Silvio Santos de cueca, fuga cinematográfica e morte misteriosa: sequestro de Patrícia Abravanel completa 20 anos

Patrícia Abravanel
Silvio Santos e Patrícia Abravanel após o sequestrador ser preso (Imagem: Reprodução / Contigo!)

Desfrutando de uma confortável situação no SBT, Patrícia Abravanel sofreu momentos de tensão quando foi sequestrada em cena que parou o Brasil há 20 anos. A filha de Silvio Santos virou notícia em diversos telejornais, inclusive o da maior concorrente na época, o Jornal Nacional, da Globo.

Para relembrarmos o episódio, ocorrido em 21 de agosto de 2001, uma quinta-feira, separamos alguns fatos importantes acerca do acontecimento em uma fase em que Patrícia sequer era famosa na mídia.

Naquele dia, a apresentadora foi rendida na residência do pai às 8 horas da manhã, na zona Oeste de São Paulo, no bairro do Morumbi. “Lembro que eu estava me arrumando para ir à faculdade, passei no quarto da minha irmã para ‘roubar’ uma peça de roupa e dei de cara com um [dos criminosos]. Nisso, ele já me levou para a garagem, perguntou qual era meu carro e, ao sentar no banco de trás, notei que tinha outro rapaz. E eles anunciaram: ‘Isso é um sequestro e nós somos Tubarão 1 e 2′”, contou a apresentadora do Vem Pra Cá a Marília Gabriela, em 2012.

Fernando convenceu o irmão, Esdras, a participar do plano e ambos largaram seus empregos, venderam um terreno, compraram 3 pistolas, 1 metralhadora e munições em Itapevi e Osasco. O irmão mais velho também comprou uma identidade falsa e alugou uma casa no Morumbi.
Armas usadas por Fernando e Esdras no sequestro de Silvio Santos e Patrícia Abravanel (Imagem: Reprodução / Globo)
Segundo informações divulgadas pelo SBT na época, o cativeiro escolhido para a filha do apresentador estava a 10 km de distância da residência dos Abravanel. Patrícia ficou rendida por sete dias. “Eu fiquei conversando com eles, então eu vi que fui superprotegida da realidade que é o Brasil. Eu pude me relacionar com eles, me pôr no lugar deles, ver a dificuldade, ver a revolta, a injustiça, isso me abriu uma janela que eu desconhecia”, contou.
A casa que serviu de cativeiro para o sequestro de Patrícia Abravanel (Imagem: Reprodução / SBT)

Silvio Santos e Íris Abravanel avisaram à polícia, porém, resolveram negociar com os sequestradores sem a inerência militar. O empresário, por sua vez, pediu sigilo aos principais jornais da época para não noticiarem o acontecimento.

Os irmãos Esdras e Fernando Dutra Pinto pediram um valor de resgate avaliado em R$ 500 mil para libertarem Patrícia. Após uma semana de negociações, o resgate foi pago e a então estudante foi liberada e devolvida para a família, mas em uma localização desconhecida.

Patrícia Abravanel chegou em casa dirigindo seu próprio carro, um Passat alemão azul e de grande notoriedade para o começo do século. Ao redor da casa, a imprensa se aglomerava para ter seu melhor ângulo do acontecimento, que só estava começando.

A esposa do ministro Fábio Faria contou à imprensa que dormiu em uma cama e era chamada de princesa pelos sequestradores. “Eu fiquei amarrada só um dia porque eles confiaram em mim. Eles me diziam que não sabiam o que eu tinha que não conseguiam botar as mãos em mim e que iriam me libertar com ou sem resgate”, contou Patrícia, que teve seu resgate pago em dinheiro e com cédulas numeradas.

Depois do sequestro e com o resgate pago, Fernando Dutra Pinto hospedou-se em um hotel de luxo na cidade de Barueri, localizado na região metropolitana de São Paulo. Usando nome falso, Dutra alegou ser um músico e quitou a estadia em dinheiro. No entanto, acabou levantando suspeitas de uma funcionária do hotel que identificou uma arma em uma das malas no quatro do rapaz. Ao informar à polícia, o prédio foi cercado e houve troca tiros com o sequestrador. Fernando teria atirado em três investigadores, deixando dois feridos e um morto.

