Anos Dourados ganha reprise no Canal Viva; descubra curiosidades da minissérie

Anos Dourados
Malu Mader (Lurdinha) e Felipe Camargo (Marcos) em Anos Dourados; minissérie ganha reprise no Canal Viva (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

A partir deste domingo (27), 23h45 – logo após a maratona de Mulheres Apaixonadas (2003) –, o Canal Viva exibe a minissérie Anos Dourados (1986). A obra de Gilberto Braga que consagrou Malu Mader e lançou Felipe Camargo ao estrelato chega à sua terceira passagem pelo Viva; desta vez, com exibição semanal, reprises aos sábados à 1h30 e disponível, a todo momento, no Viva Play. Abaixo, listei algumas curiosidades desta vitoriosa produção.

– Anos Dourados foi concebida por encomenda. A Casa de Criação Janete Clair, então responsável por selecionar sinopses para a Globo, criou o projeto Nosso Tempo, voltado para minisséries sobre diferentes épocas da história do Brasil. Gilberto Braga ficou então encarregado de escrever sobre o período em que o país era governado por Juscelino Kubitschek (de 1956 a 1961).

– Apenas a sinopse de Anos Dourados agradou à direção da emissora. As outras minisséries do projeto Nosso Tempo, que abrangiam as décadas de 40, 60 e 70 – mobilizando autores como Dias Gomes e Euclydes Marinho – foram engavetadas.

– A trama da minissérie já estava desenhada na cabeça do autor quando veio o convite da Casa de Criação Janete Clair. Durante um jantar com Marcos Paulo e Malu Mader, então recém-saídos de Corpo a Corpo (1984), novela de sua autoria, Gilberto Braga imaginou a moça vestida de normalista. A partir desse “devaneio”, nasceu Lurdinha.

Anos Dourados
Malu Mader (Lurdinha) em Anos Dourados (Imagem: Divulgação / Globo)

– Para entender melhor o contexto da época, o autor promoveu debates com homens e mulheres que viveram a adolescência naqueles tempos. Todos lamentaram a rigidez moralista do período. Hugo Carvana, um dos “debatedores”, porém, ressaltou: “[…] Nós abrimos a porta para uma geração nitidamente melhor que viria depois. Então, quando você tratar da gente, por favor, trate com carinho, com muito afeto”. O relato é de Gilberto Braga em matéria do jornal O Globo (4 de maio de 1986).

– Gilberto Braga, em entrevista ao Jornal do Brasil (5 de maio de 1986), declarou: “A série olha o passado com uma visão atual. Fala de ontem para entender o presente”. E complementou em O Globo (4 de maio de 1986): “Sob certos aspectos, o programa é uma denúncia, pois o tema é a hipocrisia de uma certa classe média, mas feita com enorme carinho”.

– Sobre as declarações acima, Gilberto chegou a confidenciar o questionamento da atriz Yara Amaral – em um de seus melhores trabalhos, como a mãe repressora Celeste. “Você sente ternura por ela mesmo quando ela é ridícula, não sente?”, indagou Yara ao autor. Foi Celeste quem vociferou os maiores absurdos dos moralistas de Anos Dourados, como “posso me orgulhar de poucas coisas na vida, mas aqui em casa nunca entrou desquitado!”.

Anos Dourados
Yara Amaral (Celeste) e Cláudio Corrêa e Castro (Carneiro) em Anos Dourados (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

– O autor acompanhou a primeira gravação, no Instituto de Educação, onde havia cursado o jardim de infância e o primário. Gilberto contou ao jornal O Globo (2 de outubro de 1988) que sua primeira ação ao chegar à locação foi procurar a horta que havia plantado na época de estudante, nos fundos do colégio. “Não havia mais horta. […] Mas a gente estava plantando a série que tocou tanta gente”.

– Apesar de o roteiro ser aclamado por público e crítica, Gilberto posteriormente declarou que faria alterações no desenrolar da minissérie. Por ocasião da primeira reprise, em 1988, o autor comentou em O Globo (2 de outubro de 1988), sobre o mistério em torno da morte de Olivério (Arthur Costa Filho): “Daniel Filho e Ângela Carneiro me falaram desde a sinopse: ‘acho que não precisa de crime’… Estavam certos”.

– A primeira reapresentação de Anos Dourados, aliás, gerou polêmica. A edição rifou do último capítulo a narração de Paulo César Pereio que revelava o que acontecera com os principais personagens nos anos 60 e 70. O público questionou a Globo, por meio de jornais, sobre o corte.

– Mesmo tendo indo ao ar apenas dois anos após o término da exibição original e em um horário mais tardio (23h15), a reprise de Anos Dourados alcançou expressivos 56% dos aparelhos de TV ligados em São Paulo. Essa reprise, aliás, seguia o modelo então implantado para as minisséries, com exibição de terça a sexta – a original foi ao ar de segunda a sexta.

Anos Dourados
Isabela Garcia (Rosemary) em Anos Dourados (Imagem: Divulgação / Globo)

– Anos Dourados também foi reexibida nas tardes de 1990, em 10 capítulos, na faixa Festival 25 Anos, logo após o Vale a Pena Ver de Novo. Essa versão foi reapresentada pelo Multishow em 2005, na comemoração dos 40 anos da Globo.

