Exclusivo: “Durante anos eu rejeitei a ideia”, diz Kelzy Ecard sobre fazer novelas

Kelzy Ecard
Kelzy Ecard falou sobre carreira, futuro na TV e desmonte da cultura em entrevista ao RD1 (Imagem: Jorge Bispo)

Aos 54 anos, Kelzy Ecard é uma atriz veterana do teatro e do cinema que só recentemente se tornou um rosto conhecido do grande público. Há dois anos, ela se rendeu ao universo das novelas para encarnar a submissa Nice em Segundo Sol (2018), trabalho que lhe rendeu prêmios e muita repercussão, e agora encarna o desafio diário de interpretar um dos papéis mais interessantes de Éramos Seis.

Dona Genu, a melhor amiga de Lola (Gloria Pires), é só orgulho para Kelzy, que foi buscar nas suas próprias raízes a inspiração para viver a personagem. A atriz não assistiu as versões anteriores da trama, para não se deixar influenciar, mas releu o livro de Maria José Dupré assim que recebeu o convite para reviver a personagem que já foi de Celia Camargo e Jandira Martini nas versões da TV Tupi e do SBT, respectivamente.

A atriz, que conheceu os textos originais de Éramos Seis ainda na infância, acredita que a história ainda prende tanto a atenção do público por seus dilemas atemporais sobre os sentimentos humanos e relações familiares. Para ela, o cenário político de 1932, por exemplo, se repete com frequência na história do nosso país.

Kelzy, aliás, observa atentamente os rumos da política brasileira e lamenta o que classifica de “campanha feita para transformar artistas em usurpadores do patrimônio público”. Vamos voltar a ter afeto e respeito no lugar do ódio e desrespeito que estamos vivendo. Estamos resistindo”, diz.

Confira a entrevista na íntegra:

RD1: Como foi a sua preparação para Éramos Seis? De onde buscou inspiração para interpretar a Dona Genu?

Kelzy Ecard: Fizemos vários encontros pra leitura de texto, prosódia, fono, conversas com a direção e palestras sobre a época. Também fiz minha pesquisa individual, com o costumo fazer, reli o livro, vi filmes e séries afins, ouvi repertório da época…

Minha grande inspiração pra Genu veio do livro, essencialmente, e de pessoas que conheci na minha infância e adolescência. Sou do interior, onde essa figura do fofoqueiro era muito conhecida. Tive vários exemplos onde me inspirar (risos). Apesar dessa ser uma característica marcante da personagem, ela é complexa, com várias facetas e toda pesquisa anterior foi fundamental pra criar a Genu.

RD1: A Lola é uma das poucas personagens que não são vítimas da língua afiada de Genu, mesmo ela sendo viúva e tendo um relacionamento com Afonso. Você acredita que isso ajuda a sua personagem ser tão querida assim?

Kelzy Ecard: Com certeza! Costumo brincar que se a Genu fizesse alguma maldade com Lola era capaz de apanhar na rua, pelo tanto que elas são amadas, atriz e personagem. Acho lindo a amizade das duas, profunda e sincera. Tão importante abordar uma amizade assim entre duas mulheres!

Kelzy Ecard
Para a intérprete, fofocas de Dona Genu geram identificação (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1: Por que tanta gente se identifica com Genu, mesmo ela sendo essa fuxiqueira de primeira?

Kelzy Ecard: Acho que Genu é uma personagem reconhecível, todo mundo tem ou teve um vizinho falastrão e enxerido. E acho que também por ser uma amiga leal e uma mãe parecida com muitas que a gente conhece!

RD1: Você chegou a ler o livro ou assistiu às outras adaptações da novela? Como é ajudar a contar essa história nos dias de hoje? O que torna o texto tão atual?

Kelzy Ecard: Li o livro pela primeira vez quando era criança e reli quando soube que ia fazer a novela. E chorei copiosamente nas duas vezes. Acho a saga da família Lemos e de todos os personagens uma jornada profundamente humana, próxima… os dilemas, dores, amores, decepções e alegrias são atemporais. Sem falar no panorama político, tão reconhecível, dando a impressão que caminhamos em círculos!

Não cheguei a assistir outras versões quando estiveram no ar e agora preferi não ver, pra não me influenciar. O que sei é que todas as atrizes que fizeram Genu (Maria Celia Camargo e Jandira Martini) arrasaram!!!

Kelzy Ecard
Kelzy Ecard estreou nas novelas em 2018, em Segundo Sol (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1: Você já admitiu em entrevistas que não tinha o sonho de trabalhar na TV. Chegou a recusar convites para atuar em novelas? Como foi ganhar o reconhecimento do grande público com mais de 50 anos de idade?