Baleado e ferido com um tiro na nádega, Fernando Dutra Pinto protagonizou uma fuga cinematográfica. Ao todo, 100 viaturas foram acionadas para caçar o meliante. De acordo com a TV Globo, Fernando trocou de carro por duas vezes e ainda pegou um táxi para fugir.

Livre da polícia, Fernando fez o que ninguém esperava: na manhã seguinte, às 7 horas, invadiu a residência de Silvio Santos, liberou todas as mulheres da casa e fez refém o dono do SBT por longas 7 horas de negociações. O curioso é que Silvio Santos foi pego tão de surpresa, que estava de cueca e camisa em casa enquanto fazia sua ginástica matinal.

Avistado por um radialista, Fernando foi denunciado à polícia pela invasão à casa da família Abravanel. Junto do apresentador, Fernando disse que só sairia dali vivo e com um helicóptero particular.

Houve até o envolvimento do então governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. “Ele me telefonou e disse que o Silvio tinha ligado para ele do celular e pedido a minha presença. Eu fiquei bravo, porque isso abriria um precedente e havia 13 sequestros em andamento na cidade. Aquilo era uma tormenta, uma época muito difícil. Ele me falou que só estava me colocando a par”, conta Alckmin.

“Me lembrei de um professor na faculdade de Medicina que dizia: ‘Em casos graves, sejam eles quais forem, não se omitam’. Transportei isso para a política e fui. Entrei com um colete à prova de balas por baixo do terno, acompanhado de um policial. Ninguém me viu entrando. Cheguei até a porta e disse que estava ali para garantir a vida do Fernando. Também não o ouvi. Só o Silvio falava, e ele dizia: “Olha, Geraldo, o Fernando aqui é um rapaz inteligente, ele vai fazer faculdade, e eu prometi dar a ele uma roupa para sair’. O Silvio parecia meio estocolmizado (palavra utilizada para definir o comportamento de um refém com Crise de Estocolmo, quando se afeiçoa a seu algoz). Com isso, o De Lucca pediu a arma (ao sequestrador). Veio a primeira. Depois a segunda, e nessa já não o deixaram fechar a porta da cozinha, onde estavam”.

Silvio Santos saiu ileso, mas se preocupou em dar um recado do sequestrados aos policiais: “Ele queria garantia de vida, tomar um banho e trocar de roupa antes de se entregar”.

A negociação se deu entre Fernando Dutra Pinto e o então capitão da PM, Diógenes de Lucca, fundador do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais). O pedido de Fernando aconteceu pelo fato de ter baleado três integrantes da Polícia Civil e, por isso, não estar em boas condições de negócio.

Patrícia Abravanel após o sequestrador ser preso (Imagem: Reprodução / Globo)
Patrícia Abravanel após o sequestrador ser preso (Imagem: Reprodução / Folha de S.Paulo)
Silvio Santos e Patrícia Abravanel após o sequestrador ser preso (Imagem: Reprodução / O Globo)
Silvio Santos e Patrícia Abravanel após o sequestrador ser preso (Imagem: Reprodução / Veja)

“Estava dando um curso no Centro da cidade quando meu celular tocou e era o Comandante Geral da PM. Imagina que acima de mim tinha muitas patentes, estranhei uma ligação dele para mim. Ele me perguntou onde eu estava e disse ‘Vem pra cá’. Eu já sabia que era a casa do Silvio, porque quando fui tomar um café, assisti pela TV ao que acontecia”, relembrou Diógenes.

“Quando eu cheguei lá, parecia festa da firma. Era muita gente dentro da casa, muitas autoridades, policiais que não se viam há muito tempo. Não serviram salgadinhos como depois se contou na época. Nada disso. Mas eu sempre orientei, nas minhas negociações, que quanto menos gente melhor. Chamei o comandante num canto e pedi para haver dispersão”, contou.

