Os bastidores e as curiosidades de Era Uma Vez…; novela estreia no Globoplay

Era Uma Vez...
Alessandra Aguiar (Marizé), Luiza Curvo (Glorinha), Elias Gleizer (Vô Pepe), Alexandre Lemos (Zé Maria) e Pedro Agum (Fafá) em Era Uma Vez…; novela estreia no Globoplay (Imagem: Arley Alves / Globo)

O Globoplay disponibiliza para assinantes, nesta segunda-feira (16), a novela Era Uma Vez…. Exibida pela Globo às 18h, em 1998, a trama somou várias curiosidades, resgatadas por esta coluna. Bastidores da criação, das gravações e até da programação da emissora na época estão no especial que você confere abaixo.

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Era Uma Vez… não foi obra do acaso. Em fevereiro de 1996, Walther Negrão assinou contrato com o SBT. Silvio Santos, em meio à expectativa para a estreia simultânea de três novelas – Antônio Alves Taxista, Colégio Brasil e Dona Anja –, decidiu investir fortemente no gênero. O “homem do Baú” também firmou compromissos com Benedito Ruy Barbosa e Gloria Perez. Os três, porém, deveriam cumprir seus acordos com a Globo antes da transferência. Acontece que os envolvidos se arrependeram… O distrato virou caso de Justiça.

Aproveitando de uma cláusula do acerto com o SBT, na qual Silvio se comprometia a esperar pelos novos funcionários caso eles estivessem no ar no momento da mudança, a Globo escalou Negrão para às 18h.

Aceitei a proposta do SBT porque, na época, havia a possibilidade de Boni sair da Globo. […] Acreditava que a saída dele pudesse causar uma mexida grande no mercado da TV”, revelou ao ator ao jornal O Estado de São Paulo (21/12/1997). “Depois de anos contratado de um mesmo patrão, fica-se acomodado”, completou. O processo só chegou ao fim em 2007, quando Walther Negrão depositou, na conta do SBT, quase R$ 18 milhões. O autor, hoje com 80 anos, deixou a Globo em 2019.

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Cláudio Heinrich (Filé) em Era Uma Vez…; campeão de cartaz da Globo serviu de chamariz para a audiência (Imagem: Arley Alves / Globo)

Diante da incumbência, Walther Negrão pediu pesquisas à Globo sobre o perfil do telespectador das 18h. Autor e emissora constataram que, após Malhação, o público infanto-juvenil mudava de canal ou abandonava a TV. A ideia, no momento em que o SBT se destacava com o infantil Disney Cruj e a novela Chiquititas (1997), era contar também com esta fatia da audiência. Negrão já havia adotado esse expediente anteriormente. “Já tive uma experiência na década de 1970 quando escrevi ‘O Primeiro Amor’ para substituir ‘Minha Doce Namorada’. Fiz tudo baseado em pesquisas. E consegui não só manter como aumentar o ibope no horário das 19h”, relembrou em entrevista ao jornal O Globo (22/03/1998), complementando:

Primeiro eu analiso muito bem o que há na novela anterior. A história tem que ter mistério, romance, jovens. Não só para manter o público, mas também para fazer a ligação com a atração que vem antes. ‘Anjo Mau’ perdeu um pouco o público jovem que vinha de ‘Malhação’ porque é uma história que atrai mais o telespectador adulto. Analisei este aspecto para tentar conquistar as crianças e os adolescentes”.

Neste cenário, a escalação de Cláudio Heinrich também foi estratégica. O ator, então campeão de cartas da Globo, foi o grande destaque das três primeiras temporadas de Malhação (1995-1997). Nívea Stelmann, recém-saída de A Indomada (1997), também liderava o ranking de correspondências da casa, um dos parâmetros de popularidade daquele tempo – equivalente, hoje em dia, ao número de seguidores nas redes sociais. O desfecho de Filé e Babi, personagens de Cláudio e Nívea, também foi definido após a análise dos grupos de discussão. Os dois eram considerados “harmônicos”, visualmente falando, mas Emília (Deborah Secco), mais adulta que a rival, era vista como peça fundamental para um relacionamento duradouro.

