Os prós e os contras de Silvio de Abreu na Dramaturgia da Globo

Silvio de Abreu
Silvio de Abreu deixa departamento de Dramaturgia da Globo nesta segunda-feira (30); autor valorizou novos talentos, elevou a audiência e colecionou polêmicas (Imagem: João Cotta / Globo)

Silvio de Abreu deixa a direção de Dramaturgia da Globo nesta segunda-feira (30). Até o término de seu contrato com a emissora, em março de 2021, Silvio atuará na passagem de bastão dele para José Luiz Villamarim, escolhido para o setor após a promoção de Ricardo Waddington à direção de Entretenimento. Abreu passou seis anos à frente da área mais rentável, e mais visada, do canal. Neste período, contribuiu para a formação de novos titulares e elevou os índices de audiência de todos os horários. Também colecionou polêmicas e despertou a ira das redes sociais.

O grande legado da gestão Silvio de Abreu é, sem sombra de dúvida, a renovação no quadro de autores. Alessandra Poggi, Alessandro Marson, Ângela Chaves, Cláudia Souto, Maria Helena Nascimento, Paulo Halm, Rosane Svartman e Thereza Falcão estão entre as apostas certeiras do agora quase ex-diretor. Esta era uma preocupação de Silvio há tempos… Em 2004, ele supervisionou Da Cor do Pecado, de João Emanuel Carneiro; repetiu a dose com Andréa Maltarolli, Elizabeth Jhin e Daniel Ortiz.

Se as novelas não descobrirem novos autores, vão acabar como gênero. E esse gênero é o que sustenta a maioria da nossa classe artística. É o entretenimento predileto do brasileiro. Quero que novos autores apareçam porque é deles que virão novas ideias. É por meio dessa oxigenação que o gênero vai continuar“, declarou à repórter Thaís Britto, do jornal O Globo, em fevereiro de 2014, enquanto se preparava para supervisionar Ortiz em Alto Astral (2014).

Abreu também reduziu a duração das novelas, evitando “barrigas” como as que castigavam folhetins com 200 e tantos capítulos. Buscou ainda manter as filas em ordem. Quase sempre se saiu bem-sucedido nesta missão… Dentre as pedras no caminho, o adiamento de Verão 90 (2019), que levou à aprovação, digamos precipitada, de O Tempo Não Para (2018), trama de Mário Teixeira que não tinha história para contar depois do terceiro mês de exibição.

Ou o insucesso de O Sétimo Guardião (2018), que determinou a volta de Walcyr Carrasco, menos de um ano após a conclusão de O Outro Lado do Paraíso (2017), à faixa, antes do lançamento de Amor de Mãe, da estreante Manuela Dias. Walcyr, aliás, foi o autor mais requisitado pelo departamento de Dramaturgia nos últimos seis anos: quatro projetos, de Êta Mundo Bom (2016) até Verdades Secretas 2 para o Globoplay. O apreço tem razão de ser. Walcyr Carrasco dá audiência. O mesmo acontece com Daniel Ortiz.

Em contrapartida, veteranos perderam terreno – também por questões de saúde, é preciso considerar. Walther Negrão não voltou ao ar após os problemas que o afastaram de Sol Nascente (2016). E seus companheiros de jornada, Júlio Fischer e Suzana Pires, não tiveram mais chances como titulares. Benedito Ruy Barbosa, que foi à imprensa dizer que não admitia interferências de Silvio em Velho Chico (2016), deixou a casa recentemente. Tal qual Negrão e Aguinaldo Silva, aplacado pela polêmica e problemática O Sétimo Guardião.

Cancelamentos e intromissões foram constantes nestes seis anos. Silvio de Abreu afastou Márcia Prates de Liberdade, Liberdade (2016), entregando a condução da novela das onze para Mário Teixeira. Mudou o formato de Jogo da Memória, assinada por Lícia Manzo, até cancelar a trama em definitivo. Recusou a sinopse de Duca Rachid e Thelma Guedes, autoras contempladas com o Emmy Internacional, para às 21h. E mandou parar com O Selvagem da Ópera, obra de Maria Adelaide Amaral, em meio à escalação de elenco.

