Globo mostrará primeiro beijo de personagem trans em Salve-se Quem Puder

Bernardo de Assis interpreta o office boy Catatau em Salve-se Quem Puder (Imagem: Reprodução / Globoplay)

Intérprete do office boy Catatau em Salve-se Quem Puder, o ator Bernardo de Assis vai protagonizar o primeiro beijo entre um rapaz trans e uma mulher cisgênero na Globo. Ele falou sobre o assunto em entrevista ao jornal Extra.

A amizade colorida com Renatinha (Juliana Alves) vai render a Catatau (Bernardo de Assis) o início de uma história de amor. A cena do beijo está prevista para ir ao ar no dia 14 de julho, em meio a uma cena de preconceito.

Diante dos ex-colegas de ginástica artística do rapaz, a personagem vai gritar: “Chega! Ninguém mexe com o meu macho!”. O ator tem 26 anos de idade e o início de sua transição de gênero foi há cinco.

Sobre o assunto, ele revelou:

“Durante minha infância e adolescência, eu não tive referências de pessoas trans. Sentia incômodos com o meu corpo e com algumas ideias, mas achava que era algo particular. A sociedade me enxergava como lésbica, mas, quando uma namorada me olhava como mulher, eu negava ser uma. Era como se o meu quebra-cabeça estivesse embaralhado. Aos 15, escutando as palestras e lendo os livros do João W. Nery (psicólogo e ativista LGBTQIAP+), percebi que o sofrimento dele era igual ao meu. E que havia um nome para tudo aquilo (transexualidade)”.

“Foi graças ao espetáculo teatral ‘Bird’, em 2015, que eu me assumi. Fui convidado pela diretora Livs Ataíde a interpretar uma garota que tinha um desejo tão grande de ser homem, que no dia seguinte ela se transformava em um; e depois em pássaro e em tudo o mais que ela quisesse”, explicou.

“Nos ensaios, eu dizia: ‘Não consigo falar esse texto, é muito pesado pra mim, só quero chorar’. Depois de alguns meses, a peça estreou comigo assinando como Bernardo. Tomei a decisão de me identificar como homem trans para o mundo e cobrar respeito das pessoas”, disse ainda.

Sobre a reação da família, ele lamentou: “Eu, infelizmente, faço parte da parcela de pessoas trans que perdem o seu vínculo familiar. Nunca tive muito diálogo com meus pais. Minha mãe escolhia as minhas roupas, me forçava a ser o mais feminino possível, a manter o cabelo longo”.

“Numa viagem, eu decidi cortá-lo e fiz uma foto. Ela me mandou uma mensagem dizendo que eu não precisava mais voltar. Meu pai de criação decidiu não se intrometer na decisão dela; com o biológico, nunca tive contato. Então, deixei tudo pra trás. Um casal de tios me acolheu como filho, construí uma nova família com amigos como eu”, prosseguiu.

“Há pouco tempo, retomei contato com a minha irmã. Ela também tinha seus preconceitos e dores, mas se abriu, ressignificou tudo. Agora, assiste a todos os capítulos da novela e torce por mim”, completou ele, que explicou também como foi o processo de transição:

“Começou no ano de 2016, aos 21 anos, tomando hormônios. Um ano depois, fiz a mastectomia. Foi libertador, porque os seios sempre me incomodaram muito, eu usava faixa compressora para escondê-los, e machucava. Quando a enfermeira tirou os curativos e eu me olhei no espelho, chorei feito criança. Hoje, estou num processo de me amar. É uma luta diária, porque a sociedade impõe que nosso corpo tem problemas, que precisamos modificá-lo o tempo todo”.

“Os ataques que recebo são insignificantes perto desse carinho. Agradeço a Daniel Ortiz (autor da novela) e Fred Mayrink (diretor) por assumirem a ‘bronca’ comigo. Não há conquista de direitos sem pessoas aliadas”, completou.

Da Redação
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