Coincidência ou não, Nívea Stelmann confessou ao jornal O Globo (14/09/1998) ter ignorado o tom pedido pelo autor para uma determinada cena, seguindo orientações de sua professora de interpretação. O diálogo era fundamental para a virada de Babi, até então dominada pela mãe, Laura (Cinira Camargo), e obcecada por Filé. O autor, diante do resultado da sequência no vídeo, julgou a transformação inviável. O grito de independência da personagem só veio no último capítulo…

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Nair Bello (Dona Santa) e Elias Gleizer em Era Uma Vez….; personagem da atriz foi inspirada em amiga do autor Walther Negrão (Imagem: Arley Alves / Globo)

Diretor de núcleo de Era Uma Vez…, Jorge Fernando chegou a comparar o folhetim às produções dos estúdios Walt Disney, pelo caráter lúdico. A Noviça Rebelde, O Mágico de Oz e 101 Dálmatas, entre outros clássicos da literatura, dos filmes e dos musicais, serviram de referências para Walther Negrão. Frei Chicão (Diogo Vilela) foi inspirado em Frei Tuck, de Robin Hood, herói consagrado nas ilustrações de Howard Pyle. A dupla Madalena (Drica Moraes) e Maneco Dionísio (Antonio Calloni) remetia a Dom Quixote e Sancho Pança, do livro do espanhol Miguel de Cervantes – e também Shazan (Paulo José) e Xerife (Flávio Migliaccio), destaques de O Primeiro Amor.

No primeiro capítulo, Madalena e Maneco atuaram como estátuas vivas, personificando Quixote e o fiel escudeiro, nas ruas de Barcelona.

Negrão também baseou-se nas próprias vivências. As brincadeiras dos seis netos, na época entre 2 e 12 anos, foram convertidas em travessuras de Glorinha (Luiza Curvo), Zé Maria (Alexandre Lemos), Marizé (Alessandra Aguiar) e Fafá (Pedro Agum), filhos de Álvaro (Herson Capri), sempre aos cuidados do Vô Pepe (Elias Gleizer) e de Madalena, babá contratada pelo avô materno Xistus (Cláudio Marzo). Já Dona Santa (Nair Bello) era uma homenagem para uma amiga italiana do Brás, já reverenciada pelo novelista em Nino, O Italianinho (1969), clássico da Tupi. Na ocasião, Myrian Muniz respondeu pela figura.

Xuxa Park
Xuxa Meneghel à frente do Xuxa Park; apresentadora dominou TV em 1998 com gravidez (Imagem: Arley Alves / Globo)

Era Uma Vez… foi lançada em 30 de março, junto da nova programação da Globo – a do slogan “um caso de amor com você” – e em meio à tristeza diante da partida repentina de Paulo Ubiratan, supervisor artístico de todas as novelas da casa. Cardiopata como o amigo, Walther Negrão foi parar na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, dois dias após a estreia da produção. O estresse gerado pela implantação da trama e a morte de Ubiratan causaram o infarto do novelista. “Éramos muito amigos. Eu me senti mal e fui dirigindo até o hospital, onde fiquei internado”, detalhou Negrão ao jornal O Globo (26/04/1998).

Elizabeth Jhin e Márcia Prates auxiliaram o autor na confecção de seis capítulos semanais, assim como Júlio Fischer, em seu primeiro trabalho como colaborador após a participação na Oficina de Roteiristas da Globo. Ainda, a consultoria do paisagista Hugo Arruda para as cenas de Catulo (Emiliano Queiróz), jardineiro de Xistus, que divagava sobre o cultivo de primaveras e samambaias.

Quanto à grade da Globo, cabe destacar que a estreia, de fato, se deu no dia anterior (29), com o Fantástico de Gloria Maria e Zeca Camargo – o titular Pedro Bial estava de licença-paternidade –, a terceira fase do Sai de Baixo e uma edição especial do Vídeo Show com as novidades ao ano. O humorístico contou, pela primeira vez, com uma apresentação ao vivo, para uma plateia de famosos como Rita Lee, Clodovil e Ana Maria Braga, então contratada da Record. O episódio Toma Que o Filme é Teu reverenciava o exitoso Titanic (1997), laureado com o Oscar no domingo anterior (22), e a retomada do cinema nacional, com O Que é Isso, Companheiro? (1997) indicado ao prêmio na categoria Melhor Filme Estrangeiro.

