Público rejeitou violência e lésbicas de Torre de Babel; trama estreia no Globoplay

Torre de Babel
Sílvia Pfeifer (Leila) e Christiane Torloni (Rafaela) em Torre de Babel; novela chega ao Globoplay nesta segunda-feira (3) (Imagem: Divulgação / Globo)

O Globoplay disponibiliza nesta segunda-feira (3) os 203 capítulos de Torre de Babel (1998). A trama de Silvio de Abreu é mais uma da lista de clássicos das novelas da Globo oferecidos pela plataforma de streaming. Para quem não lembra, ou não sabe, o folhetim afugentou o público ao apostar forte no slogan “forte, verdadeira e emocionante”. A audiência reagiu às cenas de violência e ao romance duas mulheres – e à possibilidade da personagem de Glória Menezes (Marta) envolver-se com uma delas. Confira esta e outras histórias de bastidores!

Torre de Babel
Maitê Proença (Clara) e Tony Ramos (Clementino) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– “Acho que posso chamar essa novela de a primeira novela-catástrofe da TV brasileira, e espero que não seja uma catástrofe de novela”. A declaração de Silvio de Abreu ao jornal Folha de São Paulo, em 8 de março de 1998, hoje soa profética. Por pouco, Torre de Babel não virou uma “catástrofe”. O talento do autor e a confiança que a Globo e a equipe depositaram nele salvaram a trama de um fiasco “produzido” pela imprensa e por entidades que condenaram vários temas debatidos no enredo, bem como sequências “pesadas”.

– O primeiro capítulo de Torre de Babel atingiu 42 pontos de audiência, apostando em sequências aterrorizantes: Clementino (Tony Ramos) assassinava sua mulher e um dos amantes dela com golpes de pá, Guilherme (Marcello Antony) exigia dinheiro da mãe para comprar drogas e bandidos armados invadiam a mansão da família Toledo.

– Mas o que chocou os telespectadores conversadores, e os chatos de plantão, foram as cenas de amor de Rafaela Katz (Christiane Torloni) e Leila (Sílvia Pfeifer). E olha que não rolou beijo, nem carícia! As duas surgiram dividindo a mesma cama, o mesmo chuveiro e os mesmos dilemas, como todo casal “normal”.

– Foi o suficiente para que o então cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugenio Sales, viesse a público dizer que “a exploração do homossexualismo, lesbianismo, crimes, infidelidades, aborto, etc., fatores que afetam a família, em nada constrói ou reforça os alicerces dessa mesma família tão desvalorizada nos dias de hoje.. “Esses programas, de modo particular várias novelas, são fonte dos males que nos afligem. Os responsáveis darão contas a Deus. E também os patrocinadores e até os que sintonizam, pelo apoio financeiro ou moral que dão a essas mazelas”, declarou ao Jornal do Brasil (29/05/1998). As reações vieram também de entidades que defendiam os “valores morais e os bons costumes”.

– A audiência, que fugiu logo de cara – após os três primeiros capítulos acima dos 40 pontos, os índices caíram para a casa dos 35 –, prometeu não mais voltar, diante de capas sensacionalistas das revistas especializadas em TV, dando conta do envolvimento de Leila com Marta, após a morte de Rafaela.

– A sinopse de Silvio de Abreu previa sim a aproximação das duas, mas não o vínculo afetivo – isto dependeria da aprovação do telespectador. Leila, fragilizada com a morte de Rafaela, e Marta, arrasada após o término de seu casamento com César (Tarcísio Meira), estreitariam a amizade. “Aí começa o preconceito. Como aquela mulher que não tem mais marido, tem amizade com aquela que é ‘sapatão’? Se essa amizade vai levar ou não a uma relação sexual eu não sei…”, declarou Silvio para a IstoÉ (17/06/1998).

Torre de Babel
Glória Menezes (Marta) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Diante dos números alarmantes, a Globo realizou dois grupos de discussão, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Consenso em ambos: ninguém queria ver um mito da TV como Glória Menezes em uma relação homossexual. Diante deste resultado, tal intento acabou abortado.

– Embora muitas possibilidades tenham sido cogitadas para Leila – inclusive a absurda “cura gay” – autores e diretores decidiram que a personagem morreria com sua companheira na explosão do shopping que marcou a “virada” da novela. “Já que não se cumpriria o que tinha sido pensado, a personagem corria o risco de ser esvaziada. Dentro das possibilidades existentes, acho que sua morte foi a melhor opção possível”, desabafou Silvia Pfeifer em entrevista ao jornal O Globo (01/07/1998), endossando a decisão da equipe.

