Globo já apostou em reprises no horário nobre; relembre

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Marina Ruy Barbosa (Eliza) em Totalmente Demais; Christiane Torloni (Tereza Cristina) em Fina Estampa: Globo aposta em reprises no horário nobre (Imagens: Divulgação / Globo)

Os trabalhos da dramaturgia da Globo param, em definitivo, dentro de duas semanas. Este é o prazo estipulado pela equipe de Malhação – Toda Forma de Amar para concluir as gravações da temporada cujo término foi adiantado para abril. Éramos Seis, que chega ao fim na próxima sexta-feira (27), fecha os estúdios hoje (17). As filmagens da substituta Nos Tempos do Imperador, assim como as de Salve-se Quem Puder, Amor de Mãe e Um Lugar ao Sol, próxima novela das 21h, estão suspensas.

A intenção da emissora é, com o encerramento temporário de suas atividades, impedir a propagação do coronavírus. A quarentena obrigou o canal a recorrer às reprises de Malhação – Viva a Diferença (2017), Novo Mundo (2017), Totalmente Demais (2015) e Fina Estampa (2011), todas em versão compacta.

Entregar os quatro horários às reapresentações é um feito inédito. E histórico. Em outras ocasiões, em uma ou outra faixa, a Globo recorreu aos repetecos por diferentes motivos; as únicas que, até então, nunca haviam contado com reprises eram as de Malhação e das 19h, embora também tenham sofrido suspensões.

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Regina Duarte (Simone) e Francisco Cuoco (Cristiano) em Selva de Pedra (Imagem: Divulgação / Globo)

Em 1975, a Censura Federal – “endurecida” por conta do regime militar então vigente – vetou a exibição de Roque Santeiro. Na avaliação dos censores, a novela trazia “ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja”. O anúncio do veto se deu no Jornal Nacional minutos antes da estreia. Com ‘Roque’, a Globo buscava “oxigenar” a faixa das 20h, em meio às comemorações de seus 10 anos, contando então com um autor das 22h, Dias Gomes.

O canal recorreu à reapresentação de Selva de Pedra (1972), escrita por Janete Clair. Foram 76 capítulos ante 243 originais. Em novembro, estreou Pecado Capital, também desenvolvida por Janete. A obra, primeira a cores das 20h – ineditismo que caberia a Roque Santeiro –, é considerada um marco na carreira da autora. Já o texto de seu marido vetado pela Censura Federal foi enfim produzido em 1985, marcando o início da redemocratização do país.

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Yara Cortes (Carolina) em O Casarão (Imagem: Divulgação / Globo)

Em fevereiro de 1983, o ator Jardel Filho sofreu um ataque cardíaco fulminante. Na ocasião, ele protagonizava Sol de Verão, de Manoel Carlos. O autor, deprimido com a morte do amigo, pediu para deixar a produção. Lauro César Muniz, com o auxílio de Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Figueiredo, assumiu o enredo. A trama ficou completamente sem “frente” – distância entre os capítulos gravados e os exibidos. Sem saída, a Globo adiantou o término, de dois meses para três semanas.

Gilberto Braga acelerou então a escrita da substituta, Louco Amor. Mas como não havia tempo suficiente para a estreia, a estação optou por O Casarão (1976), de Lauro César Muniz. O folhetim derrubou a audiência – diferente do que aconteceu com Selva de Pedra. A Band, sagaz, lançou Sabor de Mel aproveitando-se da ausência de um folhetim inédito na concorrente. Temerosa, a equipe de Louco Amor intensificou os trabalhos, adiantando o lançamento em duas semanas.

A Globo enfrentou outras situações extremas às 20h, mas sem interrupções. Em 1992, após o assassinato de Daniella Perez – cometido por seu colega de elenco Guilherme de Pádua –, Gilberto Braga e Leonor Bassères assumiram os roteiros de De Corpo de Alma, até que a autora e mãe da atriz, Gloria Perez, pudesse retomar o trabalho.

10 anos depois, enfrentando problemas pessoais, Benedito Ruy Barbosa foi substituído por Walcyr Carrasco; a troca de comando conteve a crise de audiência, e de produção, de Esperança.

Em 2016, Velho Chico perdeu seu protagonista Domingos Montagner, que se afogou durante o intervalo de uma gravação externa em Canindé de São Francisco, Sergipe. O personagem Santo foi mantido em cena, através da câmera subjetiva: os atores contracenavam com a câmera, como se falassem com ele.

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Lucélia Santos (Isaura) e Edwin Luisi (Álvaro) em Escrava Isaura (Imagem: Divulgação / Globo)

Benedito Ruy Barbosa também esteve envolvido em um dos dois casos que implicaram em reprises às 18h. O autor se indispôs com a Globo, após ser convocado para pôr fim a Os Gigantes, problemática novela das 20h, diante da demissão do responsável pela obra, Lauro César Muniz. Benedito rompeu contrato e seguiu para a Band, onde realizou o sonho de colocar a audaciosa Os Imigrantes (1981) no ar. Na ocasião, ele respondia pela primeira versão de Cabocla.

