Fascinante das atuações à produção, Hebe merece chance na TV aberta

Hebe
Andréa Beltrão e Valentina Herszage na minissérie Hebe; produção disponível no Globoplay tem cara de TV aberta (Imagem: Fábio Rocha / Globo)

Antes cotada para a grade de janeiro da Globo, a minissérie Hebe acabou restrita ao Globoplay. A emissora talvez tenha ficado temerosa com o desempenho tímido do filme Hebe – A Estrela do Brasil, lançado em setembro. Bobagem. A versão estendida, talvez por compreender toda a biografia da rainha da televisão, é infinitamente superior ao longa-metragem centrado em um breve e tumultuado período das esferas pessoal e profissional da apresentadora e cantora. E tem toda pinta de TV aberta.

Essa afinidade com o maior meio de comunicação do país provém justamente da figura de Hebe Camargo. A história da televisão se confunde com a vida e a obra da loira que nasceu moreníssima. Evidente que as licenças poéticas tornaram Hebe mais transgressora do que ela era. Mas não há nada de inverdade ali.

Hebe se equilibrava, a todo instante, entre o velho e o novo mundo. A mulher que defendia a emancipação não se sentia capaz de viver sem um marido, por pior que ele fosse. Saía em defesa dos amigos, dos bons e dos ruins. E tratava auditório e telespectador como um amigo íntimo, com quem dividia amores e ódios.

As escolhidas para interpretar Hebe, Valentina Herszage e Andréa Beltrão, não guardam semelhanças físicas com a homenageada. Ambas, porém, ganham pontos com trejeitos, timbres e olhares que remetem à diva. É como Andréia Horta que aprendeu a sorrir com os olhos para “encarnar” Elis Regina. Beltrão e Herszage incorporam Hebe de tal maneira que é possível perceber a presença dela em todos os capítulos. É uma sensação, no mínimo, estranha. E muito maravilhosa…

Esse “encontro” passa também pela brilhante reconstituição de época. A minissérie não faz releituras como a de Verão 90, que pincelou seus cenários com poucos elementos da época em questão. Hebe reproduz várias décadas com rigor, dos eletrodomésticos aos microfones utilizados por ela em diferentes fases e emissoras. A música, com produção de Emerson Villani e do ex-titã Branco Mello, vai pelo mesmo caminho – com uma protagonista extremamente afinada com todos os ritmos e hits.

Em resumo, Hebe é produto para angariar bons pontinhos de audiência na telinha da Globo – embora o desempenho em Tela Quente, na última segunda-feira (16), não tenha sido dos melhores. Não deve nada a atrações do tipo, como as bem-sucedidas Maysa – Quando Fala o Coração (2009) e Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor (2010). Hebe reverencia uma das mulheres mais fascinantes da história da TV, de modo tão encantador e vibrante quanto sua inspiração. Vale cada minuto.

Hebe
Janete Clair e Tony Ramos; minissérie sobre a autora está à disposição da Globo (Imagem: Reprodução / Memória Globo)

Gaveta

Nesta linha de minisséries sobre grandes figuras do meio artístico, a Globo tem à disposição o texto de Filipe Miguez e Laís Mendes Pimentel sobre a cantora Ângela Maria (1929 – 2018), centrado nas décadas de 1950 e 1980 – a primeira é quando Sapoti alcança o estrelato; a segunda, o momento que se une ao companheiro Daniel, anos mais jovem.

Já Guilherme Vasconcelos, Newton Moreno e Renata Dias Gomes apresentaram à emissora um roteiro sobre o casal Dias Gomes (1922 – 1999) e Janete Clair (1925 – 1983) – avós de Renata. Em foco, a vida doméstica e a luta de ambos contra a Censura do governo militar nos bastidores de clássicos como Selva de Pedra (1972) e O Bem-Amado (1973).

Hebe
Júlio Andrade (Raul Seixas) no Por Toda Minha Vida; docudrama revisitava biografias de estrelas da música (Imagem: Frederico Rozário / Globo)

Memória

Entre 2006 e 2011, a Globo apostou na série Por Toda Minha Vida, que usava de dramaturgia e jornalismo para remontar a biografia de grandes nomes da música popular brasileira. O programa apresentado por Fernanda Lima foi indicado ao Emmy em três ocasiões – episódios sobre Elis Regina (Thavyne Ferrari / Bianca Comparato / Hermila Guedes), Nara Leão (Pérola Faria / Inez Viegas) e Cartola (Miguel Oliveira / Alex Brasil / Wilson Rabelo). Merece voltar à “linha de produção” ou ao menos ganhar reprise no Canal Viva.

Hebe
Regina Casé (Lurdes) em Amor de Mãe; humor “contido” marca novela das 21h (Imagem: Artur Meninea / GShow)

Ligo

No humor de Amor de Mãe. Quem diz que a trama não diverte, não assiste. Ou espera um núcleo cômico digno do extinto Zorra Total, com esquetes repetitivos, bordões cansativos e um letreiro na testa indicando que aquele personagem é para fazer rir – nem que seja de nervoso. Amor de Mãe tem graça nas falas e trejeitos de Lurdes (Regina Casé), na ira de Lídia (Malu Galli) e até no contexto fúnebre em que Thelma (Adriana Esteves) está inserida. Ótima!

Hebe
Marcelo Faria (Elias) em Bom Sucesso; morto-vivo afeta bom andamento de trama das 19h (Imagem: João Miguel Júnior / Globo)

Desligo

Na trama de Elias (Marcelo Faria) em Bom Sucesso. Os autores Paulo Halm e Rosane Svartman repetem o mesmo – e enfadonho – recurso de Totalmente Demais (2015): o morto-vivo que volta para barbarizar; antes, Sofia (Priscila Steinman). Um ponto fora da curva no vitorioso caminho da melhor novela de 2019. A reta final também promete contornos mais “pesados”, trabalhados no clichê. É esperar para ver se o folhetim vai retomar o curso com êxito.

Hebe
Record erra ao deixar Fabíola Reipert de fora da Retrospectiva dos Famosos (Imagem: Edu Moraes / Record)

Fecha a conta

A TV brasileira anda tão letárgica que o mês de dezembro, famoso por atrações especiais relacionadas a Natal, Ano Novo e férias, nada trouxe de relevante. As emissoras seguem apostando em mais do mesmo. O SBT só sabe que o fim do ano chegou porque as produções entraram em recesso; programas inéditos devem pintar apenas em março. Na última sexta-feira (20), a Globo recorreu ao Roberto Carlos de sempre, só que cantando em “portunhol”. Por lá, até aqui, só Amigos – A História Continua – revival de uma atração dos anos 1990 –, exibido na quarta-feira (18), valeu a pena.

A Record, além do especial sobre “grandes casos” do Cidade Alerta (pasmem!), apostou no enfadonho amigo secreto de seus contratados e vai exibir na próxima quarta (25) a Retrospectiva dos Famosos. Curiosamente apresentada por Marcos Mion e Mariana Weickert. Fabíola Reipert, principal nome da cobertura de celebridades na casa e única líder de audiência na emissora hoje, ficou de fora, sem maiores explicações. Que Papai Noel presenteie Fabíola com prestígio e reconhecimento; ela merece.

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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