Na segunda, o Angel Mix de Angélica, também do núcleo de Jorge Fernando, mudava de cenário e de tom: no ambiente que reproduzia uma praia, a apresentadora comandava brincadeiras para os públicos infantil (nos primeiros blocos) e adolescente (nos últimos), privilegiando o caráter educativo. Quadros voltados para a História do Brasil, às vésperas dos 500 anos, também dominaram a atração.

O Vale a Pena Ver de Novo, com Felicidade (1991), passou a entrar após o Jornal Hoje, de âncora nova: Sandra Annenberg. O Vídeo Show foi encaixado às 17h, após a Sessão da Tarde, em semana de blockbusters: Ninguém Segura Este Bebê (1994), Free Willy (1993), Tudo Por Amor (1991), Olha Quem Está Falando Também (1990) e Corra Que A Polícia Vem Aí 2 e ½ (1991). Malhação abdicou de Dado (Cláudio Heinrich) e da academia para emular os seriados americanos com as aventuras da repórter Alice (Cássia Linhares) e do piloto de corrida Bruno (Rodrigo Faro, alçado ao posto de galã após o sucesso de A Indomada).

Ainda, a versão semanal do Casseta & Planeta, Urgente!, com a presença de Fernanda Montenegro no primeiro programa e quadro fixo para Maçaranduba (Cláudio Manoel) e Montanha (Bussunda); as apostas na série Mulher e na minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos; os casos verídicos, como o de Bill Clinton e Monica Lewinsky, adaptados para o Você Decide, com Celso Freitas na condução.

A estrela daquele ano, porém, foi Xuxa Meneghel. O Planeta Xuxa migrou para os domingos, enquanto o Xuxa Park, nas manhãs de sábado, reverenciou sucessos do programa “adulto” – os quadros Intimidade e Transformação – e passou a contar com entrevistas de médicos e outros profissionais ligados à maternidade. O nascimento de Sasha rendeu matéria no Jornal Nacional, no primeiro ano de Fátima Bernardes, mãe recente de trigêmeos, na bancada com o então marido William Bonner. Lilian Witte Fibe voltou ao Jornal da Globo. Já Márcio Canuto foi integrado à equipe de reportagem do SPTV, que buscava um tom mais popular – no auge do sucesso de Ratinho na Record e no SBT.

Por Amor
Cecília Dassi (Sandrinha) em Por Amor; atriz assumiu a vaga de Alessandra Aguiar, destaque de Era Uma Vez… (Imagem: Divulgação / Globo)

Enquanto Era Uma Vez… esteve no ar, de março a outubro de 1998, a Globo reapresentou, além de Felicidade, O Salvador da Pátria (1989) e Quatro Por Quatro (1994) no Vale a Pena Ver de Novo. ‘Era’ e ‘Salvador’ se reencontraram na grade do Canal Viva, este ano. Às 19h, Corpo Dourado e Meu Bem Querer, respectivamente, de Antonio Calmon e Ricardo Linhares, este também premiado com o êxito de A Indomada. Às 20h, Por Amor e Torre de Babel, dos mestres Manoel Carlos e Silvio de Abreu.

A pequena Alessandra Aguiar, cabe lembrar, deixou Por Amor, onde vivia Cecília, para integrar o time de Era Uma Vez…. O pedido de liberação partiu de Jorge Fernando. Uma curiosidade: Alessandra chegou a ser convidada para interpretar Sandrinha, filha do alcoólatra Orestes (Paulo José), na trama das 20h. Por estar comprometida com as gravações do filme O Noviço Rebelde (1997), a atriz mirim declinou do convite. A figurinha toda meiga de Por Amor caiu nas mãos de Cecília Dassi, que, de tão famosa, foi a escolhida para o lançamento do Intimirim, do Xuxa Park, citado acima.

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Myrian Rios (Isaura) em Era Uma Vez…; trama paralela ganhou força com mudanças em nome da audiência (Imagem: Arley Alves / Globo)

Entre junho e julho, a Globo voltou suas atenções para a Copa do Mundo da França, aquela do fatídico incidente que tirou Ronaldo Fenômeno da final e rendeu a taça, com vitória sobre a Seleção Brasileira, para a dona da casa. Os jogos, transmitidos quase sempre à tarde, embalaram a audiência de Era Uma Vez…. Em 16 de junho, quando o Brasil derrotou o Marrocos por 3 x 0, a novela picou 44 pontos, acima dos 43 anotados, na mesma noite, por Corpo Dourado e Torre de Babel. Antes disso, porém, a produção patinou nos números.

