Ator trans de Salve-se Quem Puder revela ameaças de morte e desabafa

Bernardo de Assis interpreta o office boy Catatau em Salve-se Quem Puder (Imagem: Reprodução / Globoplay)

Intérprete do office boy Catatau na novela Salve-se Quem Puder, o ator Bernardo de Assis revelou as dificuldades de ser um homem trans no meio artístico. Aos 26 anos de idade, ele iniciou o processo de redesignação sexual em 2016.

Em entrevista à colunista Patrícia Kogut, o rapaz disse que chegou a receber ameaças de morte. “Muitas pessoas falam sobre a importância da representatividade trans na TV e me agradecem”, declarou.

“Outras comentam que convivem com pessoas trans e não sabiam lidar direito com a situação, mas que estão aprendendo. Isso tudo me deixa muito feliz”, comemorou, antes de relatar uma situação difícil que viveu recentemente:

“Teve um dia, por exemplo, que foi publicada uma entrevista comigo num jornal, em que eu falei sobre a minha trajetória. Na ocasião, passei a manhã e a tarde inteira gravando e nem olhei o celular. De noite, quando abri meu Instagram, havia uma série de mensagens agressivas, algumas falando de questões religiosas e me ameaçando de morte. Foi horrível”.

“Eu desejo muito mudar o mundo. E acho que o fato de eu estar na TV é um passo importante para isso. Eu vejo gente que não tem informações sobre a transexualidade, mas que está indo atrás e buscando o conhecimento”, revelou.

“Também existem muitas pessoas cis e heterossexuais dispostas a se tornar aliadas da causa LGBTQIA+”, disse ainda o ator, que sofreu com o afastamento de familiares e amigos ao assumir a transexualidade.

Porém, segundo ele, algumas dessas pessoas o procuraram após vê-lo na TV:

“Quando eu iniciei minha transição, muita gente próxima não entendeu e não esteve aberta a tentar entender. Essas pessoas acabaram se afastando. Com a novela, recebi mensagens de muitas delas. Com algumas, conversei e estou reconstruindo a amizade”.

Ao longo da pandemia, as gravações de Salve-se Quem Puder foram paralisadas e ele se dedicou a dirigir seu primeiro documentário, “Bhoreal”, que foi selecionado para o Festival Pajubá e acompanha a Drag Queen Gervásia Bhoreal.

Ela fez projetos sociais com moradores de rua de São Paulo e tudo foi documentado por ele:

“A Gervásia faz essas atividades sociais na ruas toda montada. É muito interessante ver a reação e a relação dela com as pessoas acolhidas. O projeto nasceu como um exercício do curso Audiotransvisual, uma iniciativa do cineasta André da Costa Pinto, que ofereceu uma formação on-line e gratuita a 30 alunos trans durante o período de isolamento social. Foi uma experiência incrível”.

As gravações da novela encerraram em dezembro do ano passado, após o fim do seu contrato com a Globo, e, desde então, ele vem desenvolvendo roteiros, mas sonha com a estabilidade profissional:

“Meu grande desejo neste momento é poder ter um espaço meu. Eu fico muito pulando de lugar em lugar. Atualmente, estou morando com minha irmã e meu cunhado, porque ela está grávida. Estou dando um apoio. Mas eu já estive em casas de acolhimento, em situação de vulnerabilidade”.

Em 2018, ele foi submetido a uma cirurgia para retirar as mamas, e agora, seu objetivo é remover útero e ovários: “É, com certeza, algo em que eu penso bastante, apesar de não ser uma prioridade na minha vida”.

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