Colaboradora relembra bastidores de A Viagem: “Fazíamos uma oração antes das gravações”

Solange Castro Neves
Escritora Solange Castro Neves fala sobre A Viagem em entrevista ao RD1 (Imagem: Divulgação)

Única colaborada de Ivani Ribeiro (1922-1995) nas novelas Mulheres de Areia (1993) e A Viagem (1994), Solange Castro Neves relembra com carinho e gratidão o privilégio de ter trabalhado durante 14 anos com uma das pioneiras da telenovela no Brasil. Em entrevista exclusiva ao RD1, a escritora revelou curiosidades e bastidores da trama que marcou a despedida de sua mestra nas artes e que será reprisada em breve pelo Canal Viva, somando ao todo 5 exibições ao longo dos últimos 25 anos.

Atualmente com 69 anos de idade e desde 2002 “aposentada” dos folhetins, Solange acredita que as reflexões atemporais sobre a vida e a morte e o respeito à diversidade de crenças, apesar da abordagem espírita, foram responsáveis por transformar a trama das 19h em um clássico, e ressalta a sensibilidade nos textos de Ivani: “Seus diálogos eram todos trabalhados, palavra a palavra, para não ser repetitivo e com um texto leve”.

No bate-papo que você confere a seguir, Castro revela ainda outras histórias envolvendo a produção, como a negociação de Christiane Torloni para o papel de protagonista, as experiências sobrenaturais relatadas pela equipe, as críticas de Miguel Falabella destinadas à ela, e presta uma grande homenagem à saudosa amiga, morta em 17 de julho de 1995.

Confira:

A Viagem
Solange revela dia a dia de trabalho com Ivani e construção da sinopse de A Viagem (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1 – Solange, para começarmos a nossa entrevista, gostaria de esclarecer uma questão técnica. O seu nome consta na abertura da trama como colaboradora, embora você já disse que desempenhou a função de coautora. Conte um pouco sobre sua participação na trama e o dia-a-dia de trabalho com Ivani Ribeiro

Solange Castro Neves – Comecei a trabalhar com a Ivani em 1982, quando ela preparava a sinopse de Final Feliz, num momento em que ela estava com problemas de saúde por causa da sua diabete em grau avançado. Nesse tempo eu trabalhava em uma editora, escrevendo romances, quando conheci Paulo Ubiratan (1947-1998) e foi através dele que tive contato com a nossa grande novelista. Assim, eu e a Cleyde [Ivani era nome artístico] começamos uma jornada juntas por 14 anos. Fui privilegiada em todos os sentidos. Com essa brilhante escritora aprendi, na prática, toda a técnica de carpintaria: a complexidade de montar uma trama que tenha estrutura para segurar no ar milhões de telespectadores, durante seis meses ou mais. Por outro lado, com a amiga, tive grandes lições que conseguiria enumerar, mas dentre elas uma marcou muito: a responsabilidade que nós, escritores, temos com quem nos assiste, pois a TV invade os lares e a vida das pessoas. Uma frase que ela sempre me falava: “Filha, ninguém tem nada a ver com seus problemas. Enxugue as lágrimas, entre no seu escritório e tire, de dentro de você, o melhor. E nunca se esqueça, filha, essa profissão não é para os fracos”.

Esse início foi fundamental, pois tive a oportunidade de, aos poucos, ir aprendendo passo a passo com a Ivani, tudo sobre como criar uma sinopse coesa, com várias curvas dramáticas, diversos pontos de virada que surpreendem a todo instante, mesclando todos os tipos de emoções. Despertando e levando ao público o que, exatamente, ele precisa e quer assistir naquele momento.

Assim, pude moldar minha carreira de escritora roteirista. Era uma época em que nós, os colaboradores, não aparecíamos, e a mídia não se interessava por aqueles que estavam na retaguarda. Por isso muitos como eu, o Carlos Lombardi, Daniel Más, Luiz Carlos Fusco, Rose Calza, Ricardo Linhares, Leonor Basseres, bebemos da fonte dos principais autores aprendendo, no dia a dia, a difícil tarefa de escrever 6 capítulos por semana. Isso nenhuma faculdade pode ensinar.

Um exemplo do que falei: Vejam Manoel Carlos, que hoje é um dos grandes autores de novela, no final dos anos 1970 já havia adaptado algumas obras para TV, como Maria Maria e A Sucessora para o horário das 18h, e em 1980 foi colaborador de Gilberto Braga em Água Viva. Seu nome nunca foi creditado no decorrer da novela como colaborador ou coautor dessa história. O público só ficou sabendo de sua participação, nessa trama, no último capítulo quando, finalmente, a emissora resolveu creditá-lo. Era uma posição normal, na época, que só veio a mudar em meados dos anos 1980.

