Éramos Seis
Othon Bastos (Júlio), Irene Ravache (Lola), Caio Blat (Carlos), Caroline Vasconcellos (Isabel), Wagner Santisteban (Alfredo) e Rafael Pardo (Julinho), na primeira fase de “Éramos Seis” (Imagem: Divulgação / SBT)

Há 25 anos, o SBT exibia o primeiro capítulo de “Éramos Seis”. Era a quarta versão do romance homônimo de Maria José Dupré na televisão: a primeira foi na Record, em 1958, com dois capítulos por semana e ao vivo; a segunda, já diária, no ar pela Tupi em 1967. A terceira representou um dos últimos grandes sucessos da emissora pioneira e o lançamento de dois autores: Rubens Ewald Filho, mais conhecido como crítico de cinema, e Silvio de Abreu, hoje diretor do departamento de teledramaturgia diária da Globo.

Foi o texto desta última adaptação que Silvio Santos adquiriu. Agora, em meio à pré-produção de um novo remake, via Globo, com base no mesmo roteiro da Tupi e do SBT – atualizado por Ângela Chaves –, resgato os bastidores da obra de 1994, marco da teledramaturgia brasileira.

– Silvio Santos tentou comprar o roteiro junto aos autores, sem êxito. Arrematou então os direitos do livro, abrindo nova rodada de negociações com Rubens e Silvio. “Fui praticamente obrigado a fazer a negociação. Eles acertaram tudo com a editora do livro, depois com o Ewald e em seguida me procuraram. Mas tudo bem. Entreguei os capítulos e não participo de mais nada“, relatou Silvio, então envolvido com o desenvolvimento de “A Próxima Vítima” (1995), ao Jornal do Brasil, de 4 de dezembro de 1993.

– Antes de resolver os imbróglios referentes a “Éramos Seis”, Silvio Santos planejava produzir uma segunda versão de “A Fábrica”, folhetim que Geraldo Vietri escreveu para a Tupi em 1971, estrelado por Aracy Balabanian e Juca de Oliveira.

– Os planos do SBT para sua dramaturgia, naquele tempo, eram ambiciosos: a intenção do diretor de núcleo, Nilton Travesso, era implantar “Éramos Seis” e já dar início à produção de “Manhãs do Sol”, texto inédito de Geraldo Vietri, ambientado em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Posteriormente, esta trama foi descartada em prol de “Dom Casmurro”, adaptação dos atores Jandira Martini e Marcos Caruso para a obra de Machado de Assis, contando com a colaboração de Leonor Corrêa – autora de “Carinha de Anjo”, hoje à disposição de “Patinho Feio”, substituta de “As Aventuras de Poliana”. Ainda, a possibilidade de um segundo horário, às 18h, com “Mariana, a menina de ouro”, novela infanto-juvenil desenvolvida por Flávio de Souza, mestre de atrações da Cultura.

– Embora não tenha se preocupado em demasia com o texto – não havia necessidade de atualização – Rubens Ewald Filho acabou envolvido na produção do remake de “Éramos Seis” através da escalação de elenco. Foi ele quem sugeriu Irene Ravache, ausente do vídeo desde “Sassaricando” (1987), para a protagonista Dona Lola (vivida, nas versões anteriores, por Gessy Fonseca, Cleyde Yaconis e Nicette Bruno). Na Globo, Gloria Pires responderá pela matriarca da família Lemos.

– Ewald também sugeriu Osmar Prado para Júlio, esposo de Lola. Osmar acabou contratado para outro personagem: Zeca, casado com a irmã de Lola, Olga (Denise Fraga). O SBT tentou viabilizar a contratação de Herson Capri para o principal papel masculino, sem sucesso: o ator já estava comprometido com “Tropicaliente”, folhetim das 18h que a Globo estreou uma semana após o lançamento de “Éramos Seis”. O eleito para Júlio foi Othon Bastos, que, a princípio, estava encarregado do comerciante Assad (Antônio Petrin).