Capitão da PM, Diógenes de Lucca, fundador do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) (Imagem: Reprodução / Twitter)

“Não se ouvia a voz dele. Quando a gente negocia uma rendição, o faz com o bandido. Desta vez, era o refém que tomava à frente. E Silvio me pediu a presença do Secretário de Segurança Pública. Disse a ele que não havia necessidade, que estava ali para garantir que tudo saísse bem. Ele não se dobrou e disse que, só quando chegasse o secretário, voltaria a falar. Dei aquele tempo. E, quando vejo, está chegando o governador Geraldo Alckmin”, relatou De Lucca.

Silvio Santos e o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (Imagem: Reprodução / Folha de S.Paulo)

Após a prisão de Fernando Dutra Pinto, Patrícia Abravanel conversou com a imprensa da sacada de sua residência. “Eles eram jovens e falavam que meu Deus era poderoso. Eu tinha uma bíblia lá e um deles escreveu. ‘Você é a melhor pessoa do mundo’… Eu tomava chá com eles”, disse a apresentadora, que especulou sobre a jovem estar vivendo a síndrome de Estocolmo.

O fato ganhou espaço em diversos telejornais mundo afora. No Brasil, o Jornal Nacional destinou 20 minutos de seu tempo para noticiar o fato. Houve até capa do The New York Times na internet.

No dia seguinte ao sequestro, Silvio Santos foi trabalhar normalmente e chegou a ligar para a rádio Jovem Pan para defender o governador. “Tenho certeza que se ele não fosse lá, eu teria morrido e Fernando se matado. Ele dizia que não seria preso de jeito nenhum”, disse o apresentador, ouça:

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Em entrevista a Marília Gabriela, 11 anos depois do sequestro, em 2012, Patrícia Abravanel negou ter vivido a síndrome de Estocolmo. “Creio que não tenha sido isso, foi uma experiência transformadora. Durante o sequestro eu pude me relacionar com eles, ver a diferença social, a revolta que isso gera nas pessoas, então não é que eu compreendi eles, mas eu vi [a realidade do Brasil]”, disse a apresentadora.

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Ao todo, seis pessoas estavam envolvidas com o sequestro da filha de Silvio Santos: Marcelo Batista dos Santos, Esdras Dutra Pinto, Luciana dos Santos Souza, Tatiana Pereira da Silva, Marcos Batista dos Santos e Fernando Dutra Pinto, que era o organizador e líder do grupo.

Sequestradores de Silvio Santos e Patrícia Abravanel (Imagem: Reprodução / Folha de S.Paulo)

Fernando Dutra Pinto morreu na cadeira, em 2002. De acordo com a polícia, o sequestrador teve um infecção generalizada. Luciana, namorada de Fernando, Tatiana e Marcelo tiveram condenações de 15 anos de prisão.

A motivação do crime nunca foi revelada, no entanto, na época, Fernando e Luciana namoravam e, por isso, estavam envolvidos no sequestro de Patrícia. O pai de Fernando, Antônio Sebastião Pinto, disse que ficou chocado como fato. “Tudo é um susto, um grande pesadelo para todos nós”, disse à imprensa.

O jornalista Elias Awad entrevistou Fernando Dutra Pinto no Centro de Detenção Provisória (CDP) e escreveu o livro Fernando Dutra Pinto: Você Acredita em Mim. Nas páginas, Awad narrou que o sequestrador pretendia ser advogado, era visto como um filho prestativo e ambicioso. No entanto, a falta de oportunidade em cursar uma faculdade de Direito fez com que o sonho ficasse de lado e Fernando entrasse na criminalidade.

Capa do livro Fernando Dutra Pinto: Você Acredita em Mim (Imagem: Reprodução / Livraria Saraiva)

O valor do resgate pago pela Família Abravanel no valor de R$ 500 mil, foi reavido, mas não em sua totalidade. Somente R$ 464 mil foram encontrados junto a Fernando. Os R$ 36 mil restantes nunca foram encontrados. Houve até a abertura de um inquérito para investigar o sumiço do dinheiro, porém, a Justiça deferiu que a culpa pela perda do valor era da polícia por “descuido” na operação.

O dinheiro usado no resgate foi encontrado (Imagem: Reprodução / Globo)

A morte de Fernando e suas circunstâncias foram consideradas “misteriosas” para a família do sequestrador. Segundo o laudo do Instituto Médico Legal (IML), o homem teria morrido por causa de uma infecção generalizada causada por carne de porco.