Kelzy Ecard: Durante muitos anos eu realmente rejeitei a ideia. E antes de Segundo Sol só tinha feito pequenas participações. Um pouco antes de receber o convite do Dennis [Carvalho] pra fazer a novela, curiosamente começou a despertar em mim o desejo de viver essa experiência e eu estou amando!

Acho que ser reconhecida pelo meu trabalho, em qualquer momento da vida, sempre foi e será incrível! E considerando a super exposição que a TV traz, veio no momento certo, estando mais madura tanto pessoalmente quanto profissionalmente.

RD1: Muita gente ainda comenta com você sobre a Nice de Segundo Sol? A personagem foi muito marcante…

Kelzy Ecard: Sim! Muita gente. Acho lindo isso, a Nice representou muita gente, eu acho, e sensibilizou também com sua história de sofrimento e superação. Eu fico muito emocionada…

RD1: Você afirmou na época da novela que o público não te reconhecia nas ruas, por você ser muito simples. Isso ainda acontece?

Kelzy Ecard: Isso foi logo no início de Segundo Sol. Eu via que as pessoas ficavam na dúvida se era eu mesma, normalmente ando muito casual, à vontade. Mas não sei se era por isso, talvez fosse por ser o primeiro trabalho… agora percebo que sou a cada dia mais reconhecida.

RD1: Você considera Segundo Sol um divisor de águas na sua carreira? Após a novela, você foi uma das poucas atrizes a ganhar um contrato de dois anos com a Globo, indo na contramão do que normalmente vem acontecendo na TV…

Kelzy Ecard: Com certeza Segundo Sol foi um divisor de águas. Devo a muita gente esse momento: a toda equipe da peça que estava fazendo quando fui convidada – Tom na Fazenda, ao Dennis Carvalho e Vanessa Veiga que foram me ver no teatro e me levaram pra Segundo Sol, ao Chico Acioly, ao Silvio de Abreu, a todos antes e agora que me deram oportunidades… O trabalho do artista depende de muita gente e eu sou muito grata a todas e todos que de alguma maneira me deram força no caminho, a todos os colegas do teatro e da TV com quem aprendo o meu ofício de atriz.

RD1: A televisão investe cada vez mais em atores conhecidos do teatro para as novelas e séries, principalmente em obras mais realistas, que vem ganhando muito espaço. Como você observa essa mudança?

Kelzy Ecard: Eu acho incrível que isso esteja acontecendo! O Brasil é um país de muitos e múltiplos talentos, que bom que o mercado está se abrindo pra essa diversidade. Que bom que estão valorizando nosso ofício. Acho que todo mundo só tem a ganhar com isso.

RD1: Novelas são obras abertas, sujeitas às alterações para agradar a público. Isso gera no ator alguma preocupação com o rumo da história? Como é para uma atriz consolidada no teatro e no cinema trabalhar na televisão?

Kelzy Ecard: Uma das grandes diferenças do trabalho na TV é o conceito da obra aberta, de criarmos sem conhecer toda a trajetória da personagem. Estou aos poucos me acostumando com esse processo. É muito desafiador também.

RD1: João Emanuel Carneiro costuma repetir parcerias de sucesso. Será que temos a chance de te ver na próxima novela dele, que estreia no segundo semestre?

Kelzy Ecard: Eu adoraria!!! Foi incrível estrear com o pé direito na novela do João, que considero um gênio. E o diretor será o Carlos Araújo, outro gênio, que está me dirigindo agora em Éramos Seis. O desejo está lançado pro universo. Quem sabe?

RD1: Você iniciou sua carreira em 1994. Considera que esse é o pior momento cultural do nosso país? Como encara tanto retrocesso?

Kelzy Ecard: Com certeza! Porque o retrocesso é imenso e foi feita toda uma campanha pra transformar os artistas em inimigos públicos, criando a ideia errônea de que somos usurpadores do patrimônio público e desimportantes para a sociedade. Todo país que se preza sabe da importância fundamental de proteger e fomentar a arte e a cultura. Em níveis diversos, cada sociedade tem os seus acordos, mas sempre reconhecendo como fundamental a preservação, produção e estímulo à diversidade artística e cultural. Mas vai passar! Vamos voltar a ter afeto e respeito no lugar do ódio e desrespeito que estamos vivendo. Estamos resistindo. Aliás, aqui vai meu viva a todos os artistas que, a despeito de tudo, estão criando e mostrando seus valorosos trabalhos!

Daniel Ribeiro cobre televisão desde 2010. No RD1, ao longo de três passagens, já foi repórter e colunista. Especializado em fotografia, retorna ao site para assinar uma coluna que virou referência enquanto esteve à frente, a Curto-Circuito. Pode ser encontrado no Twitter através do @danielmiede ou no danielribeiro@rd1.com.br.

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