedra”; novela ganha reprise no Canal Viva (Imagem: Divulgação / Globo)

Na última quinta-feira (22), o Canal Viva exibiu o primeiro capítulo de “Selva de Pedra” (1986). Trata-se da primeira reprise da obra de Janete Clair, atualizada por Eloy Araújo e Regina Braga, lançada exatos 33 anos após a exibição do último capítulo. Por não conhecer a novela o suficiente, fiquei um tantinho reticente ao listar 10 motivos para acompanhar a reapresentação. Mas, visto os três primeiros capítulos, já tenho elementos suficientes, acredito, para acompanhar e enaltecer a escolha do Viva. Abaixo, 10 razões para ficar ligadinho em “Selva de Pedra”.

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Há 33 anos, “Selva de Pedra” trazia conduta inadequada de Jorge (Otávio Augusto), hoje reconhecida como assédio, para com Simone (Fernanda Torres) (Imagem: Divulgação / Globo)

O contexto

A primeira versão do folhetim foi ao ar em 1972, às 20h. E se sagrou a mais bem-sucedida produção televisiva até então, chegando a marcar 100% de participação no número de televisores ligados, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Globo decidiu resgatá-la em 1986 tanto pela dificuldade de encontrar uma substituta à altura de “Roque Santeiro” (1985), quanto pela chance de emplacar uma de suas tramas mais festejadas no mercado externo – a primeira versão, em branco e preto, “não vendia”.

“Selva de Pedra”, porém, foi recebida pela crítica e pelo público como “retrocesso” frente à moderníssima antecessora.

Mas, visto hoje, o remake soa super atual: há discussões pertinentes como o fanatismo religioso de Sebastião (Sebastião Vasconcelos) e o assédio moral e sexual de Caio (José Mayer) e Jorge (Otávio Augusto) – com Olga (Tânia Loureiro) e Simone (Fernanda Torres), respectivamente. A reprise no Viva nos dá a possibilidade de “recontextualizar” a novela, analisar a mudança moral e ética do brasileiro em três décadas e prosseguir com debates necessários desde sempre.

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Fernanda Torres, a Simone de “Selva de Pedra”; personagem não agradou atriz (Imagem: Divulgação / Globo)

A protagonista

Com “Selva de Pedra” no Viva podemos também avaliar o desempenho do elenco. Fernanda Torres sempre foi muita crítica à sua atuação como Simone, protagonista do enredo. A atriz acumulava experiência no cinema e no teatro quando recrutada para a produção; em inúmeras entrevistas, pós-“Selva”, criticou seu desempenho e, de certa forma, a “indústria novelística”. A Simone de Fernanda, contudo, é uma ótima pedida!

A atriz aparenta estar confortável na pele da escultora que vai tentar a vida no Rio de Janeiro, certa de que sua arte é grande demais para a pequena Duas Barras, no interior fluminense. A Simone de 1986 parece menos lacrimejante do que a de 1972, defendida pela então namoradinha do Brasil Regina Duarte. Fernanda Torres fez de Simone uma mocinha de seu tempo, ao menos nesta primeira fase: livre, descolada. Tomara que ela aprecie “Selva de Pedra”, e Simone, no Viva…

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Tony Ramos vive Cristiano Vilhena em “Selva de Pedra”; tipo diferente na galeria do ator (Imagem: Divulgação / Globo)

O anti-herói

Tony Ramos é um dos maiores, se não o maior, ator do país. Mas Cristiano Vilhena, o protagonista de “Selva de Pedra”, quase nunca é relacionado à galeria de grandes personagens de Tony. Uma pena. Em três capítulos, o ator já deixou transparecer todas as nuances do tipo, inconformado com o estado de penúria em que vive, devotado à mãe e às irmãs, desejoso de melhores condições de vida – especialmente financeiras. Um tipo pouco comum em sua trajetória; mais um belíssimo trabalho!

O talento de Tony Ramos ficará ainda mais evidente, no Viva, com a estreia de “Cabocla” (2004), em outubro. Só vem, Coronel Boanerges!

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Nicette Bruno e Miguel Falabella, como Fanny e Miro, dois dos destaques de “Selva de Pedra” (Imagem: Divulgação / Globo)

Astros e estrelas

Não é só Tony, porém, que brilha em uma figura “incomum”. Com uma única cena, Nicette Bruno já fez de Fanny um dos grandes atrativos de “Selva de Pedra”. A dona da Pensão Palácio difere dos tipos “mãezonas” que marcaram a trajetória da atriz – hoje no ar em “Órfãos da Terra”. O Viva, que já nos brindou com Nicette como Dona Branca em “Bebê a Bordo” (1988), lamentavelmente retalhada pelo canal em circunstâncias jamais esclarecidas, agora nos possibilita apreciar a inquietante Fanny.

O mesmo se pode dizer de Christiane Torloni, que, como a petulante Fernanda nada lembra a Jô Penteado, de “A Gata Comeu” (1985), seu trabalho anterior. Também Beth Goulart como Cíntia, de perfil oposto à Débora, a mocinha romântica de “Baila Comigo” (1981), último trabalho da atriz exibido pelo Viva. Nesta segunda-feira (26), Miguel Falabella entrou em cena como Miro, um dos personagens mais festejados de sua carreira como ator.