Segundo a revista IstoÉ da época, 880 presos, entre funcionários, teriam ingerido a mesma carne e não teriam sentido qualquer sintoma de infecção. O sequestrador estava tomando remédios para broncopneumonia que supostamente bloqueavam a possibilidade de uma identificação da morte por envenenamento no exame toxicológico.

Teorias da conspiração foram levantadas e deram a entender que sob as ordens e Silvio Santos, Fernando havia sido envenenado pelo serviço secreto de Israel, já que Silvio Santos é judeu. “Chegaram a dizer até que por Silvio, por ser judeu, teve ajuda do Mossad (serviço secreto do Estado de Israel) para envenenar o rapaz. Para mim, houve uma fatalidade e também uma negligência ao não tratarem a doença como deveriam. Em momento algum Silvio Santos queria que o garoto morresse. A preocupação dele, a todo momento, era de que alguém fosse ao seu closet pegar uma roupa que ele prometeu dar ao Fernando”, declarou Diógenes de Lucca, que mudou de carreira após ganhar fama com a coordenação do sequestro e virou palestrante e instrutor de negociações em grandes empresas.

Em 2020, portanto, dezenove anos depois do crime, a família Abravanel falou sobre o acontecimento em um vídeo publicado no YouTube. Íris Abravanel, mãe de Patrícia, ficou emocionada ao tocar no assunto. “É difícil perdoar o sequestrador da própria filha. Mas eu tive que lutar para liberar esse perdão”, disse a esposa de Silvio Santos.

“Tive empatia com a mãe e com a família [deles]. Só assim consegui perdoar. Eu pensava: ‘Eles não sabem o que estão fazendo, o quanto estão se prejudicando’. Então me apeguei ao fato de se eu perdoasse eles, nem um fio de cabelo da Patrícia seria tocado (…) Eu [senti que] se não liberasse o perdão, eles podiam fazer alguma coisa contra você. Foi o perdão mais difícil da minha vida”, acrescentou Iris. Dando risada, Patrícia disse que não se sente emotiva ao relembrar o sequestro: “Perdoei eles no cativeiro. Foi uma coisa de Deus”.

Vinte anos depois do sequestro, Patrícia Abravanel deu uma entrevista ao canal de Amaury Jr e revelou alguns traumas. “Eu não entendo o motivo [do sequestro até hoje], foram sete dias que… assim, eu não vou dizer que não tive traumas, tive. Hoje eu só ando de carro blindado, quando alguém se aproxima eu me assusto fácil, ou seja, eu sempre tomo mais cuidado. É isso que ficou comigo”, contou.

“Eu sonhei com isso. Meses antes, eu sonhei que estava com uma funcionária de casa, num tanque cheio de tubarões. E eu dizia para ela ficar calma que estava tudo tranquilo e eu entrava numa gaiola, lotada com tubarões, e nadava com eles e ficava tudo bem. Quando entrei no banco do carona, eu já estava encapuzada, e eles anunciaram o sequestro. E um falou: ‘Eu sou o tubarão 1 e ele é o tubarão 2’. Na hora me deu uma paz! Porque eu lembrei do sonho! E eu tinha certeza que tudo ia ficar bem”.

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Em matéria de 2021, o jornal Extra trouxe que o sequestrador Esdras Dutra Pinto, irmão de Fernando, cumpre o restante da pena em regime aberto. Em fotos postadas nas redes sociais, Esdras vem se mostrando atuante em uma igreja e levando a vida junto aos familiares.

Esdras Dutra Pinto segue em regime aberto (Imagem: Reprodução / Extra)

Em 2001, Silvio Santos aproveitou o Show do Milhão para fazer um desabafo pessoal sobre o sequestro da filha e próprio. Confira:

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Em outro momento, Silvio Santos tirou sarro cm Sérgio Mallandro, veja:

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Reuber Diirr
Reuber Diirr é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Com passagens pela Record News ES e TV Gazeta (Globo/ES), acompanha as coletivas de imprensa com matérias exclusivas. Além disso, produz conteúdo multimídia para o Instagram, Twitter, Facebook e Youtube do RD1. Acompanhe os eventos com famosos clique aqui!
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