A Dona do Pedaço
Desfechos de A Dona do Pedaço geraram revolta (Imagem: Reprodução / Globo)

A Dona do Pedaço chegou ao fim na noite desta sexta-feira (22) com desfechos “incomuns” para uma novela da Globo. Durante tantos anos de teledramaturgia, foram poucas as vezes que a emissora levou ao ar um final tão politicamente incorreto.

Entretanto, curiosamente, a “família tradicional brasileira”, público predominante das tramas da TV aberta, foi o que mais rejeitou os finais escolhidos por Walcyr Carrasco para suas vilãs, Josiane (Agatha Moreira) e Fabiana (Nathalia Dill). Por que será?

Se, por um lado, o autor desagradou o público mais consciente da novela, com assassinatos gratuitos e temas tão importantes tratados “de qualquer jeito”, por outro, ele agradou a “intelectualidade televisiva” com esses desfechos inesperados.

Mais precisamente, os das vilãs, que tanto aprontaram ao longo da trama, mas acabaram “felizes para sempre”, ainda piores do que em suas respectivas trajetórias. A seguir, você confere os finais e tira suas próprias conclusões:

Maria da Paz e Amadeu

O final mais “aceitável” e comum da novela, com os mocinhos, finalmente, juntos, foi também o mais clichê. Não houve muitas reclamações, claro, pelo fato de não ter surpreendido e se confundido com os finais de todos os demais personagens “do bem”.

Se o último capítulo fosse limitado às ações de adrenalina e ao final feliz esperado por todos, em pouco tempo, seria confundido com todas as outras demais novelas da casa. Obviamente, como em todas as profissões, um autor busca inovar para se destacar.

Casais coadjuvantes

Também foi acertado em cheio o fato de não ter dedicado mais que dez minutos aos desfechos de casais formados de última hora ou de pouca relevância na história central.

Metade dos coadjuvantes teve suas últimas cenas antecipadas nos penúltimos capítulos e, os de maior notoriedade, foram encerrados em pequenas cenas conclusivas.

Foi o caso de Téo (Rainer Cadete) e Kim (Monica Iozzi), Rock (Caio Castro) e Joana (Bruna Hamú), Agno (Malvino Salvador) e Leandro (Guilherme Leicam), entre outros.

Vivi Guedes e Chiclete

Se fosse o final de uma novela “comum”, Chiclete (Sergio Guizé), por ser “do bem”, se acertaria com a Justiça, pagaria pelos crimes do passado, e, finalmente, teria o seu final feliz com uma das mocinhas da história, Vivi Guedes (Paolla Oliveira).

O autor, porém, preferiu que ele não só matasse o vilão, Camilo (Lee Taylor), como também fugisse levando a digital influencer consigo, em uma grande aventura, felizes para sempre [e eternamente procurados pela polícia].

Fabiana e Rael

Em um dos finais mais criticados, Fabiana terminou com tudo que sempre quis: um amor, muito dinheiro e poder, sem deixar de lado a sua fé, já que foi criada em um convento e nunca deixou que ninguém esquecesse disso.

Tanto ela quanto Josiane, assim como todos os familiares Ramires e Mateus, terminaram a novela “blindados” de qualquer lei, em um mundo paralelo onde as pessoas matam umas as outras sem que haja nenhuma investigação ou punição por isso.

Tanto Chiclete quanto Rael (Rafael Queiroz) mataram e terminaram felizes com as “herdeiras” da família Ramires, mas o público do sofá aceitou apenas o final do primeiro, tomados pela “romantização” do “amor bandido” da blogueira bobinha.

Os finais das irmãs Virgínia e Fabiana foram praticamente os mesmos, entretanto, para o público de casa, apenas o da ex-freira foi considerado como “mau exemplo” para o telespectador da Globo, que se considera perfeito e “demoniza” apenas os vilões. Vai entender…

Josiane e Régis

O final mais polêmico e mais surpreendente de A Dona do Pedaço foi também o mais criticado. Apesar da previsível “falsa conversão” da antagonista, o desfecho de Josiane foi uma das poucas coisas responsáveis por tornar a novela “inesquecível” no futuro.

O público conservador das novelas das nove não conseguiu compreender a “paranormalidade” imposta pelo autor e o final em aberto, por estar acostumado a ver todos os pingos sendo colocados nos “is” no fim da maioria das histórias.

O público da internet, na “era Netflix”, por sua vez, foi o que mais gostou do que viu. Para eles, a imprevisibilidade vale mais do que o encaixe das peças no quebra-cabeça. A identificação com a falta de perfeição vale mais que a utopia de finais felizes.

Se desde que o mundo é mundo, as pessoas más não são devidamente punidas, por que nas novelas deve ser diferente? Enquanto isso, para a “família tradicional brasileira”, se algo foge do padrão exigido e esperado, os julgamentos tomam conta.

Final de A Dona do Pedaço

Walcyr soube agradar a audiência ao longo de toda a história, com diálogos simplórios, situações óbvias e cenas capazes de prender a atenção de todas as idades. Atacado pela crítica especializada, ele sabe vender e é prestigiado por quem paga seu salário.

Sem nada mais a perder depois que o sucesso já havia sido decretado e, ligado na atual e nas próximas gerações, soube também visar os futuros telespectadores da Globo. A emissora se renova a cada dia e busca a própria adaptação ao mundo atual.

Essa junção de TV e internet pode ser um perigo nas mãos de quem não sabe o que faz. Nas de Walcyr Carrasco, foi uma grande oportunidade de tornar A Dona do Pedaço mais um dos grandes sucessos dos últimos anos.

O mundo pré-2020 não corresponde ao de 2012, quando Avenida Brasil, mantida na lembrança do público até hoje, soube se destacar com o que era “inovador”. Mas foi apenas no seu ano em questão. Sua reprise prova que a sociedade atual é outra.

Fazer o público antigo adaptar-se à diversidade de um mundo globalizado é difícil, mas fazer o mundo globalizado se encaixar em um formato tão antigo como o de uma novela é praticamente impossível. E foi isso que Carrasco conseguiu.

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