– Silvia voltaria ao folhetim em seus momentos finais, como Leda, irmã gêmea de Leila que, de certa forma, cumpriu a função de balançar a união de Marta e César, investindo fortemente no empresário.

– Surgiu também um boato envolvendo o regresso de Rafaela nos últimos capítulos, após sair ilesa da explosão do shopping e mudar-se para Ilhas Seychelles, África, onde encontraria Ângela Vidal (Claudia Raia), grande vilã de Torre de Babel, sua “aliada”. Foi Abreu quem desenvolveu toda a sequência, como forma de despistar a imprensa.

– Posteriormente, Silvio de Abreu foi alvo de uma ação de comerciantes da Rua São Caetano, após uma fala pejorativa da malvada Sandrinha (Adriana Esteves) sobre o local. O processo foi arquivado após Silvio comparecer ao fórum e alegar que o texto não poderia ser levado ao pé da letra, visto que havia sido disparado por uma mulher desrespeitosa e de péssimo gosto.

Torre de Babel
Adriana Esteves (Sandrinha) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Antes mesmo da estreia, Silvio de Abreu já havia declarado a intenção de usar a explosão do shopping para corrigir o que fosse necessário. Caso o romance de Rafaela e Leila fosse bem aceito, por exemplo, ele poderia poupar a vida de ambas. Desde o início também já estavam certas as mortes de Guilherme, toxicômano, e do bruto Agenor (Juca de Oliveira), pai de Clementino – que reapareceu no final para solucionar o mistério em torno do autor da explosão do shopping.

– Vilma, muito bem defendida por Isadora Ribeiro, caiu no gosto do público e escapou de morrer quando o Tropical Tower Shopping foi pelos ares. Mas adiante acabou vítima de Ângela. “O Silvio de Abreu me ligou e explicou que não queria deixar a Vilma servindo cafezinho ou brigando com a Marta o resto da trama”, comentou a atriz, concordando com a decisão do autor em entrevista ao jornal O Globo (27/09/1998).

– Hoje vista como “a salvadora da pátria” no quesito audiência, a explosão do shopping só coroou uma curva já ascendente dos índices. Na terceira semana, os índices de Torre de Babel retornaram para a casa dos 40 pontos. Com a explosão, no ar nos capítulos de 15 e 16 de julho de 1998, a novela registrou 50 pontos, feito repetido no capítulo em que Alexandre (Marcos Palmeira) dá uma surra na esposa, Sandrinha – outra cena que causou reações, por conta da violência contra a mulher.

– Mesmo com o êxito, as alterações prosseguiram: a personagem de Letícia Sabatella, Celeste, seria prostituta. Acabou virando operária, após a direção julgar que a trama já tinha muitos personagens representando grupos discriminados pela sociedade: os homossexuais, os dependentes químicos e os presidiários.

Torre de Babel
Claudia Jimenez (Bina) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Outra alteração envolveu Edmundo Falcão (Victor Fasano). O relacionamento com Ângela Vidal foi abortado quando a vilã ganhou tintas mais fortes; Edmundo acabou enveredando de vez pelo núcleo cômico, capitaneado por Bina (Claudia Jimenez).

– Para viver a hilária Bina Colombo, Jimenez recusou um projeto de sitcom. Marcello Antony também abriu mão de convites para a série Mulher e a minissérie Hilda Furacão em prol de Guilherme Toledo.

– Eliane Costa, a Luzineide – ou Chaveirinho – passou a novela toda sem abrir a boca, sempre interrompida por sua amiga Bina; a revelação do grande mistério, contudo, coube a ela. Claudia instruiu Eliane a interrompê-la quando quisesse durante suas falas, porque ela imediatamente dispararia um “Cala a boca, Luzineide!”.

– Bina Colombo também popularizou o “Tô podendo!”, enquanto Gustinho (Oscar Magrini) colocou seu “Percebe?” na boca do povo. Mas o bordão que marcou Torre de Babel para todo o sempre foi “Jamanta vai matar Sandrinha!”, do personagem de Cacá Carvalho, Jamanta. A figura fez tanto sucesso que ganhou imitação na concorrência: o SBT levou ao ar em A Praça é Nossa uma paródia do personagem.

