A TV encaretou? Quando programas e novelas eram mais ousados (e apelativos)

Banheira do Gugu é prova que TV encaretou
Tiririca foi um dos convidados que participou da Banheira do Gugu (Imagem: Divulgação / SBT)

Em seu aniversário de 70 anos, é inevitável concluir que a TV encaretou. Anos atrás, um modelo saradão tirava toda a sua roupa até ficar só de sunga – ou mesmo sem nada – no palco de um programa de auditório, exibido à tarde. Havia também a clássica Prova da Banheira, onde, entre outras situações, eram dados closes generosos no corpo dos participantes.

Na dramaturgia, o bumbum do protagonista não escandalizava às 18h. Cenas como estas – que hoje em dia parecem impensáveis – eram comuns em novelas e programas brasileiros, especialmente nas décadas de 80 e 90.

Isso acontece porque, assim como qualquer outra manifestação artística – a televisão é um reflexo de seu tempo. Os conteúdos produzidos estão alinhados com os valores e comportamentos que a audiência e a sociedade consideram adequados.

A proposta deste texto, ao relembrar os tempos de ousadia (ou, para alguns, apelação) não é construir um juízo de valor ou comparar épocas. A intenção é apenas salientar que uma atitude que hoje é aceitável, amanhã pode escandalizar. Ou vice-versa. Vamos juntos abrir o baú de lembranças?

Banheira do Gugu

Dinâmica da banheira favorecia contato físico entre modelo e participante (Imagem: Reprodução / SBT)

Uma das mais clássicas brincadeiras do Domingo Legal, a Prova da Banheira desafiava os convidados da atração a encontrarem sabonetes espalhados em uma banheira. Para atrapalhá-los, um (a) modelo do sexo oposto tinha a missão de conter seus movimentos.

Se dentro da banheira rolava alguma apalpação, fora dela os câmeras davam closes generosos em homens de sunga e mulheres que trajavam biquínis minúsculos.

Não raramente, dezenas de pessoas assim, com pouca roupa, acompanhavam os musicais da atração. E não tinham nenhum pudor em reproduzir coreografias, o que aumentava ainda mais o clima de sensualidade.

Em 2015, já na Record, Gugu fez uma releitura da prova, porém, em uma versão bem mais comportada. O veto ao uso de biquínis teria partido de um bispo da IURD.

Vale lembrar que a estratégia de explorar a beleza de corpos não era novidade em seus programas. Ainda nos tempos de Viva a Noite, ele lançou o concurso Garota da Camiseta Molhada. As participantes trajavam apenas uma peça branca, úmida, o que permitia ao público ver seus mamilos.

Questionado em 2018 pela jornalista Cristina Padiglione, o saudoso apresentador opinou se a TV encaretou. “Eram outros tempos, outra televisão, isso seria impensável hoje. A patrulha hoje é muito maior. Acho que tole a criatividade, a liberdade, em todos os sentidos, e não só para os apresentadores”, arrematou.

Strip-tease no palco

Em seus tempos de TV Manchete, Raul Gil promovia um concurso de Strip-tease (Imagem: Reprodução / YouTube)

A Banheira do Gugu e o Concurso Garota Molhada não foram os únicos momentos de ousadia de Gugu. Seu Domingo Legal também recebia strippers no palco.

Eles faziam uma performance para os artistas que participavam do programa. O desafio dos famosos era manter seus batimentos cardíacos sob controle.

Mas homens e mulheres que tiravam a roupa no palco não eram exclusividade de Gugu. Em seus tempos de TV Manchete, Raul Gil promovia um concurso de strip-tease.

Alguns deles, terminavam a performance só de sunga, enquanto outros não tinham pudor. Completamente nus, mostravam o bumbum para a plateia. Como adicional, podiam ter seus corpos acariciados por integrantes do júri. Assista ao vídeo:

O Cocktail de mulheres-frutas de Miele

Mulheres representavam frutas e mostravam os seios em Cocktail, no SBT (Imagem: Reprodução / SBT)

Se o assunto são os programas ousados da TV brasileira, o programa Cocktail não poderia faltar. Apresentada por Luís Carlos Miele entre 1991 e 1992 no SBT, a atração era um game show voltado ao público adulto. A íntegra de uma das edições foi postada no YouTube.

Tal e qual o Fantasia, o programa reunia um elenco de belas mulheres. Mas com uma diferença significativa: durante as provas, as “garotas tim-tim” – que representavam frutas – exibiam os seus seios.

