Marocas (Juliana Paiva) diante de Samuca (Nicolas Prattes), no segundo capítulo de “O Tempo Não Para” (Imagem: Divulgação / Globo)

Falar a verdade? Como, se a verdade parece uma mentira?”. O questionamento de Waleska Tibério (Carol Castro), oficial da Marinha, parece definir a proposta de “O Tempo Não Para”, folhetim das 19h que a Globo estreou ontem (31). Centrada numa família do século XIX, que desperta neste 2018 após passar 132 anos aprisionada em um bloco de gelo, a trama de Mário Teixeira não deve ser levada tão a sério. O autor já deixou claro, em diversas ocasiões, que a intenção é debater temas em voga, como o combate ao racismo. É função da novela espelhar a realidade, óbvio. Mas o objetivo principal é entreter. E nisto “O Tempo Não Para”, ao que tudo indica, deve se sair muito bem.

O prólogo, que ocupou quase todo primeiro capítulo, trouxe a peculiar história dos Sabino Machado, o clã do iceberg. O patriarca Dom Sabino (Edson Celulari), figura de muito dinheiro e pouca instrução que almeja irromper as portas da alta sociedade, criou a filha, Marocas (Juliana Paiva), como “homem”. A mocinha, notadamente à frente do seu tempo, se choca ao ver o poeta Bento (Bruno Montaleone) desnudo. Ações do tipo se repetem, fortalecendo o contraponto 1886 x 2018: ao tomar ciência do ocorrido, Sabino deseja “lavar a honra” da filha com sangue, exige a união do casal e, diante da recusa de Marocas em contrair matrimônio, “esconde” não só ela, como os demais membros da família, além dos empregados, em um navio.

Autor e diretor – é Leonardo Nogueira quem está à frente da equipe – optaram pela agilidade. A ação, 132 anos atrás, transcorreu rapidamente. E culminou com o naufrágio da embarcação, em cenas que remeteram ao clássico “Titanic” (1998). Neste início, destaque para a produção (sequências incríveis as do naufrágio!) e para Edson Celulari, em um tipo digno de sua trajetória, como o ator merecia há tempos. Rosi Campos (Agustina, esposa de Dom Sabino) também se saiu bem, embora tenha tido apenas breves incursões na narrativa. E Juliana Paiva – que, timidamente, fez muito pela aclamada “A Força do Querer” (2017) – arrebatou logo de cara com Marocas, de espevitada a romântica; de aventureira a náufraga.

A estreia chegou ao fim com a protagonista nos braços de Samuca (Nicolas Prattes), surfista que a resgatou no litoral de São Paulo, no momento em que o bloco de gelo, “atracou” por ali, “empurrado” pelo aquecimento global. Nicolas e Juliana exalam a tal química, embora o ator ainda se mostre distante do personagem: tipo boa-praça comprometido com a ciumenta Betina (de uma Cleo, “sem” Pires, também insegura). No segundo capítulo, Marocas, submetida à exposição de fatores externos, prejudicial a quem passou tanto tempo congelada, acaba entrando em coma, mesmo com os cuidados de Samuca, Monalisa (Alexandre Richter) e Marino (Marcos Pasquim). Aqui, cabe destacar o bom momento de Felipe Simas, extremamente eficiente em suas cenas como Elmo, na busca pelo amigo desaparecido, Samuca – inclusive com um sotaque paulista que não soou incômodo.

Os demais congelados foram levados para a clínica da Dr. Petra (Eva Wilma), especialista em criogenia; a veterana, por conta do texto didático, não pode ir além do trivial. No caso de “O Tempo Não Para”, o didatismo (em doses homeopáticas) se faz necessário. Afinal, mesmo sendo apenas entretenimento, é preciso um mínimo de alinhamento com a “vida real”. A mesma Waleska, responsável pelo resgate dos náufragos, constatou, diante dos relatos de Petra sobre pessoas submetidas às condições dos Sabino Machado: “Estamos lidando com o impossível”. E o impossível pode ser uma brincadeira bem divertida… Ao que tudo indica, vem aí uma traquinagem imperdível!

Em tempo

Excelente estratégia a de levar o “congelamento” para os comerciais, no primeiro intervalo deste segundo capítulo, com gelo “escoando na tela” no início e no fim de cada anúncio. Sacada de mestre! Brilhante trabalho de cenografia, liderado por Alexis Pabliano, Gilson Santos e Keller Veiga. O colorido – que contrasta com a antecessora “Deus Salve o Rei” – conferiu viço à faixa. O mesmo não se pode dizer da abertura, arremedo de outras criações visuais equivocadas da faixa, como “Haja Coração” (2016). Erraram, inclusive, na opção por uma releitura de Ivete Sangalo para “Eu nasci há dez mil atrás”, incapaz de superar o intérprete original, Raul Seixas.

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Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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