– Nesta época, a Globo Vídeo lançou Anos Dourados em VHS: duas fitas com cerca de quatro horas e meia de duração. Em 2003, a minissérie foi lançada em DVD, com edição de Gilberto Braga e Roberto Talma.

– Os extras do DVD trazem uma preciosidade: a última aparição em vídeo de José Lewgoy, falecido em fevereiro de 2003. O ator confidencia que recebeu um dos maiores elogios de sua carreira com essa minissérie, na qual vivia o Brigadeiro Campos: “Foi de um militar, que falou que gostou da minha atuação porque eu não fui revanchista: ‘você nos representou como nós éramos mesmo’”.

– Também no DVD, Nívea Maria comenta que o convite para viver Beatriz coincidiu com a perda de sua mãe: “Quando eu vi as primeiras cenas, eu estava ali quase que representando minha mãe. […] A alegria da personagem, a tristeza da personagem, a dedicação àquele marido, o amor aos filhos e talvez, o medo e a submissão ao pai”.

– Ainda nos extras, Roberto Talma, diretor de Anos Dourados, revela que a produção foi adiantada em aproximadamente 45 dias, em virtude do avanço da Manchete na faixa noturna, provavelmente devido ao êxito de Dona Beija.

Felipe Camargo (Marcos), Taumaturgo Ferreira (Urubu) e Antonio Calloni (Claudionor) em Anos Dourados (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

– Roberto Talma inspirou Taumaturgo Ferreira (Urubu) a criar o gesto que sucedia os comentários de Urubu sobre mulheres e sexo: algo como cuspir na mão, arrematado com um “estalar de dedos”. Talma “cuspiu” após uma gravação de Taumaturgo, que incluiu o gesto em sua cena seguinte, acrescentando o “estalar de dedos”.

– A produção musical de Anos Dourados ficou a cargo de Gilberto Braga. Ele aguardava o término do trabalho de edição para sonorizar os capítulos, ao lado dos profissionais da sonoplastia e de Paulo Sérgio Saraceni, diretor musical.

– O que pouca gente sabe é que durante este trabalho, Gilberto acabava atuando também como diretor. Ao ver o capítulo, ele optava por cortar um plano, uma fala ou até mesmo modificar a ordem das cenas. E sempre pedia o aval de Roberto Talma para executar tais ações, até que este lhe deu carta branca para fazer o que achasse conveniente.

– As catorze faixas que compõem a trilha sonora de Anos Dourados foram escolhidas por Gilberto Braga a partir de uma lista de 50 músicas: “Levei minha vida inteira para fazer essa seleção e duas horas para montar o disco”.

– Anos Dourados foi a primeira minissérie da Globo a ter sua trilha lançada em CD. Na verdade, um relançamento por conta da reprise de 1988.

– Foi a primeira capa de Malu Mader (Lurdinha), que viria a estampar as trilhas de outras novelas e minisséries nos anos seguintes, tornando-se uma das recordistas em fotos do gênero.

– Aliás, as fotos que ilustram o LP, de certa forma, refletem o comportamento do casal Lurdinha e Marcos (Felipe Camargo). Na capa, os dois surgem com trajes de festa, “belos, recatados e do lar”, como convinha à sociedade vigente; na contracapa, estão despidos, abraçados, “livres para amar”.

– Anos Dourados marcou a estreia de Felipe Camargo na TV. O sucesso foi tão grande que, após o término da minissérie, o ator foi convidado para viver Pedro, um dos personagens centrais de Roda de Fogo (1986). Já Malu Mader, para romper com a imagem de boa mocinha que Lurdinha lhe conferiu, voltou à TV no ano seguinte, como a barraqueira desbocada Glorinha da Abolição, de O Outro.

– O êxito da minissérie levou a Globo a apostar em temática semelhante, com a estreia de Bambolê às 18h, em 1987. Gilberto Braga chegou a auxiliar o autor Daniel Más na composição da trama.

Anos Dourados
Betty Faria (Glória) em Anos Dourados (Imagem: Divulgação / Globo)

– O cabelo de Glória, personagem de Betty Faria, foi sugerido pela própria atriz. A equipe de criação ainda hesitava em pedir que Betty cortasse o cabelo quando foi surpreendida por ela, já caracterizada, inspirada em uma foto da atriz Gina Lollobrigida.

– A rua de um condomínio em Jacarepaguá serviu de cidade cenográfica para a minissérie. Os postes foram pintados de preto – já que na década de 50, não havia postes de cimento, apenas de ferro.

– Mesmo como tanto esmero, houve quem apontasse deslizes na produção, como a presença nos cenários de refrigerantes em lata e de um liquidificador Walita, inexistentes nos anos 50.

– Até a estreia de Memorial de Maria Moura, em 1994, Anos Dourados ostentava o título de maior audiência dentre as minisséries da Globo.

– Anos Dourados foi reapresentada no Canal Viva em duas ocasiões: em 2011, para comemorar o primeiro aniversário do Viva, e em 2013, também na época do aniversário, devido ao êxito de audiência – a minissérie mais vista do canal até então.

– O curioso é que, após três reexibições anteriores e lançamentos em VHS e DVD, pela primeira vez Anos Dourados pode ser revista na íntegra.

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Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.