– Jamanta fez tanto sucesso que ressurgiu em Belíssima (2005), como ajudante do mecânico Paschoal (Reynaldo Gianecchini). No último capítulo, Luzineide também deu o ar da graça, impedindo o casamento de seu marido com Regina da Glória (Lívia Falcão).

– Ainda no núcleo cômico, Etty Fraser como tia Sarita. A atriz estreava na Globo após anos participando de novelas na Tupi e comandando programas culinários.

Torre de Babel
Cacá Carvalho (Jamanta) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Outra estreia em Torre de Babel: a da diretora Denise Saraceni na faixa das oito. Foi a primeira vez que uma mulher respondeu pela direção geral de uma novela do horário “mais nobre”. Para aceitar o desafio, Denise deixou o comando de Anjo Mau (1997), passando a atuar apenas como supervisora do folhetim das seis.

– Marco Nanini foi convidado pelo próprio Silvio de Abreu para o elenco da novela. Diante da impossibilidade de um acerto do ator com a Globo, o autor eliminou o personagem que caberia a Nanini.

– Já Stenio Garcia entrou para a trama enquanto ainda gravava uma participação em Labirinto, estando no ar em Hilda Furacão. As peças produzidas pelo artista plástico Bruno eram, na verdade, da escultura Heloísa Fabriani, descoberta pela produtora de arte Cristina Médicis em um shopping do Rio de Janeiro.

– Para viver José Clementino, Tony Ramos perdeu aproximadamente 8 quilos em 23 dias, cortando carboidratos e praticando corridas de esteira e levantamento de peso.

– Sacrifício maior coube a Claudia Raia. A atriz relatou, ao término da novela, que a carga emocional de sua personagem, Ângela, era tão pesada que ela passou a sofrer de gastrite e a vomitar ao término das cenas: “Eu dizia que eu vomitava a Ângela!”, declarou em entrevista ao jornal Folha de São Paulo (10/01/1999).

– A inspiração de Duda Mamberti para viver Carlito, auxiliar de Rafaela e Leila, veio do personagem interpretado por seu pai, Sérgio Mamberti, em Vale Tudo (1998), o inesquecível mordomo Eugênio: “Criei o Carlito como um Eugênio jovem, que também é discreto e refinado, mas em vez de cinema, gosta de culinária”, revelou ao jornal (04/10/1998).

Torre de Babel
Claudia Raia (Ângela) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Em família estavam Marcos Palmeira e Karina Barum (Shirley). Os dois eram cunhados na “vida real” – Marcos estava casado com a irmã de Karina, Vanessa Barum. Na ficção, Shirley era a boa moça apaixonada por Alexandre, casado com sua irmã sem caráter Sandrinha. O pretenso par romântico, contudo, não foi adiante.

– Shirley fez tanto sucesso que ganhou uma reedição em Haja Coração (2016), que a Globo reprise às 19h em outubro. A personagem, então vivida por Sabrina Petraglia, foi a sensação da trama; seu romance com Felipe (Marcos Pitombo) mobilizou a atenção do público da televisão e das redes sociais.

– Em Torre de Babel, Shirley esquece o cunhado ao se apaixonar por Adriano (Danton Mello). Durante as gravações, o ator sofreu um acidente com o helicóptero que o conduzia ao Monte Roraima para uma matéria do Globo Ecologia, apresentado por ele. O helicóptero havia feito um pouso de emergência numa aldeia indígena, devido ao mau tempo na região. O acidente causou a morte do operador de áudio Ricardo Cardoso e obrigou Danton, submetido a uma cirurgia no abdome por conta do deslocamento de vários órgãos, a se afastar da novela.

– Adriano sumiu da narrativa num momento crucial para a trajetória de Shirley: quando ela inaugura um diner – algo como um restaurante de beira de estrada – no ferro velho do avô Agenor. Para justificar o retorno do ator numa cadeira de rodas, Silvio de Abreu criou um acidente de carro no momento em que Adriano seguia para a inauguração da lanchonete.

– Aliás, fez no sucesso no diner de Shirley o chili, prato típico mexicano, feito na base de feijão-manteiga, misturado com a carne moída e a pimenta que dá nome a iguaria, e servido com queijo e tortilhas.

– Durante a ausência de Danton Mello, surgiu outro personagem disposto a conquistar Shirley: Dino, vivido pelo estreante Felipe Rocha.