– Petrin, assim como Jussara Freire, participavam de “Guerra Sem Fim” (1993), da Manchete, quando foram contratados pelo SBT. Os dois deixaram a trama de José Louzeiro: o personagem dele, Ortiz, morre; ela, Rosa – delegada que atuava ao lado de Ortiz – é promovida.

– Jussara substituiu Rosi Campos, primeiro nome cogitado para Clotilde, outra irmã de Lola. Marcelo Picchi viveria seu par romântico, Almeida. Contudo, Paulo Figueiredo o substituiu, repetindo com Jussara a parceira da versão 1977 da novela, onde respondiam pelo divertido casal Zeca e Olga.

– Posteriormente, Rosi Campos fez uma pequena participação na novela, como Paulette, caso extraconjugal de Zeca.

– Quem também esteve, por duas vezes, envolvida com o texto de Rubens e Silvio foi Lia de Aguiar: na Tupi, vivia a madre superiora do asilo para onde foi Lola; no SBT, Marlene, mãe de Júlio. E Chica Lopes, com a mesma personagem: a criada Durvalina, braço direito e confidente de Lola.

– Ficaram de fora do elenco de “Éramos Seis” 1994: Aracy Balabanian (Emília, entregue a Nathalia Timberg), Lilia Cabral (Genu, personagem de Jandira Martini), Nuno Leal Maia (Felício, a cargo de Marco Ricca), Liana Duval (Maria, vivida por Yara Lins) e Jairo Mattos (Marcos, de Nelson Baskerville). O SBT também abriu negociações, frustradas, com Laura Cardoso, Guilherme Leme e Carla Marins.

Éramos Seis
Jussara Freire (Clotilde), Chica Lopes (Durvalina), Irene Ravache (Lola) e Denise Fraga (Olga) em “Éramos Seis” (Imagem: Divulgação / SBT)

– Contratada da casa a peso de ouro, no ano anterior, e queridinha de Silvio Santos, Angélica foi recrutada para uma participação especial – uma espécie de laboratório para uma personagem maior, em “Mariana, a menina de ouro” (que nunca saiu do papel). A apresentadora, porém, acabou substituída pela estreante Ana Paula Arósio. A personagem: Amanda, menina rica, flerte de Carlos (Jandir Ferrari), o primogênito de Lola.

– Também a primeira novela de Otaviano Costa (Tavinho); ainda, Caio Blat (Carlos, quando criança) e Wagner Santisteban (Alfredo, posteriormente vivido por Tarcísio Filho).

– Dentre as participações especiais, destaque para Ney Latorraca como o palhaço Sorriso; ainda Clarisse Abujamra, longe do vídeo desde “Escrava Isaura” (1976), como Madame Dora Bulcão e a bissexta Marilena Ansaldi – vista na TV apenas em “Rabo de Saia” (1984), “Selva de Pedra” (1986) e “Cara & Coroa” (1995) – como Madame Bulhões. E “quase” Elba Ramalho, que não atendeu ao chamado para viver uma cantora de cabaré.

– Luciana Braga, intérprete de Isabel (filha de Lola), teve sua participação diminuída nos capítulos finais, para que a atriz pudesse se dedicar aos primeiros capítulos da trama substituta, “As Pupilas do Senhor Reitor” (1994). A atriz assumiu uma das protagonistas de “Pupilas”, Clara, após a recusa de nomes como Adriana Esteves e Lisandra Souto.

– A equipe de direção contou com Del Rangel, egresso da Globo, e Henrique Martins, veterano ator que migrava para o outro lado das câmeras. A intenção de Nilton Travesso era contar também com a cineasta Ana Carolina, dos longas-metragens “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987). Não houve acerto.