Como vinha enfrentando problemas com a substituta, Olhai os Lírios do Campo, prevista para dezembro de 1979, a emissora achou por bem pedir a Benedito que esticasse Cabocla. A recusa dele, já comprometido com a concorrente, implicou na escalação de Escrava Isaura (1976) para o horário. A saga da cativa branca (Lucélia Santos) e de seu senhor (Leôncio, Rubens de Falco) foi compactada em 30 capítulos; antes, havia sido reapresentada em 1977, às 13h30.

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Gisela Rocha (Regina) e Aracy Balabanian (Milena) em Locomotivas (Imagem: Divulgação / Globo)

Primeira novela a cores das 19h, Locomotivas (1977) voltou ao ar às 18h em novembro de 1986 por conta dos problemas enfrentados pela Globo com o Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Rio de Janeiro (SATED-RJ). O órgão, dentre outras reivindicações, lutava pelo cumprimento da jornada de trabalho e pagamento de horas extras. O canal contra-atacou com a extinção do Teletema, além de cancelar os projetos de minisséries.

A medida mais drástica, contudo, foi a suspensão de Direito de Amar, folhetim cotado para a vaga de Sinhá Moça. ‘Sinhá’, também de Benedito Ruy Barbosa, chegou ao fim em novembro, abrindo espaço para Locomotivas, de Cassiano Gabus Mendes – revistas da época davam conta da intenção da casa de, a princípio, repetir Baila Comigo (1981), de Manoel Carlos, veiculada recentemente pelo Canal Viva. ‘Direito’, escrita por Walther Negrão, só estreou em fevereiro do ano seguinte.

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Lima Duarte (Zeca Diabo) e Paulo Gracindo (Odorico Paraguaçu) em O Bem-Amado (Imagem: Divulgação / Globo)

A exibição de novelas inéditas às 22h – faixa extinta em 1979 – foi interrompida em janeiro de 1977, quando a Censura Federal inviabilizou o lançamento de Despedida de Casado. O enredo de Walter George Durst propunha debater crises conjugais e, consequentemente, o divórcio. A obra, considerada um atentado aos “bons costumes”, acabou substituída por um compacto de O Bem-Amado (1973). Em junho, a Globo lançou Nina, do mesmo autor e com o mesmo elenco.

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Sônia Braga (Gabriela) em Gabriela (Imagem: Divulgação / Globo)

Em 1979, Gabriela (1975) voltou ao ar, cobrindo o espaço deixado pela extinção do horário, após Sinal de Alerta, até a estreia das séries brasileiras – que representaram uma revolução na dramaturgia da casa. Versões compactadas de clássicos como Dancin’ Days (1978), O Astro (1977), Duas Vidas (1976), Pecado Capital e Gabriela também foram exibidas entre 1981 e 1982, às 22h, cobrindo férias da linha de shows ou adiamentos de minisséries.

Neste cenário, a Globo chegou a resumir O Espigão (1974), de Dias Gomes. A intenção era ocupar o horário reservado para a minissérie Bandidos da Falange, então proibida pela Censura Federal. A trama ganhou nova abertura e a trilha sonora nacional voltou ao mercado; o repeteco, porém, não foi ao ar. O canal atribuiu ao cancelamento, em nota lida no Jornal Nacional, à liberação de ‘Bandidos’. Os jornais, porém, afirmavam que a desistência estava ligada à pressão de grandes construtoras, uma vez que a narrativa debatia a especulação imobiliária.

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Murilo Benício (Jonas) em Geração Brasil (Imagem: Divulgação / Globo)

Cabe destacar também o caso de Geração Brasil (2014), afetada pela Copa do Mundo no Brasil. A novela de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira ficou fora do ar por duas semanas; neste período, foram exibidos boletins sobre o Filma-e, um aplicativo de celular relacionado às participações de Davi (Humberto Carrão) e Manuela (Chandelly Braz) em um concurso que garimpava talentos para a empresa de Jonas Marra (Murilo Benício).

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Rafael Vitti (Pedro) e Isabella Santoni (Karina) em Malhação – Sonhos (Imagem: Divulgação / Globo)

Nos primeiros anos, Malhação interrompia a exibição de conteúdo inédito durante as férias de janeiro, apostando em reprises dos “melhores momentos” da temporada – como a Globo pensou em fazer com Amor de Mãe. Em 2014, também por conta da Copa do Mundo no Brasil, a novela saiu do ar por cerca de um mês, entre as fases Casa Cheia e Sonhos. O mesmo se deu entre Seu Lugar no Mundo e Pro Dia Nascer Feliz; a sequência foi interrompida em razão dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, de 2016.

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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