As primeiras pesquisas apontaram para o cumprimento do objetivo inicial, a adesão do público infanto-juvenil de Malhação à novela das 18h. Já os adultos, órfãos de Anjo Mau, fugiram. A emissora agiu, alterando os rumos da soap opera, que também patinava nos índices, e traçando uma estratégia de anúncios para mostrar ao público que Era Uma Vez… não era feita apenas para crianças. “As situações que acontecem na casa da Santa são mostradas nas chamadas exibidas nos intervalos do ‘Sai de Baixo’. As cenas com as crianças aparecem entre os blocos do programa da Xuxa e assim por diante”, explicou Walther Negrão ao jornal O Globo (28/06/1998).

O enredo ganhou tintas mais fortes. Anita (Yoná Magalhães) passou a confrontar o marido boa-vida, Rudi (Jorge Dória), de quem ouvia desaforos sem esboçar reação. O drama da divorciada Isaura (Myrian Rios), apaixonada pelo jovem Júlio (André Gonçalves), tomou força. Myrian, de volta ao vídeo após pedir auxílio a Jorge Fernando e Walther Negrão, levou o romance da ficção para a “vida real”. André já era, digamos, tarimbado em matéria de relacionamento com mulheres mais velhas. Quando Era Uma Vez… estreou, ele estava se separando de Renata Sorrah. Outro casal formado nos bastidores: Deborah Secco e Rogério Gomes, diretor geral.

Outras alterações foram determinadas pelo elenco. Xistus, oferecido a Ary Fontoura e Paulo Autran, acabou nas mãos do galã Cláudio Marzo. “Então, é provável que eu tenha de criar um romance para ele”, salientou Negrão ao jornal O Estado de São Paulo (29/03/1998). O mau-caratismo de Danilo (Tuca Andrada) foi reforçado para que o público não se apiedasse do vilão. “Acontece que o Tuca é malandro e, quando o Danilo diz que ama a mulher [Madalena], bota até uma lágrima no olho. É bonita essa defesa que o ator faz do personagem, mas preciso mostrar ao público que o Danilo é mau”, ponderou o autor ao jornal O Globo (14/06/1998).

Cabe lembrar que, na sequência de Era Uma Vez…, a Globo exibiu o remake de Pecado Capital. Ou seja: todo o esforço para arregimentar o público de Malhação caiu por terra. Antes de optar pela nova versão do clássico de Janete Clair, atualizado por Gloria Perez – manobra, quem sabe, para impedir a transferência dela para o SBT, como acontecera com Walther Negrão –, a Globo cogitou Alto da Serra, narrativa de época assinada por Flávio de Campos e Marcílio Moraes, e a regravação de Água Viva (1980), com o autor do original, Gilberto Braga, como supervisor.

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Drica Moraes (Madalena) em Era Uma Vez…; gravações em Barcelona contaram com perrengues (Imagem: Arley Alves / Globo)

Era Uma Vez… contou com locações em Guaramirim e Maçaranduba, interior de Santa Catarina, com arrozais como o do Vô Pepe. Também em Blumenau, Pomerode e Timbó, no mesmo estado. A fábrica de chocolates Garoto de Vila Velha, Espírito Santo, serviu de locação para o empreendimento de Xistus. A verba condizente com a de um folhetim das 20h possibilitou ainda gravações em Barcelona, Espanha, marcadas por incidentes, e Roma, Itália, na reta final.

Em Barcelona, uma das tomadas, a de uma Mercedes colidindo com uma placa de vidro, rendeu ferimentos para o assistente de produção Luís Botella, atingido por cacos. Tuca Andrada e o dublê Jorge Só foram confundidos com bandidos e interceptados por policiais enquanto filmavam uma perseguição no Mercado La Boqueria. Já Drica Moraes e Antonio Calloni ganharam moedas de transeuntes que confundiram as estátuas vivas da ficção com artistas de verdade.

Duh Secco
Duh Secco é  "telemaníaco" desde criancinha. Em 2014, criou o blog Vivo no Viva, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.
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