Daniella Perez protagonista e acerto com Silvio Santos: os bastidores de Hilda Furacão

Hilda Furacão
Ana Paula Arósio no papel-título de Hilda Furacão; atriz foi liberada por Silvio Santos para minissérie da Globo (Imagem: Arley Alves / Globo)

A minissérie Hilda Furacão chega ao Globoplay nesta segunda-feira (19). A trama estrelada por Ana Paula Arósio, em seu primeiro trabalho na Globo, narra a trajetória de Hilda, moça de boa família que abdica do casamento, rompe com as convenções da alta sociedade mineira, cria fama como prostituta na zona boêmia de Belo Horizonte e, por fim, vive um romance proibido com Frei Malthus (Rodrigo Santoro). Todos estes acontecimentos são narrados por Roberto Drummond (Danton Mello), autor e também personagem do romance que inspirou Gloria Perez. A coluna de hoje relembra os bastidores deste sucesso.

– Lançado em 1991, o romance Hilda Furacão, do jornalista e escritor mineiro Roberto Drummond, foi adquirido pela Globo no ano seguinte. Em entrevista ao jornal O Globo de 19 de outubro de 1997, Drummond revelou que a adaptação foi entregue a Walter George Durst. A emissora não aprovou a sinopse, remetendo o projeto para Luiz Carlos Maciel e Tiago Santiago. Por fim, Gloria Perez se encarregou do texto.

– Na mesma entrevista, o autor do livro falou sobre a possibilidade de Daniella Perez estrelar a minissérie. Daniella, filha de Gloria, foi brutalmente assassinada por Paula Thomaz e Guilherme de Pádua, seu colega de elenco em De Corpo e Alma, em dezembro de 1992.

– Via Facebook, Gloria Perez refutou tal informação. “Saí da sala do Mário Lúcio [Vaz, então diretor da Central Globo de Produção] com o livro, para uma reunião com o Geraldinho Carneiro, encarregado de organizar o ‘Você Decide’. No meio da reunião fui chamada de volta à sala do Mário Lúcio e ele me disse que eu faria ‘Barriga de Aluguel’ [1990], sinopse engavetada há anos. Aí o projeto foi para o Durst, sei q passou também pelo [Walther] Negrão e outros, até voltar pra mim. A verdade é que só li o livro quando ele me foi devolvido, em 97. O diretor seria o Jorge Fernando. Chegamos a ter uma única reunião, eu ele e Drummond, ali na Fiorentina. Mário fez a troca pelo Wolf [Maya]”.

– Hilda Furacão voltou à pauta em maio de 1997. A previsão era de que a produção fosse lançada no segundo semestre.

Letícia Spiller e Marcello Novaes, então casados e dirigidos por Jorge Fernando em Zazá, foram cogitados para os protagonistas Hilda Furacão e Frei Malthus. Já Marcos Winter responderia por Roberto Drummond, o autor, e também narrador, inserido pelo próprio junto a outras figuras reais mencionadas no livro. Ainda, Cláudia Jimenez como Maria Tomba-Homem (defendida por Rosi Campos) e Diogo Vilela na pele de Cintura Fina (a cargo de Matheus Nachtergaele).

– Em setembro de 1997, já sob o comando de Wolf Maya, Hilda Furacão sofreu alterações. Cláudia Abreu assumiu a protagonista. Também foram cogitados, nesta época, Vera Holtz, Selton Mello, Marieta Severo, Juca de Oliveira e Floriano Peixoto (como Orlando Bonfim, entregue a Chico Diaz). Vale considerar que, lá em 1992, Drummond chegou a sugerir Letícia Sabatella e Lúcia Veríssimo para o principal papel, bem como José Mayer para Malthus.

Hilda Furacão
Carolina Kasting (Bela B.) em Hilda Furacão; atriz foi cogitada para protagonista da minissérie (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

– Em outubro, vieram as primeiras informações acerca do interesse da Globo em Ana Paula Arósio, recém-saída de Os Ossos do Barão, do SBT. As negociações entre os canais não foram fáceis. O contrato de Ana Paula como a emissora de Silvio Santos se estendia até maio de 1998. O empresário se negou a rescindi-lo, emprestando sua estrela para a casa dos Marinho, mediante a volta à TV que a revelou para participações em quatro episódios do Teleteatro (1998), adaptação de textos mexicanos de Marisa Garrido, de qualidade bastante duvidosa.