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Neuza Caribé (Zelinha), Iara Jamra (Diva), Sebastião Vasconcelos (Sebastião) e Yara Lins (Berenice) em “Selva de Pedra” (Imagem: Divulgação / Globo)

In memoriam

“Selva de Pedra” no Viva também nos permite apreciar atores e atrizes que já partiram para o andar de cima. Caso de Sebastião Vasconcelos, como o fanático verdadeiramente religioso Sebastião – não hipócrita como o Zé Esteves, de “Tieta” (1989) –, pai de moral rígida e pouco afetuosa – diferente do Floriano, de “Mulheres de Areia” (1993). Dos profissionais mais versáteis e talentosos que passaram por este plano… Também Yara Lins, destaque dos primeiros capítulos como Berenice.

Ainda, Walmor Chagas como Aristides e André Valli como Pipoca. Sem contar os que ainda não surgiram no vídeo, caso de Aracy Cardoso (Irene).

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Christiane Torloni como Fernanda, de “Selva de Pedra”; uma das personagens mais festejadas da carreira da atriz (Imagem: Divulgação / Globo)

O mofo

O Canal Viva costumava surpreender positivamente seu público, resgatando títulos “de difícil acesso”, quase desconhecidos das novas gerações. Casos de “Dancin’ Days” (1978), “Pai Herói” (1979) e “Água Viva” (1980), por exemplo. Nos últimos tempos, porém, as escolhas ficaram óbvias. Todo mundo sabia que, um dia, “O Cravo e a Rosa” (2000) ia pintar no canal, mas ninguém esperava um repeteco tão precoce – cerca de seis anos após a última exibição na TV aberta.

Por isso, qualquer novela mais “velhinha” merece a audiência dos saudosistas e dos noveleiros “novinhos”, especialmente dos interessados em conhecer mais a fundo a história de teledramaturgia brasileira. Ainda que a segunda versão de “Selva de Pedra” não tenha a aura de clássico de “A Gata Comeu” (1985), “Vale Tudo” (1988) ou “Tieta”, vê-la ou revê-la é fundamental para compreender tal período e incentivar o Viva a seguir revirando o baú.

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José Mayer como Caio, de “Selva de Pedra” (Imagem: Divulgação / Globo)

Quase “inédita”

Com relação ao item anterior, cabe ressaltar que “Selva de Pedra” nunca foi reprisada pela Globo. Há relatos de que o folhetim esteve cotado para o “Vale a Pena Ver de Novo” em 1996, então preterido por “Meu Bem, Meu Mal” (1996) – não encontrei registros que confirmassem a boataria. Prestigiar uma produção nunca reprisada também pode “incitar” o Canal Viva na busca por novelas que acabaram “esquecidas” pela “matriz”, mesmo sendo dignas de reapresentações.

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Kleber Drable (Bartolomeu), Maria Zilda Bethlem (Laura), Henri Pagnoncelli (Horácio) e Márcia Rodrigues (Katzuki) em “Selva de Pedra” (Imagem: Divulgação / Globo)

O visual ‘oitentista’

Ainda, a possibilidade de rever carros, telefones e outros objetos de cena com a cara dos anos 1980! De geladeiras coloridas até brincos geométricos – os materiais mudam, mas as tais formas, viram e mexem, voltam à moda. Dos cabelos aos ternos com ombreiras, tudo merece ser apreciado, nem que seja para causar risos. Os figurinos, aliás, são de Marília Carneiro. Impressionante como as peças selecionadas por ela não envelhecem; há sempre algo alinhado com os dias de hoje…

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A trilha internacional de “Selva de Pedra”; LP vendeu quase 1 milhão de cópias (Imagem: Reprodução / SóMúsica)

Os hits

A trilha sonora de “Selva de Pedra” não foi utilizada a contento nestes três primeiros capítulos. A música mais frequente é “Perigo”, de Zizi Possi, tema de Fernanda. E até as canções ganham outro sentido com a reprise. A letra, segundo o livro “Teletema – A História da Música Popular Através da Teledramaturgia”, de Guilherme Bryan e Vincent Villari, remete a uma “cantada gay”, estando relacionado ao suposto flerte de Fernanda e Cíntia, insinuado logo nas primeiras cenas das personagens.

O romance não rolou – dizem, por conta da Censura, já agonizante (ainda bem!) –, mas “Perigo” ficou para a posteridade, assim como outros clássicos dos repertórios nacional e internacional, com 359.052 e 949.362 cópias vendidas, respectivamente. Do esquecido Joe com “Na Selva das Cidades” até Verônica Sabino e a romântica “Demais”; da balada “Broken Wings”, com Mr. Mister, até a melosa “Yes”, que fez a fama de Tim Moore no Brasil.

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Beth Goulart e Marilena Ansaldi, como Cíntia e Vivi, em “Selva de Pedra”; personagens abusam da sensualidade (Imagem: Divulgação / Globo)

Sensualizany

Por falar em Fernanda e Cíntia… Walter Avancini, também diretor da primeira versão, usou e abusou da sensualidade para formatar a “Selva de Pedra” dos anos 1980. Segundo ele, uma proposta condizente com os tempos de “liberdade sexual”, especialmente das mulheres. Há certos exageros, como Fanny assanhadíssima ao conhecer Cristiano, quase exigindo o rapaz como pagamento pela vaga na pensão, ou a já citada Cíntia alisando as pernas enquanto bate um papo trivial ao telefone.

Fato é que essa “estética sexual” de “Selva de Pedra” pode ser vista hoje como “marco” de uma repaginação das novelas das 20h. As tramas urbanas exibidas na sequência tão foram fundamentais na “libertação” sexual da telinha – e do público, já que a telinha, desde sempre, serve para refletir e “encaminhar” a sociedade. Em “Mandala” (1987), discutiu-se o incesto; em “Vale Tudo”, a prostituição. Até chegarmos a “Tieta”, a primeira novela sem sombra de Censura e de vergonha.

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