Assim, eu estava lá, ao lado da Ivani, na criação da novela Final Feliz desde que ela foi chamada para tal função. Juntas ficamos trabalhando até o final dessa novela. Devido ao sucesso de Final Feliz, ela recebeu a incumbência de preparar uma nova trama e foi quando resolveu trazer de volta Camomila e Bem Me Quer. Novamente começamos a trabalhar na adaptação de Amor Com Amor Se Paga, que foi um grande sucesso na época. Trabalhávamos somente nós duas e dividíamos todas as tarefas.

Quantas lembranças. Ainda guardo comigo todos os álbuns de fotos que a imprensa soltava na mídia, e os cadernos de rascunho das novelas que trabalhamos juntas. Hoje seria chamado de argumento ou de escaleta dos capítulos. Nele contém o resumo de todas as cenas de cada capítulo, sendo estas marcadas e numeradas na ordem e com os dois intervalos que deveriam ter, necessariamente, um gancho forte que atraísse a atenção dos que assistem, aguçando a sua curiosidade para quererem continuar a assistir a trama.

Eu escrevia tudo na minha máquina antiga Olivetti, que ganhei de meu pai ainda muito pequena.

RD1 – Como você reagiu ao saber que a novela será reprisada novamente pelo Viva? Esperava mais uma reexibição depois de tantas?

Solange Castro Neves – Sempre que tomo conhecimento da reprise de uma novela da Ivani, fico feliz. É um sentimento bom, de trabalho realizado. Só posso dizer que sinto muita gratidão e orgulho por ter feito parte desse projeto maravilhoso. Acredito que o sucesso vem da novela ser um grande folhetim com temas atemporais.

A Viagem fez com que as pessoas refletissem, mais profundamente, sobre a vida e a morte. Mexeu com as emoções, proporcionando momentos inesquecíveis. Através do Vale das Sombras, levou todos a uma tomada de consciência sobre a responsabilidade das escolhas que fazemos, e a certeza de que o futuro de cada um depende das decisões do presente.

A lei do retorno, a justiça Divina explicam sempre de maneira simples que: a semeadura é facultativa, contudo, a colheita é obrigatória. Se semeamos ódio, desamor, não colheremos alegria nem flores. Por tudo isso A Viagem é um marco na teledramaturgia. Orgulho da minha mestra. Amiga querida, Ivani Ribeiro.

RD1 – Por que a novela ainda faz esse sucesso todo? Você é do grupo que torce por uma remake da trama ou acredita que ela é intocável?

Solange Castro Neves – A Viagem foi uma história idealizada com o coração. Pela primeira vez, na teledramaturgia, uma novela abordou a espiritualidade, de uma maneira simples, proporcionando uma identificação do telespectador com as personagens.

Tínhamos telespectadores de todas as religiões porque os assuntos foram abordados com todo o respeito às diferentes crenças.

Sobre um possível remake, acredito que esta opção sempre é um caminho mais difícil e complexo em relação a criar uma nova trama. Por outro lado, é uma excelente oportunidade para abordar o assunto sob outro prisma, pois a vida, em si, é uma busca eterna por respostas.

RD1 – O Alexandre continua pairando no imaginário popular e inclusive é alvo de memes envolvendo figuras como o presidente da República, com os seus péssimos conselhos e obsessões. Você acompanha essa repercussão nas redes sociais?

Solange Castro Neves Sim, com certeza acompanho. Não só o Alexandre, mas vários outros personagens hoje em dia viraram memes, como a Odete Roitman, Nazaré Tedesco, Raquel Assunção e muitas outras. O que facilita esses memes é a internet e também uma forma de deixar o personagem sempre vivo na mente do telespectador. Eu particularmente me divirto muito com isso.

A Viagem
Autora relembra presença de “energias não qualificadas” nos bastidores da trama (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1 – Recentemente, o ator Maurício Mattar disse em entrevista que chegava a sentir a energia ruim dos espíritos obsessores na época da trama. Era comum relatos como esses nos bastidores?

Solange Castro Neves Sim, com certeza. Quando estávamos gravando a novela, fazíamos uma oração de proteção antes de darmos início às gravações.

