Uma negra de joelhos: Há 11 anos, cena de Viver a Vida gerou críticas e debates

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De joelhos, Helena é humilhada e não reage às agressões de Tereza (Imagem: Reprodução / Globo)

Há 11 anos, Taís Araújo fazia história na televisão como a primeira protagonista negra do horário nobre da Globo, no papel de Helena na novela Viver a Vida (2009), de Manoel Carlos. Mas o que poderia ter colocado um ponto final em décadas de representações de estereótipos, estigmatizando atrizes negras como profissionais da cozinha ou da cama, acabou gerando críticas por parte do público e de movimentos sociais.

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Um dos capítulos que gerou discórdia e amplo debate na sociedade foi exibido coincidentemente na semana em que se celebrou o Dia da Consciência Negra, em 16 de novembro de 2009, quando Helena, de joelhos, implora o perdão de Tereza (Lilia Cabral) pelas consequências de um acidente pelo qual não era responsável e acaba humilhada e agredida pela rival sem revidar os ataques.

Para Maria Julia Nogueira, escritora e ativista política, as cenas reforçam a ideia de que a personagem foi colocada em “seu lugar” como forma de “punição” pelos seus atos. “Todo o bem que a personagem de Taís Araújo pode ter feito para a autoestima dos nossos meninos e meninas negros das periferias das grandes cidades deste Brasil afora foi enterrado naquela cena. Mais uma vez a personagem negra sofre humilhação, não reage e aceita a violência, acreditando ser merecedora dela”, escreveu em seu site na época.

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Maria Julia lembrou ainda que o fim dos castigos corporais a negros, resquício de séculos de escravidão, só foi possível graças a uma rebelião de marinheiros em 1910, e que mesmo após 100 anos deste ato, a Globo continuou achando legítimo o espancamento de negros. “Espero que no futuro não tenhamos que nos indignar novamente diante da tela da televisão que apresenta como natural que uma mulher negra seja esbofeteada em horário nobre”, declarou.

A escritora, socióloga e jornalista Angélica Basthi também apontou um equívoco no silêncio de Helena, que diante de um injusto sentimento de culpa pelo acidente que paralisou Luciana (Alinne Moraes), se mostra frágil, humilhada e desemparada até pela própria família, uma construção sem respaldo na realidade. Segundo a escritora, é inimaginável que uma mulher negra que chegou ao topo do sucesso reagisse desta forma, já que normalmente as pessoas nesta situação só cresceram profissionalmente sendo sábias, fortes e tendo o apoio da família.

“Sugiro que o senhor Manoel Carlos e suas colaboradoras saiam do universo do Leblon e venham conhecer um pouco mais o outro lado da história. Aprendam sobre a luta e sobre o protagonismo das mulheres negras, como valorizam suas famílias, como encaram relacionamentos com homens brancos ou negros e, como enfrentam os desafios do dia a dia sejam os de racismo, sejam os de garotinhas mimadas ou de megeras. O primeiro passo é uma boa pesquisa de campo”, opinou Angélica.

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Atitude de Helena não corresponde ao perfil de mulher negra bem sucedida, avalia socióloga (Imagem: Reprodução / Globo)
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A agressão contra Helena também repercutiu entre os famosos, como Preta Gil. “Gente? Lerê Lerê? O que foi isso? Achei que estava assistindo a Escrava Isaura. Reage, Helena, levanta”, escreveu a cantora no Twitter. Já o ator Milton Nascimento não concordou com as acusações de racismo. “Isso é uma novela, é para aguçar os sentimentos. Não foi uma humilhação”, comentou.

A Central Globo de Comunicação se posicionou diante da polêmica trazendo questionamentos. “É estranho que, mesmo na dramaturgia, se julgue a pessoa pela cor de sua pele. Uma personagem negra pode, por exemplo, agredir uma personagem branca. Mas, por ser negra, não pode ser agredida por uma branca? A personagem de Taís Araújo já deu uma bofetada em Luciana, filha de Tereza”, respondeu a emissora.

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Taís Araújo não comentou a polêmica na época, mas há 2 anos revelou no programa Saia Justa (GNT) que não se sentia confortável interpretando uma mocinha que, segundo ela, era dramaturgicamente fraca, sem conflitos e com a vida ganha, e chegou a pensar em desistir da carreira. “Aquele texto não me dizia nada e eu não fazia bem, não tinha como fazer”, lamentou.

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Daniel RibeiroDaniel Ribeiro
Daniel Ribeiro cobre televisão desde 2010. No RD1, ao longo de três passagens, já foi repórter e colunista. Especializado em fotografia, retorna ao site para assinar uma coluna que virou referência enquanto esteve à frente, a Curto-Circuito. Pode ser encontrado no Twitter através do @danielmiede ou no danielribeiro@rd1.com.br.