Amor de Mãe: Fase final afetou, mas não diminuiu excelência da novela

Amor de Mãe
Thiago Martins (Ryan), Jéssica Ellen (Jéssica), Chay Suede (Danilo / Domênico), Regina Casé (Lurdes), Nanda Costa (Érica) e Juliano Cazarré (Magno) em Amor de Mãe (Imagem: João Cotta / Globo)

A pandemia de Covid-19 afetou nossa rotina, nosso humor e nossas novelas. Amor de Mãe, primeira incursão de Manuela Dias como titular do gênero, foi interrompida no momento em que chegava a um ponto crucial da narrativa – e batia sucessivos recordes de audiência. A fase final, condensada em 23 capítulos e gravada nos meses em que o coronavírus parecia recuar, chegou ao fim nesta sexta-feira (9), entregando o que a estreia, no já longínquo novembro de 2019, prometera.

Amor de Mãe contou com três protagonistas: Lurdes (Regina Casé), Thelma (Adriana Esteves) e Vitória (Taís Araújo). Foram as duas primeiras, porém, que conduziram o enredo. Lurdes deixou Malaquitas, Rio Grande do Norte, em busca do filho que o marido Jandir (Daniel Ribeiro) vendera para uma traficante de crianças. Levou consigo a culpa pela morte do esposo, os outros três herdeiros biológicos e uma menina que encontrou no caminho, Camila (Jéssica Ellen).

Anos depois, no Rio de Janeiro, cruzou o caminho de Thelma. A comerciante descobriu, na companhia da nova amiga, que estava com um aneurisma. A doença levou o público a se apiedar da devotada mãe de Danilo (Chay Suede), jovem aplacado pelo domínio da genitora. A relação dos dois, porém, estava além do “amor de mãe”. Thelma comprou o filho que Lurdes perdeu, para substituir o bebê que morreu em um incêndio em sua casa.

Capítulo após capítulo, Manuela Dias e equipe construíram o intricado (e perturbado) perfil de Thelma. Quem estranhou os crimes cometidas por ela, para manter o segredo em torno da origem do filho, certamente chegou à trama nos “45 do segundo tempo”. Por Danilo, ela celebrou a morte do irmão Sinésio (Júlio Andrade), afastou Amanda (Camila Márdila) e aproximou Camila, interferiu nas decisões da nora quanto à gravidez e tornou-se inimiga dela ao ver que perdera a autoridade sobre o rebento.

Thelma também foi capaz de assassinar Rita e Jane (Mariana Nunes e Isabel Teixeira, excelentes) e manter Lurdes em cárcere privado. Tudo em prol do “amor de mãe”. O fim das loucuras e da maldade não poderia ser outro: a perturbada só recobrou a sanidade quando o filho, em entrevista à TV, rompeu em definitivo com ela, pondo fim à ilusão da mãe. Foi quando o aneurisma, enfim, estourou – e o choro de bebê inserido pela sonoplastia só fez ampliar o impacto de tais rupturas.

Uma personagem bem construída abre inúmeras possibilidades. E Manuela Dias explorou tudo o que as figuras de seu folhetim ofereciam. Falhou, no entanto, ao propagar que não iria recorrer aos clichês ou que a vilã de sua trama era a vida. Não há demérito no uso dos artifícios de sempre, especialmente quando se joga bem com eles, caso da autora. Na fase final, a mão pesou com atropelamentos, assassinatos, doenças e sequestros.

É preciso considerar, contudo, que Manuela desenvolveu os últimos 23 capítulos em meio à expectativa de que a pandemia serenasse. A realidade deste março, mês mais letal desde que a Covid-19 virou o tormento nosso de cada dia, deixou a ficção ainda mais cruel. Como toda novela, claro, houve deslizes pertinentes apenas à condução, como o exaustivo troca-troca de casais, os chatíssimos debates sobre a causa ambiental e, nesta segunda temporada, tramas aleatórias que nada agregaram.