Em momentos de muita concentração, tudo acontecia como se fosse uma sessão verdadeira e os atores deveriam estar totalmente prontos, preparados psicologicamente, caso contrário, poderiam sentir uma energia não qualificada.

Em momento algum houve abusos de qualquer participante e quando as cenas iam para o ar, o público conseguia absorver, de forma muito leve, e talvez tenha sido isso que tenha atraído o telespectador. Mesmo as cenas mais pesadas do Alexandre no inferno, ou as possessões em Dona Guiomar, foram feitas com muita sutileza e com respeito às religiões. Creio que foi isso que fez a diferença.

A Viagem
Para Solange, falta de representatividade no céu de A Viagem foi corrigida rapidamente após manifestações (Imagem: Reprodução / Globo)

RD1 – A falta de atores negros no céu da novela gerou protestos de entidades do movimento negro na época. Embora essa falha tenha sido corrigida na reta final, a ausência de diversidade em um cenário tão simbólico foi um marco negativo da trama. Como foi que você e a Ivani receberam essas manifestações na época? E como é pensar sobre essas questões 25 anos depois?

Solange Castro Neves Essa questão de atores negros é muito discutida hoje em dia. As redes de televisão contratam muito mais negros do que antigamente. Até os anos 1990, tínhamos muito menos atores negros contratados e quando criávamos a sinopse não escolhíamos a cor dos personagens. O autor escrevia a história sem identificar quaisquer tipos de etnias e essas definições, muitas vezes, eram feitas depois, salvo as tramas de época que necessitavam fosse identificada essa questão, como no caso de Sinhá Moça, Pacto de Sangue e outras novelas. Da mesma forma eram os personagens de cor branca e olhos azuis. Na sinopse não constava se o ator precisava ter os olhos azuis ou verdes. Isso era definido de acordo com a disponibilidade dos atores ou para classificar o grau de parentesco. No entanto, na década de 1990, com a chegada da internet o público começava a se despontar nas críticas e essa questão étnica começava a ser cobrada nas novelas. Como A Viagem teve uma grande repercussão e com o surgimento do céu e os personagens, houve uma cobrança a esse respeito que rapidamente foi corrigida. Era o início de um processo que foi mudando aos poucos, até chegar nos dias de hoje, quando essa questão já é trabalhada de uma forma bem diferente daquela época. E não acredito que isso tenha sido um marco negativo, uma vez que essas questões não era tão discutidas como hoje.

RD1 – Outra polêmica que marcou os bastidores de A Viagem foi uma crítica de Miguel Falabella endereçada a você, na qual ele reclamava do excesso de cenários utilizados nas cenas e dizia que era cansativo demais gravar a novela. Como isso foi superado? Você guarda mágoas do Miguel?

Solange Castro Neves Em hipótese alguma guardo algum tipo de mágoa do Miguel ou de qualquer outro companheiro de trabalho. Só dei um destaque maior ao personagem Raul, porque Miguel fez um excelente trabalho. É muito natural recebermos as críticas e poder absorvê-las de forma construtiva. Como já mencionei, a época era outra, assim como alguns assuntos eram discutidos de forma muito diferente. O ano era 1994 e nós não tínhamos o Projac que seria inaugurado um ano depois, em 1995. Hoje chamado Estúdios Globo, centraliza boa parte das externas de uma novela devido as cidades cenográficas e antes gravávamos as externas por vários lugares espalhados pela cidade. Esse tipo de crítica que vinha dos veteranos na época que fez com que os diretores da Globo pensasse em criar um lugar próprio para além de poupar os atores e funcionários, ainda reduzisse o custo nas gravações.

A Viagem
Christiane Torloni recusou papel a princípio, mas depois se apaixonou pela sinopse (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1 – Regina Duarte chegou a ser cotada para o papel de Diná, que acabou ficando com Christiane Torloni. Como foi esse bastidor?

Solange Castro Neves Quando estamos num processo de construção de uma sinopse, imaginamos várias pessoas para o papel principal. Não só a Regina, mas outras foram pensadas, no entanto o Wolf [Maya, diretor-geral] queria a Christiane e a Ivani já havia trabalhado com ela em A Gata Comeu, então era a pessoa certa. O problema é que na época ela estava fora do pais e não tinha em mente voltar a fazer novelas tão cedo devido a problemas pessoais. Fizemos questão e um representante foi a Portugal apresentar a sinopse a ela. No início ela recusou, mas quando leu o texto ficou apaixonada e aceitou imediatamente. Para nós foi um presente, pois a Christiane Torloni desempenhou a função da melhor maneira possível. A personagem foi feita brilhantemente e hoje não consigo ver outra pessoa naquele papel.