– Shirley parou de mancar e se formou bailarina após uma cirurgia que corrigiu seu problema na perna. Todas as informações técnicas a respeito da operação foram dadas por profissionais da AACD – Associação dos Amigos da Criança Deficiente.

Torre de Babel
Karina Barum (Shirley) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Erguido sobre o que restou de Greenville, cidade cenográfica de A Indomada (1997), o Tropical Tower Shopping levou 40 dias para ser construído; 20 deles dedicados apenas às fundações. Os dados da obra, realizada como um edifício “de verdade”, impressionam: 200 operários trabalharam na construção, que consumiu 4.600m de vigas metálicas pesando 20 toneladas; instalação de dois elevadores panorâmicos que funcionavam de fato, assim como as escadas rolantes que levavam a três pavimentos; 800 janelas com um sistema de efeitos visuais que permitiam a mudança das cores na fachada do “shopping”, sendo necessária uma subestação de energia com capacidade de 64kw para iluminar toda a estrutura.

– Na área externa, uma avenida de 16m² e esculturas gigantes do artista plástico Maurício Bentes adornando a fachada, além de jardins suspensos em vários níveis e um lago de 120m² iluminado com lâmpadas instaladas debaixo d’água. A única mentira nesse shopping quase de verdade era o estacionamento: havia uma abertura no chão na qual os carros entravam, dando a impressão de um estacionamento subterrâneo – o carro, na verdade, dava uma volta pela parte de trás do cenário e retornava pela saída do outro lado.

– Três maquetes de diferentes proporções foram utilizadas para simular a explosão do Tropical Tower Shopping, que consumiu mais de 200 mil dólares em equipamentos de efeitos especiais.

– Algumas cenas de interior do Tropical Tower foram realizadas no Iguatemi Shopping, em São Paulo. Outras locações da trama na capital paulista: o bairro Pari, a fachada da penitenciária do Carandiru, o presídio desativado do Hipódromo e a Febem do Pacaembu, também inativa.

– No Rio de Janeiro, a equipe gravou na serrana Itaipava e no prédio da Secretária Estadual da Fazenda, na Rua da Alfândega (Centro), uma construção de 1926 – que abrigava, na ficção, os escritórios da Construtora Toledo.

– A novela também contou com cenas gravadas em Salzburg, na Áustria, berço do gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart e cenário do filme A Noviça Rebelde (1965). A equipe acumulou funções para dar conta do trabalho sem estourar o orçamento. E enfrentou um frio de 4 graus!

– Toda a estrutura pensada pelos cenógrafos Keller Veiga e Mário Monteiro foi inspirada numa pintura do século XVIII, do holandês Pieter Brueghel, retratando a Torre de Babel descrita na Bíblia. Essa mesma pintura inspirou a abertura da novela.

– Aliás, pouco antes da explosão do shopping, a abertura sofreu alterações: a princípio, suavizaram os acordes do tema instrumental de Alberto Rosenblit; em seguida, substituíram a composição por Pra Você, sucesso de Sílvio César regravado por Gal Costa.

– A mudança de tema foi determinada por Carlos Manga, diretor artístico de Torre de Babel. Manga também suavizou determinadas sequências, como a que sugeria a prática de sexo oral entre Alexandre e Sandrinha.

Torre de Babel
Tarcísio Meira (César) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– A crueza do enredo era uma arma de Silvio de Abreu para escapar à banalização da violência, difundida em programas “mundo-cão”, como o Ratinho Livre, então no ar na Record. “Minhas novelas procuram refletir o que gosto, penso, vivo, ou, principalmente, o que me incomoda como cidadão. Vivo numa sociedade cada vez mais violenta, com notícias sempre crescentes de assaltos, mortes e sequestros e percebo que esta violência vem sendo encarada como divertimento na grande maioria dos programas de TV. […] A violência nos primeiros capítulos foi um soco muito bem dado no estômago do público. Tomara que toda a sociedade acorde e passe a raciocinar sobre a violência com menos indulgência e mais responsabilidade”, rogou o autor em entrevista ao jornal O Globo (30/05/1998).

– Exibida em países como Argentina, Bélgica, Marrocos, México, Romênia e Senegal, Torre de Babel afugentou o público português, que havia aclamado A Próxima Vítima (1995), do mesmo autor. Os índices que giravam em torno dos 30 pontos com Por Amor (1997) caíram pela metade com a estreia da sucessora. A audiência voltou aos patamares desejáveis com o fim do verão português e após a explosão do Tropical Tower Shopping.