A inovação que Manuela Dias anunciava coube à direção de José Luiz Villamarim e equipe, dos planos de câmera ao realismo visto em cenários e figurinos. Cabe ressaltar, evidentemente, o desempenho de todo o elenco. Ninguém destoou. Citações são sempre injustas, mas não podemos deixar de enaltecer Adriana Esteves, Chay Suede, Jéssica Ellen, Clarissa Pinheiro (Penha), Enrique Diaz (Durval), Humberto Carrão (Sandro), Irandhir Santos (Álvaro) e Malu Galli (Lídia).

Adriana, aliás, usou de maneirismos comuns às suas personagens, como os “tremeliques” ou os dentes cerrados. Isso não diminui o trabalho irrepreensível da atriz; trata-se de um traço inerente à atuação, como as repetições desencadeadas por Fernanda Montenegro em seus diálogos ou o “ééé” que Susana Vieira usa para concluir algumas de suas falas.

É de se lamentar que Taís Araújo, por sua vez, tenha perdido o protagonismo por um equívoco de texto na condução de Vitória. A fase final trouxe três conflitos, nenhum desenvolvido a contento: a luta por vítimas de violência doméstica, a difícil relação com a mãe Vera (Eliane Giardini) e o confronto com a genitora do filho adotivo, Tiago (Pedro Guilherme Rodrigues).

A menção honrosa cabe a Regina Casé. Que bom tê-la de volta à dramaturgia. Dona Lurdes foi a mãe do Brasil – as muitas campanhas publicitárias estreladas por ela, que encheram também os cofres da Globo, não nos deixam mentir. Aqui, mais um elogio à construção de personagens; Lurdes tomou atitudes questionáveis, justificadas pelo amor de mãe.

O chão tá liso?

Nas redes sociais, o SBT vem se aproveitado dos “memes” do programa Vem Pra Cá para dar engajamento à atração. Na manhã desta sexta-feira (8), o tombo de Gabriel Cartolano no palco do programa foi repercutido exaustivamente nas redes sociais da emissora.

Curioso é que, na semana passada, Patrícia Abravanel virou notícia pelo mesmo incidente…

A volta do comendador

Enquanto aguarda o retorno de gravações de Nos Tempos do Imperador, Alexandre Nero celebrou a volta da novela Império no horário nobre da Globo. O ator contou que desde o fim da trama, não havia publicado nenhuma foto caracterizado como José Alfredo, mas, mesmo assim, o Comendador vive na imaginação popular.

Depois desse sujeito promover uma reviravolta na minha vida, nunca mais precisei relembra-lo pra ninguém. As pessoas faziam questão de demostrar que não o esqueciam. […] Quando pensei que nunca mais o veria tão vivo novamente, pow. Eis que segunda, dia 12, ele ressuscitará”, escreveu Nero no Instagram.

Além da família real

Depois de uma reportagem do Jornal Hoje de sexta-feira (8) sobre a comoção pela morte do Príncipe Philip no reino unido, Maju Coutinho pediu “pêsames também à família de Ismael Ivo”. Vítima da Covid, o coreógrafo de 66 anos foi o primeiro negro a dirigir o Balé da Cidade de São Paulo e também o primeiro diretor negro e estrangeiro do Teatro Nacional Alemão.

O momento gerou repercussão nas redes sociais. “O jornalista mandando condolências à família real britânica e a Maju lembrou da família de Ismael Ivo. É nós por nós, não tem jeito”, escreveu o ativista e palestrante Samuel Gomes.

Duh Secco e Daniel RibeiroDuh Secco e Daniel Ribeiro
A coluna Curto-Circuito é assinada por Duh Secco e Daniel Ribeiro, editor-assistente e repórter especial do RD1, respectivamente, e reúne, de terça a sábado, logo cedinho, o que é e vai virar notícia nas próximas horas envolvendo os movimentados bastidores da TV.
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