RD1 – Da nova geração, qual autora você acredita que a Ivani admiraria?

Solange Castro Neves É uma questão difícil de responder hoje em dia, pois tudo mudou muito, há uma diversidade grande de autores e cada um segue uma linha. Temos grandes nomes como Gloria Perez que sinto tremenda admiração. Elizabeth Jhin que segue uma linha espírita, a qual admiro também. A dupla Thelma [Guedes] e Duca [Rachid] que é ótima. Mas a Ivani sempre foi uma pessoa muito reservada e nem gostava de aparecer. Na própria Globo ela esteve pouquíssimas vezes e ninguém a conhecia. Inclusive uma vez ela teve que comparecer em uma reunião e a deixaram plantada na portaria por um tempo sem saber quem realmente era. A Ivani não era de se expressar em relação aos colegas, inclusive com as pessoas que trabalhava com ela, por isso que pouquíssimas pessoas tiveram a honra de conhecer o seu trabalho como eu tive.

A Viagem
Para Solange, Ivani Ribeiro estaria escrevendo novelas das 18h e 19h se estivesse viva (Imagem: Divulgação)

RD1 – Há dois anos, a jornalista Carolline Rodrigues, que escreveu a biografia de Ivani, disse em uma entrevista que a autora provavelmente desaprovaria a maioria das novelas atuais pelo excesso de violência. Você concorda? Como seria uma novela de Ivani nos dias atuais?

Solange Castro Neves A Ivani tinha uma forma muito peculiar de criar e escrever suas novelas. Seus diálogos eram todos trabalhados, palavra a palavra, para não ser repetitivo e com um texto leve. Ela era muito romântica e suas histórias sempre girava em torno do amor entre os personagens. Não acredito que se estivesse viva hoje em dia escrevesse uma novela para o horário das nove ou das onze. Uma novela da Ivani Ribeiro nos dias de hoje provavelmente seria para horário das seis, sete horas e talvez fosse focalizada numa cidade do interior com os temas relacionados às emoções do ser humano.

RD1 – Você tem vontade de voltar a escrever novelas? Por que se afastou da TV?

Solange Castro Neves Em 2006 perdi meu marido o meu grande amor e com a diferença de três meses meu irmão também veio a falecer. Resolvi dar um tempo para mim e como sou uma cinéfila, fui fazer pós-graduação em cinema e TV na FAAP. Foram três anos que convivi com jovens e pude me reciclar, ao mesmo tempo em que continuei a dar aula de roteiro. Minha tese foi um longa que aborda também a espiritualidade, Encontro com Giulia.

Nunca deixei de escrever. Quem tem a paixão pelas palavras, isso raramente ocorre. Deus foi muito bom para mim, fez-me ver, e compreender, que tudo o que acontece em nossas vidas é para um grande aprendizado. Assim só guardo as boas recordações.

Nesse ínterim fiz o roteiro de três peças de teatro e dois musicais: um infantil e o outro, uma adaptação de A Viagem para o teatro. Ambos em processo de produção.

Escrevi vários livros e diversas sinopses de novelas. Algumas editadas por causa dos meus alunos. Até que me apaixonei pelas séries e fui, então, fazer um curso em Los Angeles e depois outro, de um ano e meio, na Roteiraria aqui em SP. Formei uma equipe excelente, unida, afiada e roteirizamos, juntas, algumas séries. Uma delas terá como diretor Bruno Barreto e a produtora Tatiana Quintella. Mais do que isso, ainda não posso falar.

Aventurei-me por esse caminho, sempre com a participação de Thalma Bertozzi, amiga-irmã com quem trabalho há vinte anos. Terminamos dois roteiros de animação: um infantil e o outro infanto juvenil numa parceria com Marcos Tadeu Siqueira, profissional maravilhoso e Magno Brasil, um ser incrível, com vasta experiência no mercado de artes visuais, fundador e diretor das escolas de desenho Visuart. Esses projetos já se encontram na produtora americana Imagilore Entertainment.

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Daniel Ribeiro cobre televisão desde 2010. No RD1, ao longo de três passagens, já foi repórter e colunista. Especializado em fotografia, retorna ao site para assinar uma coluna que virou referência enquanto esteve à frente, a Curto-Circuito. Pode ser encontrado no Twitter através do @danielmiede ou no danielribeiro@rd1.com.br.