Gloria Pires
Lembranças dos pais acompanham Gloria Pires no processo de criação de Lola, sua personagem em “Éramos Seis” (Imagem: Cesar Alves / Globo)

por Simone Magalhães

Gloria Pires, uma menina afinada, que interpretava em casa músicas de Wanderléa e Roberto Carlos, parecia ter o destino traçado: ser cantora. Mas um passeio pelo estúdio da TV Excelsior, em São Paulo, vendo os cenários de “A Muralha”, em 1968, mudou tudo. Quando os mais velhos perguntavam pelo futuro, ela dizia: “Vou ser artista. Sou artista!“. Determinada desde cedo, Gloria, hoje com 56 anos, volta ao passado. Um tempo em que ela nem imaginava que seu pai, o falecido ator Antônio Carlos atuou no primeiro remake de “Éramos Seis”, na mesma Excelsior que maravilhou a filha.

Essa história de coincidência não vale no mundo da TV. Tudo que é bom pode ser visto, revisto várias vezes, com atores e atrizes vivendo outros personagens, principalmente quando a idade vai passando. Como acontece com a protagonista da trama de Maria José Dupré, Dona Lola. Cada uma no seu estilo: Gessy Fonseca, em 1958; Cleyde Yaconis, 1967; Nicette Bruno, 1977; Irene Ravache, 1994; e agora a estrela, que já foi uma das maiores vilãs de novelas sendo transformada em uma senhorinha, com quatro filhos e um marido, Júlio (Antônio Calloni), que não consegue manter as dívidas em dia.

Mas que ninguém pense que os 156 capítulos deste “Éramos Seis”, que estreia no próximo dia 30, às 18h, será aquele chororô-beirando-a-depressão, como foram as versões anteriores. “O livro é bem mais duro do que será a novela. Ninguém ousou mais fazer ‘Éramos Seis’ como está no livro porque é de uma dureza que a gente termina no chão. A ideia é ter esse pano de fundo, essa personagem, essa família, essa casa, mas trazer uma coisa que seja inspiradora, que leve as pessoas a acreditarem nos seus sonhos, nos seus propósitos. E se dedicarem a realizar os desejos. Acho que os sonhos não morrem nunca. Viver sem eles é difícil“, afirma a atriz.

Cheia de sonhos, Lola tece e vende toucas feitas à mão para ajudar a custear despesas: “Ela quer muito manter a casa na Avenida Angélica, que o marido acha grande demais. Lola tem nas toucas um ganha-pão para ajudar a família“. O que fez a atriz se apaixonar, na vida real, pelo tricô e repensar os casamentos no início do século XX.

Todas as mulheres daquela época eram assim. A gente sabe que elas dependiam do marido porque foi só isso que ouvimos. Muitas ajudavam no trabalho que podiam. A grande diferença dessa novela é que ela enaltece o poder que toda mulher já tinha naturalmente, porque são as grandes mantenedoras dos lares, das famílias… Sempre foram!“, observa.

Empolgada com as descobertas da São Paulo dos anos 20, Gloria acrescenta: “A trama fala disso: das dificuldades da época, quer mostrar uma vida dura, de trabalho físico. Tudo era mais complicado, não havia essa tecnologia que existe hoje“.

Glória comenta que se apegou muito às lembranças da mãe, Elza, também já falecida, para compor a personagem. “Minha mãe adorava costurar para a gente (ela e a irmã, Linda). Fazia por gosto, adorava criar coisas novas. Eu estava sempre junto, acompanhando o processo, quando ela cortava os moldes, quando ia comprar tecidos. Nós ajudávamos, dávamos palpites. Conforme íamos crescendo queríamos estar mais na moda (risos). E olha que a máquina dela não tinha motor, era aquela antiga, de pedal. Foi difícil aprender, principalmente a usar um tear para fiar na minissérie ‘O Tempo e o Vento’ (1985). Dificílimo! Era colocar o pé para trás do pedal e dava tudo errado (risos). E eu aprendi tricô, e não tenho tempo para fazer… Mas é maravilhoso ser ator, a gente tem acesso a tantas coisas, aprende tanto…“, relembra.

Esse mergulho no passado “ajudou de todas as maneiras“, segundo ela. Pergunto se sente tudo isso como uma homenagem à sua mãe: “Com certeza! Minha mãe e minha avó paterna, Deolinda. Elas eram muito amigas. Olha aqui! (balança o pulso com uma linda pulseira antiga, toda trabalhada, de ouro, que pertenceu à dona Deolinda). Estou voltando lá atrás. Cada vez que leio uma cena… Alguma coisa me remete ao que minha mãe e avó diziam… Cidade cenográfica para mim é estar junto com meu pai, passeando“.

E você se emociona? “A Lola, coitada, é que mais me faz chorar. Não as cenas, mas todo o ambiente. Você se aproximar dos anos 20 é estar perto de pessoas que tinham uma vida muito dura, mas ainda assim mantinham a esperança. Acho que a arte, a cultura em geral tem a capacidade de fazer a gente pensar primeiro, de instruir, aprendendo com outros hábitos, outras épocas, revendo uma recriação, reconhecendo essa história. E também se emocionando. A pegada da novela vai ser a emoção, o olho no olho, a proximidade“, acredita.

A Lola era aquela mãe que mantinha os filhos sob as asas o tempo todo. Você quer que os seus quatro tenham liberdade, que voem? “Sempre dei força para eles voarem, cada um em busca de sua realização, do seu desejo. Às vezes, penso nesse meu lado materno… “. Você adotaria mais um filho? “Sim. Acho bonito isso“.

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