– Dias após o acerto, o SBT surgiu com outra exigência: a de que Ana Paula Arósio renovasse seu contrato por dois anos após a passagem pela Globo. O canal já previa o intento da emissora-líder de ter a atriz em definitivo no casting. Carolina Kasting, já escalada para Bela B., surgiu como possibilidade para Hilda Furacão, diante das negociações então emperradas com Ana Paula. O mesmo se deu com Luana Piovani que, em 1993, assumiu a personagem oferecida a Arósio em Sex Appeal. Na época, Ana não quis deixar a consolidada carreira de modelo em São Paulo para se aventurar na televisão, no Rio de Janeiro; em 1994, ela ingressou no núcleo paulistano de teledramaturgia do SBT, atendendo ao chamado de Nilton Travesso para Éramos Seis.

– Ventilou-se ainda a possibilidade de Tarcísio Filho, então namorado de Ana Paula Arósio, também integrar o “empréstimo”. O ator, contudo, permaneceu no SBT. Tarcisinho voltou à Globo em janeiro de 1999, com Suave Veneno.

– A protagonista chegou ao set de gravação, em Tiradentes, Minas Gerais, em 7 de novembro. A primeira cena de Ana Paula como Hilda foi a da prostituta sobrevoando a cidade; na segunda-feira (10), ela se despiu em um cruzeiro, na sequência em que seduzia Malthus. O contrato de cavalheiros entre Globo e SBT expirava em 31 de janeiro de 1998, o que obrigou Arósio a trabalhar cerca de 14 horas por dia.

– Conforme combinado, Ana Paula Arósio se apresentou à estação de Silvio Santos em 2 de fevereiro, para as tomadas de ‘A Estrangeira’, episódio do Teleteatro no qual dividiu a cena com Delano Avelar, Marcelo Picchi e Tônia Carrero. Foi seu último trabalho na casa. Em junho, a atriz já gravava um programa da série Mulher, escrito por Gloria Perez especialmente para ela. A autora também pretendia contar com Ana Paula no remake de Pecado Capital, lançado em outubro. Já Miguel Falabella a convidou para Escândalo, texto para a faixa das 19h que acabou engavetado. A primeira novela de Arósio na Globo foi Terra Nostra (1999).

– Também do SBT veio Danton Mello que, após o protagonista Héricles, de Malhação (1995), atendeu ao chamado da concorrente e da produtora JPO para Dona Anja (1996). Para viver Roberto Drummond, Danton se encontrou com o autor. Gestos dele, como a constante mão no queixo, foram reproduzidos pelo ator. Mello também voltou a fumar, após dois anos longe do cigarro.

Hilda Furacão
Rodrigo Santoro (Frei Malthus) em Hilda Furacão; personagem consagrou trajetória do ator na TV (Imagem: Jorge Baumann / Globo)

– Já a preparação de Rodrigo Santoro para Malthus incluiu a observação da postura de párocos durante batizados e casamentos, filmes religiosos, a leitura dos salmos da Bíblia e conversas com padres de diversas ordens, especialmente a Dominicana, seguida pelo frei. Malthus representou a consagração de Santoro, que, no ano anterior, havia sido contemplado com o protagonista de O Amor Está no Ar, resultado de sua excelente participação em Explode Coração (1995).

– Hilda Furacão impulsionou as carreiras de Thiago Lacerda (Aramel), Daniel Boaventura (Zico), Serjão Loroza (M.C.) e Matheus Nachtergaele – destaque em filmes como O Que é Isso, Companheiro? (1997) e Central do Brasil (1998). De todos, apenas Boaventura e Loroza eram, realmente, estreantes: Matheus esteve em dois episódios de A Comédia da Vida Privada (1997) e Thiago marcou presença em Malhação (1997).

– A produção reproduziu a zona boêmia de Belo Horizonte na cidade cenográfica. Já para Santana dos Ferros, foi escolhida a histórica Tiradentes, no interior de Minas Gerais. Comerciantes e moradores se incomodaram com o vai-e-vem de caminhões, ruas fechadas e interdições em pontos turísticos. Toda a investida da Globo, contudo, contou com o aval de órgãos competentes.

– Por conta da Copa do Mundo na França, a estreia foi adiantada de 2 de junho para 27 de maio, com o intuito de conceder um tempo maior para o público se habituar com trama e personagens, não desistindo da produção mediante alterações de grade. O lançamento se deu numa quarta-feira, logo após a série Mulher, por conta da transmissão da Copa do Brasil, na terça-feira, 26.

