Como era a programação da Globo quando Ayrton Senna foi campeão de Fórmula 1?

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Ayrton Senna no Grande Prêmio do Japão de Fórmula 1; campeonato histórico marcou programação da Globo em 1988 (Imagem: Reprodução / O Globo)

Foi num domingo, 1º de maio de 1994, que Roberto Cabrini declarou durante o mais triste Plantão da Globo: “Morreu Ayrton Senna da Silva… Uma notícia que a gente nunca gostaria de dar”. Numa homenagem ao piloto, a emissora resgata hoje (3) o Grande Prêmio do Japão de 1988, que garantiu a Senna o primeiro título na Fórmula 1. Nesta coluna, relembro a programação do canal nos dias 29 e 30 de outubro – a corrida foi exibida na madrugada de sábado (29) para domingo (30). Época de novelas inesquecíveis e clássicos do entretenimento…

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Xuxa Meneghel à frente da temporada 1988 do Xou da Xuxa (Imagem: Divulgação / Globo)

A manhã de sábado, após o Telecurso 2° Grau (5h50), o Globo Ciência (7h30) e a Propaganda Eleitoral (8h) – destinada às eleições municipais –, contou com o Xou da Xuxa (8h45). Xuxa Meneghel estava no auge! Além do êxito nos cinemas com Super Xuxa Contra o Baixo Astral, a Rainha dos Baixinhos viu o disco Xou da Xuxa 3 tornar-se o mais vendido daquele ano; o repertório, que inclui o hit Ilariê, segue no topo dos mais bem-sucedidos do país (mais de três milhões de cópias). Ainda, uma edição ao vivo em 30 de junho, quando o ‘Xou’ celebrou três anos; linhas telefônicas e ruas no entorno do Teatro Fênix, no Jardim Botânico (RJ), ficaram congestionadas. No final daquele ano, Xuxa e Senna engataram um namoro, marcado pelo distanciamento, devido a agenda apertada de ambos, e a exploração midiática.

Os jornais locais eram apresentados às 12h25 e às 19h45. Fátima Bernardes e William Bonner, antes do casamento, respondiam pelos noticiários no Rio de Janeiro e em São Paulo; Valéria Monteiro e Augusto Xavier dividiam as edições com, respectivamente, Fátima e Bonner. O Globo Esporte (12h40), ora com Fernando Vannucci, ora com Isabella Scalabrini, ora com Léo Batista, certamente repercutiu os preparativos para o GP do Japão naquele 29 de outubro. O Jornal Hoje (13h) de sábado trazia sempre as famosas entrevistas de Leda Nagle – de Fernanda Montenegro ao Trem da Alegria.

Sem o Cassino do Chacrinha, extinto após a morte de Abelardo Barbosa em junho, a Globo escalou séries de sucesso no exterior para as tardes de sábado: A Gata e o Rato (1985), com Bruce Willis e Cybill Shepherd, às 13h25; Magnum (1980), com Tom Selleck, às 14h20; e Três é Demais (1987) às 15h20. Logo depois, Atlético e Santos na Copa União (16h) – equivalente ao Campeonato Brasileiro.

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Yara Amaral (Joana) e Malu Mader (Cláudia) em Fera Radical (Imagem: Divulgação / Globo)

Em Fera Radical (17h50), Cláudia (Malu Mader) fugia da polícia após concluir sua vingança, executando Joana Flores (Yara Amaral). O disparo que vitimou a vilã, no entanto, se deu de forma acidental, quando a “mocinha dos computadores” já tinha se dado por satisfeita ao ver a responsável pela chacina de seus pais e irmãos renegada pela família. Decidida a impedir a união de Cláudia e de Fernando (José Mayer), seu filho, Joana procurou a futura nora. Acabou desarmada e, na luta para recuperar o revólver, terminou alvejada. Fera Radical foi o último trabalho de Yara Amaral, falecida pouco mais de dois meses depois concluir as gravações, no naufrágio do Bateau Mouche. A tragédia na Baía de Guanabara, que resultou em 55 mortos, marcou a virada de 1988 para 1989…

Logo após a novela de Walther Negrão, o boletim Sinal Verde (18h35), voltado para Fórmula 1 e, naquela ocasião, dedicado claro à corrida no autódromo de Suzuka. O comentarista Reginaldo Leme, comumente, respondia pelas reportagens do programete.

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Dina Sfat (Laura) em Bebê a Bordo (Imagem: Divulgação / Globo)

Já em Bebê a Bordo (1988), a desajustada Laura (Dina Sfat) buscava tirar o pé do atoleiro unindo-se a Dinho (Paulo Figueiredo). Mas qual não foi sua surpresa quando o primeiro marido, Liminha (Armando Bógus), apareceu na cerimônia? Laura deflagrou a trama de Carlos Lombardi ao acolher a bebê Heleninha (Beatriz Bertu) para reparar um erro do passado: ela havia abandonado sua filha, Ana (Isabela Garcia), após o nascimento. Destino ou coincidência à parte, Ana vinha a ser mãe de Heleninha, também impossibilitada de criar a pequena. Aqui, outra despedida: Dina Sfat nos deixou em março de 1989, após anos de luta contra o câncer de mama.

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Cid Moreira na bancada do Jornal Nacional (Imagem: Divulgação / Globo)

Celso Freitas e Cid Moreira conduziam o Jornal Nacional (20h). O foco estava na inflação recorde de 27,25%, responsável pelo índice máximo de correção da caderneta de poupança até aquele momento: 27,88%. Salários e alugueis também eram ajustados de acordo com a inflação, controlada apenas na década seguinte. Cabe lembrar que, no rodízio de sábado, o JN contava com Eliakim Araújo (do Jornal da Globo), Fernando Vannucci, Léo Batista e Marcos Hummel (Jornal Hoje) – informação do leitor Celso Luiz Martinelli.