Em todas estas ações, notou-se o medo de errar. “É legal arriscar pra mim, como autor, mas, para a empresa, não. A empresa perde público“, comentou em entrevista a Cristina Padiglione, então em O Estado de São Paulo, de setembro de 2014. O temor certamente se intensificou quando, logo no primeiro ano sob seu comando, a Dramaturgia da Globo enfrentou a tradicionalíssima Os Dez Mandamentos (2015), da Record, numa batalha que só causou prejuízos à moderninha Babilônia.

Títulos como A Dona do Pedaço mandaram a lógica às favas. O resultado de audiência foi tão bom quanto o comercial. Mas quem acreditava numa digital influencer, estrela da novela e dos anúncios, presa a um relacionamento abusivo por conta do namoro com um matador? Personagens inverossímeis e diálogos primários foram aprovados por Silvio, outrora exigente quanto à coerência e à qualidade, como é nítido nos seus muitos trabalhos como autor.

Todos estes episódios tornaram Silvio persona non grata nas redes sociais… A imagem de Abreu ficou associada ao egocentrismo de quem aprovou remakes dos próprios folhetins, ao favoritismo quanto a dois ou três colegas, ao domínio de quem deslocou Gloria Perez das séries para a supervisão de uma obra posteriormente suspensa, ao “sabe tudo” citado na chamada de Belíssima (2005) em Vale a Pena Ver de Novo – mais puxa-saquismo dos responsáveis pelo anúncio do que auto exaltação.

Fato é que Silvio de Abreu deixou sua marca na área que ajudou a consolidar, enquanto novelista, e comandou por seis anos. Ao portal Notícias da TV, ele afirmou que não pretende se aposentar após a saída da Globo. Que bom! Silvio é talentoso. E ainda tem muita história para contar, tal qual Aguinaldo, Benedito, Negrão, Ortiz, Walcyr e outros tantos nomes associados à história dele nestas mais de quatro décadas de trabalho. A coluna deseja sucesso e sorte.

Em tempo

Aproveito para esclarecer um boato maldoso, disseminado em muitos portais – até nos ditos mais sérios –, que atribui desavenças de autores com Silvio de Abreu por este ter “reescrito” capítulos. Esta coluna do RD1 apurou com envolvidos em diversas produções que as intervenções de Silvio não passavam pela feitura de cenas e diálogos. Abreu também não tinha poder de decisão sobre o Vale a Pena Ver de Novo, que compete ao diretor Amauri Soares. Os títulos são selecionados por gerentes de programação, e outros setores podem até oferecer sugestões, mas a palavra final sempre cabe a Amauri.

Globo
José Luiz Villamarim dirige Cauã Reymond (Maurício) em Justiça; currículo do diretor indica bom desempenho à frente da Dramaturgia (Imagem: Estevam Avellar / Globo)

A seguir, cenas do próximo capítulo

A escolha de José Luiz Villamarim gerou memes, e antipatia, sobre a “opção” do diretor por trabalhos, digamos, “conceituais”. Há quem acredite que Villamarim não se afina com novelões apenas por ter conduzido produções como Onde Nascem os Fortes (2018) – que eu, particularmente, acho insossa – e Amor de Mãe, nada mais do que um folhetim clássico bem escrito, dirigido e interpretado. A ficha de Villamarim, no entanto, inclui clássicos como O Rei do Gado (1996), Anjo Mau (1997), Mulheres Apaixonadas (2003), Cabocla (2004), Paraíso Tropical (2007) e Avenida Brasil (2012). Gabarito o Zé Luiz tem. Sorte e sucesso pra ele também.

Duh SeccoDuh Secco
Duh Secco é  "telemaníaco" desde criancinha. Em 2014, criou o blog "Vivo no Viva", repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.
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