– Fato é que Hilda Furacão foi um grande sucesso desde o início. A minissérie acabou com o martírio da Globo pós-novela das 20h, causado pelo Ratinho Livre, atração da Record. Nem mesmo estratégias de guerra – como a presença de Gugu Liberato, então contratado do SBT, no palco de Carlos Massa – foram capazes de frear ‘Hilda’.

– A minissérie incitou a curiosidade do telespectador a respeito do paradeiro de Hilda e de outros “personagens reais”. Surgiram inúmeras correntes: a de que a prostituta casou-se com o jogador de futebol Paulo Valentim, seguiu para o Rio de Janeiro e, posteriormente, viveu na Argentina e no México, foi a que ganhou mais força. A tal Hilda Furacão, então Hilda Maria Valentim, morreu em 29 de dezembro de 2014, na véspera de seu 84º aniversário, em um asilo em Buenos Aires. Outros boatos ligavam a história de Hilda à trajetória da atriz Lady Francisco, também eleita “garota do maiô dourado” – e que também desfez um casamento quase no altar. Burburinho também acerca do destino de Cintura Fina: alguns alegaram que a travesti morreu na prisão, após ferir policiais com sua navalha; outros, de que ela falecera vítima do vírus HIV.

– A autora da minissérie esclareceu, no livro Autores, Histórias da Teledramaturgia, do Projeto Memória Globo, que Hilda Furacão nunca existiu: “Ela era uma síntese das mulheres que ele [Roberto Drummond] havia conhecido e desejado quando jovem, mulheres que haviam feito a fama da zona boêmia de sua juventude. Dei uma ideia que ele comprou na hora: vamos dizer que ela era real e desapareceu. O que apareceu de Hilda, ninguém pode imaginar! Até pessoas conhecidas declararam ser a Hilda, e diziam que podiam provar. Um famoso diretor declarou que a Hilda foi a primeira mulher de sua vida e, cheio de orgulho, contava detalhes de sua iniciação com ela. Nós nos divertimos muito”.

– O Partido Social Democrático (PSD) tentou suspender a exibição de Hilda Furacão. O PSD, coligado ao PSDB do então presidente Fernando Henrique Cardoso, alegava que as citações ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – apoiador de Lula (PT) – feria a legislação eleitoral.

– A atriz Priscila Luz (Lurdinha) foi atacada pelo leopardo que dividia a cena com Stenio Garcia (Tonico Mendes). O animal, suspostamente, ficou enciumado ao ver o ator em cenas de intimidade com Priscila numa cama. A atriz foi ferida na nuca, tendo de ser submetida a tratamento medicamentoso e ao uso de colar ortopédico. A Globo custeou todas as despesas médicas.

– A emissora cogitou uma reprise da minissérie em 2006, por conta do horário eleitoral. Hilda Furacão acabou preterida por A Casa das Sete Mulheres (2003). Os planos de lançar uma edição em VHS também foram abortados. ‘Hilda’ chegou às lojas em julho de 2002, em DVD. Foi reapresentada no Canal Viva em duas ocasiões (2010 e 2013). E no quadro ‘Novelão’, do Vídeo Show, em 2015 (em cinco capítulos).

– O livro de Roberto Drummond se encerra com o desencontro de Hilda e Malthus em 1º de abril de 1964, quando os dois combinam de fugir juntos – e acabam impedidos pelo golpe militar que encerrou o governo de João Goulart. Gloria Perez inseriu uma cena no qual o casal protagonista se reencontrava, durante um protesto contra a ditadura.

– Também no último capítulo, Aramel realiza o sonho de atuar em Hollywood. Imagens de Thiago Lacerda foram inseridas em cenas do filme El Cid (1961), com Charlton Heston e Sophia Loren. Antes da opção por este clássico, a Globo tentou a liberação de longas-metragens com Marylin Monroe e de Cleópatra (1963), estrelado por Elizabeth Taylor.

– Após Hilda Furacão, Gloria Perez apresentou à Globo uma adaptação de Os Maias, de Eça de Queiroz. O projeto, contudo, só saiu do papel em 2001, então desenvolvido por Maria Adelaide Amaral.

Duh Secco
Duh Secco é  "telemaníaco" desde criancinha. Em 2014, criou o blog Vivo no Viva, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.
Veja mais ›