– O SBT contratou a bailarina Maria Pia Scognamiglio para executar um trabalho “incomum”: adequar movimentos e gestos dos atores à época em que se passava a novela (de 1921 a 1944). Maria Pia controlava, por exemplo, o caminhar das mulheres: as “recatadas” andavam sem rebolar, em passos curtos que evitavam uma distância grande entre uma coxa e outra, tornando as zonas erógenas menos “devassáveis”.

– Com passagens pela Globo – onde respondeu por “Sinhá Moça” (1986), “Direito de Amar” (1987) e “Desejo” (1990) – Paulo Lois assinou o figurino, composto por cerca de 400 peças, apenas na primeira fase. Na caracterização, Westerley Dornellas, responsável pelo apuro estético de “Renascer” (1993); o profissional fora contratado, a princípio, para a cancelada “Mariana, a menina de ouro”. O diretor de fotografia Augusto ‘Black’ Costa – que passou por Tupi, Globo e Manchete – chegou a gastar US$ 500 mil em uma semana, na aquisição de equipamentos de luz para o recém-criado núcleo de teledramaturgia.

– Daniel Clabunde e João Nascimento responderam pela construção da cidade cenográfica de “Éramos Seis”. Os cenógrafos partiram de pesquisas em publicações da época e arquivos fotográficos para reconstruir a Avenida Angélica, onde estava localizado o sobrado da família de Lola; a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) cedeu informações sobre o funcionamento dos bondes, enquanto a Eletropaulo forneceu modelos de postes antigos. A cidade, de 6.300 metros quadrados, compreendia 19 fachadas – de armazém a Praça Buenos Aires –, um trecho do bairro Bom Retiro (então reduto do comércio judaico) e uma pequena rua de Itapetininga, interior paulista, onde residiam Maria, Olga e Zeca. O destaque: um bonde de duas toneladas e meia! Nos detalhes, o minucioso trabalho do diretor de arte Beto Leão, ex-global, que reproduziu até mesmo as cerâmicas usadas no período retratado, em pisos e paredes.

– Antes do início das gravações, Irene Ravache se submeteu a uma cirurgia plástica no pescoço. A atriz o considerava “muito marcado” para uma mulher de menos de 40 anos, como Lola.

– A estratégia de divulgação do folhetim incluiu anúncios de página inteira nos principais jornais de São Paulo, convocando o público para acompanhar “Éramos Seis” “logo após ‘A Viagem’ ou logo após ‘Fera Ferida’“, as novelas das 19h e das 20h da Globo.

– O SBT adiou a estreia de “Éramos Seis” em uma semana, por conta da morte do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, em 1º de maio, domingo. No horário anunciado para o lançamento, dia 2 de maio, Irene Ravache deu um depoimento dizendo que a novela não poderia ir ao ar em meio a um momento tão triste para o país. O “Aqui Agora” foi mantido às 19h45; a faixa das 21h45 foi dedicada, naquele dia, ao “Programa Livre”, de Serginho Groisman, somente com homenagens a Senna. Nos demais dias da semana, Groisman passou a entrar às 19h45; a sessão “Cinema de Graça” ocupou o segundo horário. “Éramos” estreou na segunda-feira seguinte, 9 de maio.

– Silvio Santos cogitava, a princípio, testar as duas faixas – 19h45 e 21h45 – durante quinze dias. Após este período, a novela seria mantida apenas no horário de maior audiência. A revista Contigo!, inclusive, lançou uma pesquisa, por cartas e telefone, para que o público escolhesse o “horário definitivo de ‘Éramos Seis'”. Acontece que o telespectador respondeu bem nas duas exibições.

– A estratégia incluía, evidentemente, o corte abrupto do “TJ Brasil”, então apresentado por Boris Casoy – desta forma, “Éramos Seis” tinha início tão logo “A Viagem” chegava ao fim. Por conta da prática, o âncora do “TJ” chegou a dizer, no início de um dos últimos blocos do noticiário: “De repente, não mais que de repente, o ‘Telejornal Brasil’ pode ser interrompido para a apresentação da novela ‘Éramos Seis'”.