Outras realizavam um strip-tease quase completo. Ao final de cada edição, a grande estrela da noite tirava toda a sua roupa, mas seus genitais não eram mostrados. Anos depois, o anfitrião reconheceu ao UOL que este foi um mau passo na carreira.

“Gravei o primeiro programa assim, discutindo com o diretor. Deixa eu colocar aqui uma frase do Millôr Fernandes? E ele levou a gravação para o Silvio Santos, que me chamou e falou assim: ‘você não entende nada de SBT. Isso aqui é um programa assim, assim, assim para atingir o público das onze horas da noite e se você quiser fazer é assim’. E eu fiz. Mas não que eu tenha gostado”, reconheceu.

Pelados sim, em todos os horários

Edson Celulari é um dos atores que mais ficou nu na Globo. Na foto, em cena de Dona Flor, com Giulia Gam e Marco Nanini (Imagem: Reprodução / Memória Globo)

Hoje em dia, o fato da Globo ter mantido sequências de nudez na reprise de Êta Mundo Bom! surpreende os mais jovens. Em outros tempos, porém, a presença de peladões na dramaturgia era bem mais comum. E em todos os horários.

Mais além: cenas com atores e atrizes como vieram ao mundo não chocavam. No primeiro capítulo de Barriga de Aluguel, por exemplo, os personagens de Victor Fasano e Cássia Kiss têm um diálogo bem à vontade.

Ela, coberta de espuma, em uma banheira. Enquanto isso, o galã – que recentemente descartou voltar a atuar – está completamente nu no chuveiro. Assista a cena (a partir de 20 minutos):

Na faixa das sete, Cláudio Henrich passou quase toda Uga Uga usando como figurino apenas um fio-dental. Anos antes, Marcelo Novaes e Humberto Martins já haviam mostrado toda a sua beleza em Vira Lata, do mesmo Carlos Lombardi.

Mas, se existe um galã despudorado, seu nome é Edson Celulari. Ele fez cenas sem roupa em Fera Ferida, Explode Coração, Torre de Babel e Dona Flor e Seus Dois Maridos, entre outras produções.

Ainda na Globo, vale ressaltar que corpos nus foram o destaque de algumas das aberturas mais famosas feitas pelo canal. Casos de Brega & Chique, Tieta, Pedra Sobre Pedra e Mulheres de Areia. Esta última, aliás, precisou ser adaptada aos novos padrões quando a novela retornou ao Vale a Pena Ver de Novo, em 2011.

Fora do plim plim, algumas produções da Manchete, como Pantanal e Xica da Silva, também tiveram cenas bastante ousadas. Destaque, especialmente, para a adaptação assinada por Walcyr Carrasco, sob o pseudônimo de Ádamo Angel.

A TV encaretou e vestiu a Globeleza

A TV encaretou e vestiu a Globeleza, que tinha o corpo pintado
Sem roupa, Valéria Valenssa fez história como a mulata Globeleza (Imagem: Divulgação / Globo)

Por fim, a prova cabal de que a TV encaretou é a vinheta do Carnaval Globeleza. Entre 1991 e 2016, as diferentes musas participavam das gravações completamente nuas, com o corpo coberto apenas por purpurina e tinta.

Há três anos, porém, a Globo decidiu rever a maneira como representava a festa mais popular do país. Como resultado, a protagonista ganhou muito mais roupa.

Mais famosa representante a ocupar o cargo, Valéria Valenssa comentou a mudança ao jornal Extra. “Sou de outra época, de quando o carnaval valorizava muito a beleza da mulher brasileira. A época do topless, do nu, de Luma de Oliveira, Monique Evans… E, aos pouquinhos, isso foi mudando. Se eles perceberam isso nessa vinheta, e se houve essa mudança tão radical, é que eles também estão buscando acompanhar essas mudanças. Os tempos são outros”, afirmou.

E você, o que pensa ao constatar que a TV encaretou?

Diante de tantas evidências de que a TV encaretou, queremos propor uma reflexão aos nossos leitores. Você acredita que as atrações estão mais pudicas e sente falta de pitadas de ousadia? Ou acredita que é preciso, de fato, bom senso por parte dos profissionais para decidir o que vai ao ar? Compartilhe conosco sua opinião!

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Piero Vergílio é jornalista profissional desde 2006. Já trabalhou em revistas de entretenimento no interior de SP e teve passagens pelo próprio RD1. Em tempos de redes sociais, criou um perfil (@jornalistavetv) para comentar TV pelo Twitter e interagir com outros fãs do veículo. Agora, volta ao RD1 com a missão de publicar novidades sobre a programação sem o limite de 280 caracteres.