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Gloria Pires (Maria de Fátima) em Vale Tudo (Imagem: Divulgação / Globo)

Vale Tudo (21h15, após a Propaganda Eleitoral) destacava o começo do fim de Maria de Fátima (Gloria Pires). A alpinista social reagiu assustada ao descobrir a marca do cigarro preferido do pai do filho de Solange (Lídia Brondi), Blue, a mesma de seu marido Afonso (Cássio Gabus Mendes). Certa de que a editora de moda da revista Tomorrow esperava um herdeiro do empresário – e que isso poderia reaproximar o casal que ela separou –, Fátima deu a fita para a sogra Odete Roitman (Beatriz Segall). Vale Tudo foi o grande sucesso da TV brasileira naquele ano! O folhetim de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères colocou as mazelas do país nas entrelinhas das ações e dos diálogos, convertendo-se um fenômeno temporal, ainda pertinente no Brasil de hoje.

Dois filmes antecederam o Grande Prêmio do Japão de Fórmula 1: Um Casal Perfeito (1979) em Supercine (22h15) e O Navio Assassino (1980) na Sessão de Gala (0h15). Depois da vitória de Senna, O Beijo da Despedida (1957) e Duelo Sangrento (1950) em Corujão (3h50), além do Festival de Desenhos (6h55).

O GP do Japão, no ar às 2h, ficou marcado pela histórica ultrapassagem de Ayrton Senna sobre o companheiro de equipe, Alain Prost. Os dois, que corriam pela McLaren, chegaram à Suzuka com sete vitórias cada. Um “apagão” no carro de Senna, logo após a largada, parecia indicar a vitória de Prost. Mas o brasileiro correu e muito até alcançar o companheiro / adversário, na 20ª volta; na 28ª, Ayrton assumiu a liderança, arrebatando o título daquele ano. Galvão Bueno narrou, Reginaldo Leme respondeu pelos comentários e Marcos Uchoa, de acordo com o site Memória Globo, assinou as reportagens.

No domingo, a Globo reapresentou a conquista de Senna num compacto de 25 minutos, às 12h05. Antes, a emissora exibiu Santa Missa em Seu Lar (7h10), a Propaganda Eleitoral (8h), Globo Rural (8h50), Som Brasil (9h50) e A Palavra é Sua (10h55). O ‘Som’, capitaneado por Lima Duarte, divulgava a música brasileira de inspiração regional; as canções, do sertanejo ao baião, dividiam espaço com causos e recitais a cargo de Lima. Já ‘Palavra’, sob comando de Alexandre Garcia, trazia a disputa pelas prefeituras e as propostas de pretensos vereadores por todo o país.

A Globo já havia contratado Fausto Silva, mas a estreia do apresentador e de seu ‘Domingão’ só aconteceria no ano seguinte. Sendo assim, o domingo – assim como os sábados pós-Chacrinha – era tomado por desenhos e séries: Disneylândia (12h30), Bravestarr (13h), Transformers (13h30), Alf – O E.Teimoso (14h), Na Mira do Tira (14h30) e Profissão: Perigo (15h).

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Miguel Falabella no comando do Vídeo Show (Imagem: Divulgação / Globo)

O Vídeo Show (15h50), já na fase Miguel Falabella, trouxe inéditos números de circo protagonizados por atores da emissora para a edição 1988 do Criança Esperança; o conteúdo, porém, não foi veiculado durante a campanha por “falta de tempo”. Também um retrospecto da minissérie Avenida Paulista (1982) e da novela Pecado Capital (1975) – com direito ao quiz Telemania, com perguntas para o público a respeito dos filhos de Salviano Lisboa (Lima Duarte). Ainda, o “Micro Especial Musical”, espécie de retrospectiva, de Chico Buarque. Às 17h, Copa União e o confronto Coritiba x Fluminense.

Depois do jogo, Cláudia Abreu e César Filho trouxeram a Grande Parada do mês no Globo de Ouro (18h50). Dois hits de Bebê a Bordo marcaram presença: Mordida de Amor, do Yahoo, e Amor Bandido, com Joanna. Também Biafra (Bye, bye), Fábio Jr (Felicidade), Fafá de Belém (Meu Disfarce), Peninha (Seu Jeito de Amar) e Titãs (Go Back). O horário nobre de domingo compreendia também Os Trapalhões (19h40), ainda com o inesquecível quarteto Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. E mais uma rodada da Propaganda Eleitoral (20h30)…

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Valéria Monteiro, Sérgio Chapelin e William Bonner no Fantástico (Imagem: Divulgação / Globo)

As pautas do Fantástico (21h15), apresentado por Sérgio Chapelin, Valéria Monteiro e William Bonner, iam da situação dos aposentados diante da então nova Constituição ao clipe de Blues da Piedade, de Cazuza e Sandra de Sá, gravado para o especial de fim de ano do cantor na Globo. Também a busca por amuletos, objetos de proteção e talismãs, com direito a “estudiosos do assunto” comentando tais crenças. E o lançamento do LP Sedução, de Simone – que incluía uma versão de O Tempo Não Para, clássico de Cazuza.

O Esporte Espetacular (23h25), com Fernando Vannucci, Léo Batista e Sérgio Ewerton, foi todo dedicado, claro, ao primeiro título de Ayrton Senna na Fórmula 1. Por fim, a série Tiro Certo (0h10) e o Domingo Maior (1h) com Tubarão 2 (1978).

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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