– A Globo tentou minar a reapresentação, logo na estreia, estendendo “Fera Ferida” e programando o blockbuster “Máquina Mortífera 2” (1989), em “Tela Quente” – no dia da “não-estreia”, a emissora contava com “Três Solteiros e uma Pequena Dama” (1990). Na terça-feira da semana seguinte, 17, colou o lançamento da minissérie “Memorial de Maria Moura” na novela das oito. “Éramos Seis” registrou então seu pior resultado até ali: 10 pontos. O folhetim do SBT, contudo, começou a se destacar nas noites de futebol; naquele tempo, os torneiros não eram fixados, como hoje, às quartas-feiras, com partidas rolando às terças-feiras, quintas-feiras e sábado…

Éramos Seis
Irene Ravache (Lola) e Othon Bastos (Júlio), nos últimos capítulos de “Éramos Seis” (Imagem: Divulgação / SBT)

– O recorde de audiência ficou por conta do capítulo em que Carlos morre: 22 pontos.

– Os primeiros capítulos foram reapresentados nas tardes de sábado, por volta das 14h30. E, surpreendentemente, atingiram a mesma média alcançada ao longo da semana: 12 pontos.

– Os personagens travavam diálogo direto com o público ao final de cada capítulo. Olhando direto para a câmera, os tipos falavam sobre suas aflições, como se estivessem de papo com um velho conhecido. O recurso não era inédito: a Tupi havia empregado em “Vitória Bonelli” (1972).

– O desfecho de alguns personagens, na novela, difere do livro de Maria José Dupré: Clotilde, ao invés de terminar solteirona, se acertou com Almeida, desquitado; Alonso (Umberto Magnani), Higino (Paulo Hesse) e as tias de Lola, Emília e Candoca (Wilma de Aguiar), foram poupados da morte; e Lola, esquecida num asilo de velhos, se abrigou num lar onde auxiliava as madres nos cuidados com crianças.

– Após a exibição do último capítulo, o SBT levou ao ar um especial, com o elenco de “Éramos Seis” dividindo o Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, com o time de “As Pupilas do Senhor Reitor”, a novela substituta. Hebe Camargo comandou a festa, intitulada “Noite dos Artistas” – e abrilhantada pelo “casal 20 do telejornalismo” Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, Gugu Liberato e Jô Soares.

– “Éramos Seis” ganhou o Troféu Imprensa e o APCA de melhor novela de 1994. Irene Ravache também foi contemplada como melhor atriz nas duas premiações. Tarcísio Filho levou a estatueta de melhor ator coadjuvante, segundo os críticos da APCA.

– A novela ainda abriu as portas para o SBT no mercado externo: então no ar aqui no Brasil, foi vendida para a TVI, de Portugal.

– O término de “Éramos Seis” foi adiado, da segunda semana de novembro para 5 de dezembro (segunda-feira), por conta dos problemas de produção da substituta, “As Pupilas do Senhor Reitor”. O núcleo de dramaturgia do SBT, ainda modesto, não dispunha de mão-de-obra e tempo para tocar dois projetos em paralelo. Além disso, “Éramos” enfrentou intempéries como à reação alérgica da protagonista, Irene Ravache, a um produto para “embranquecer” os cabelos.

– “Éramos Seis” foi reprisada uma única vez, entre 22 de janeiro e 22 de maio de 2001. Na ocasião, a novela dividiu a grade do SBT com as mexicanas “Maria Isabel” e “Camila”, na primeira faixa da “Tarde de Amor”; “Coração Selvagem” e “Amigos Para Sempre”, na segundo horário da sessão; “Gotinha de Amor”, também lançada em 22 de janeiro, e “Serafim”, às 19h15; e “Esmeralda”, substituída pela colombiana “Café com Aroma de Mulher”, às 20h15.