– Aqui no Brasil, Silvio Santos resolveu combater Torre de Babel com a açucarada Fascinação, de Walcyr Carrasco. As duas novelas estrearam no mesmo dia e quase no mesmo horário – Fascinação foi ao ar 20 minutos depois da estreia da Globo. O título do SBT, embora delicioso, não fez nem cócegas na audiência da novela global.

– E não é que mesmo com toda a violência que permeia o início da trama, além da polêmica envolvendo alguns dos principais personagens, a Globo tentou reprisar Torre de Babel no Vale a Pena Ver de Novo? O Ministério da Justiça, no entanto, negou o pedido da emissora para reclassificar a novela como “livre para todos os públicos”, mesmo diante da análise dos dez primeiros capítulos editados. Na mesma época, Porto dos Milagres (2001) também foi vetada, o que obrigou a emissora a recorrer a uma segunda reprise de A Viagem (1996) para substituir o repeteco de Força de um Desejo (1999). O Canal reapresentou ‘Torre’, na íntegra, entre 10 de outubro de 2016 e 03 de maio de 2017.

Torre de Babel
Marcello Antony (Guilherme) e Edson Celulari (Henrique) em Torre de Babel (Imagem: Divulgação / Globo)

– Às vésperas da estreia, Silvio de Abreu negou ter se inspirado na tragédia do paulistano Osasco Plaza Shopping, que sofrera uma explosão em junho de 1996 e no desabamento do edifício Palace II, no carnaval de 1998, no Rio de Janeiro. A única inspiração de Silvio: as bombas detonadas no World Trade Center em 1993, que causaram seis mortes e deixaram mais de mil feridos. O World Trade Center seria vítima de um ataque terrorista três anos depois, o trágico “11 de setembro”.

– O autor pensou, inicialmente, na explosão de um avião. Mas como vários personagens teriam de trabalhar no meio da aviação, Silvio não conseguiria traçar perfis muito diferentes; veio daí a opção por um shopping center, que recebe pessoas de todas as esferas sociais.

– Cercada de expectativas, a cena em que o responsável pela explosão do shopping era revelado foi gravada no dia da exibição do último capítulo, às 13h. O Vídeo Show realizou uma entrada ao vivo, comandada por Cissa Guimarães, direto do estúdio, no momento em que o elenco ensaiava a sequência.

– Apesar do início complicado, Torre de Babel chegou ao fim como mais um dos muitos êxitos de Silvio de Abreu! Adriana Esteves e Tony Ramos levaram o Troféu Imprensa, o APCA e os Melhores do Ano do Domingão do Faustão de melhor atriz e melhor ator de 1998. Cleyde Yaconis levou o APCA de atriz coadjuvante por Diolinda Falcão.

– E por falar em ‘Domingão’… Fausto Silva e Xuxa Meneghel participaram da trama. Os dois testemunham a farsa de Johnny Percebe, nome artístico usado por Gustinho em sua trajetória como cantor – usando os vocais do irmão Boneca (Ernani Moraes). Parceiro de Silvio de Abreu em muitos trabalhos, Jorge Fernando surgiu numa cena de Torre de Babel como diretor do clipe de Percebe; o sertanejo “gravou” Felicidade, que saudade de você, hit de Zezé di Camargo & Luciano presente na trilha sonora. Jorginho foi o primeiro nome cogitado para a direção de ‘Torre’; na época, ele já estava comprometido com Era Uma Vez…, às 18h.

– O resultado final, contudo, gerou insatisfação em Silvio de Abreu. Questionado em entrevista ao TV Folha (20/01/2002) sobre a interferência da audiência no processo criativo, o hoje diretor do departamento de dramaturgia da Globo lamentou: “Interfere, porque a gente tem que atingir aquele patamar. Sei que é minha obrigação. Mas, às vezes, a novela não dá grande audiência na estreia – como Torre de Babel, que assustou o público no começo. Aí, eu deixei de lado a análise psicológica, traí minha ideia original, contei a história em tom folhetinesco, e o povo embarcou na emoção. Mas aquilo me desagradou”.

– “Pra mim, foi muito difícil escrever essa novela. Eu sentava e me formigava o corpo inteiro, eu tinha medo de ter um infarto”, completou Silvio em depoimento no livro Crimes no Horário Nobre, de Raphael Scire.

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Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.