Rui Vilhena não se arrepende de ter ignorado Ditadura em Boogie Oogie: “Faria tudo igual”

Rui Vilhena
Rui Vilhena relembra Boogie Oogie e fala sobre o futuro em entrevista exclusiva ao RD1 (Imagem: Divulgação / Globo)

Novela que retratou o alto astral da era do disco no final dos anos de 1970, Boogie Oogie (2014) praticamente ignorou um dos períodos mais duros do regime militar que o Brasil enfrentava na época. O autor da trama, o moçambicano Rui Vilhena, não se arrepende da forma como retratou este momento histórico do país, nem mesmo diante do crescimento de grupos antidemocráticos que exaltam o golpe de 1964.

Na trama das 18h, o autoritarismo era percebido de leve por meio do militar Elísio (Daniel Dantas), que não demonstrava sentimentos pela esposa Beatriz (Heloísa Périssé) e criava os filhos com rédea curta.

“Foi uma opção minha [não falar sobre Ditadura]. Era uma novela do horário das seis e eu quis que a história fosse mais leve. Não fazia sentido na trama. Faria tudo igual”, disse Rui, em entrevista exclusiva a esta coluna do RD1.

O escritor também lembrou que a novela foi esticada na época, ganhando cerca de 60 capítulos a mais do que o previsto inicialmente, e garantiu que essas mudanças não prejudicaram o resultado final da produção, que marcou a sua estreia como autor solo na Globo.

“Uma novela só é esticada quando faz sucesso e Boogie Oogie foi aumentada três vezes. Todo autor tem sempre uma carta na manga, por precaução, caso o número de capítulos seja modificado. Claro que há sempre uma alteração inevitável no ritmo. Eu poderia ter utilizado o recurso de flashbacks, mas nas minhas novelas isso não existe. Boogie Oogie atravessou um longo período de turbulência ao enfrentar o primeiro e segundo turno das eleições, horário de verão, Natal, Ano Novo e Carnaval. Mesmo assim entregou o horário acima do que recebeu. Só posso me sentir feliz”, explicou.

Sucesso de Fina Estampa e projeto com Aguinaldo Silva

De Portugal, onde reside e trabalha atualmente, Rui acompanhou a repercussão da edição especial Fina Estampa na Globo, novela em que colaborou, e rebateu críticas de que a trama exibida originalmente em 2011 se tornou datada, principalmente entre os personagens que ele mais ajudou a escrever.

“Questionar se uma novela, que foi escrita num contexto de uma determinada época, hoje seria diferente não faz sentido. Cada personagem tem o seu tempo e o Crô foi marcante não só devido à interpretação do Marcelo [Serrado], como também pelo que significou em termos sociais. Nem tudo tem que ser politicamente correto – embora hoje haja muita tendência a rotular tudo e todos. E isso é uma censura à criatividade”, criticou.

“Foi uma época maravilhosa. Trabalhar com um autor como Aguinaldo Silva é um privilégio. Fui colaborador e escrevia principalmente para o núcleo da Tereza Cristina (Christiane Torloni), Crodoaldo (Marcelo Serrado), Baltazar (Alexandre Nero)… Chamava aquela casa de Família Adams. Adorava escrever para eles. O Aguinaldo criou personagens icônicas, como hoje está sendo confirmado”, afirmou.

Vilhena confirmou que colaborou recentemente em um projeto que está sendo desenvolvido pela Casa Aguinaldo Silva de Artes, a convite do autor veterano. “Foi muito prazeroso fazer parte de um time recheado de grandes talentos”, disse o escritor, sem revelar detalhes deste trabalho.

Possíveis adaptações e projetos futuros

Alinhada aos novos modelos de contratos da televisão mundial, Rui falou que as portas na Globo continuam abertas pra ele, mesmo depois de ter uma de suas sinopses para as 19h, Fora de Órbita, recusada pela direção da emissora, há cerca de dois anos.

“Tudo correu de forma muito tranquila e as portas estão abertas para futuros trabalhos. Não faz mais sentido trabalhar em um único mercado. A globalização não é só de mercadorias, mas também de criatividade. As plataformas de streaming são o melhor exemplo disso”, observou o dramaturgo.

Questionado se alguma de suas obras na terrinha poderia ser adaptada para a nossa televisão, Rui citou alguns de seus trabalhos marcantes no país, como Na Corda Bamba (TVI), indicada ao Emmy Internacional 2020, e reconheceu que a dramaturgia portuguesa foi criada “em cima do modelo brasileiro”.

“Ninguém Como Tu, por exemplo, foi a primeira novela em Portugal que superou uma da Globo. O último capítulo literalmente ‘parou’ o país. Esse feito só aconteceu uma vez com ‘a primeira’ Gabriela (de Walter George Durst). Já Tempo de Viver foi uma novela arrojada, com a trama arrancando nas Torres Gêmeas, no dia 11 de Setembro. A minha última, Na Corda Bamba, foi considerada a melhor novela da década e eu o autor do ano. Como todas abordam temas universais, acredito que poderiam fazer sucesso no Brasil”, afirmou.

Sobre as vantagens de escrever novelas no Brasil, Rui mencionou a concepção do capítulo como espetáculo, uma herança de Janete Clair que se tornou regra na nossa dramaturgia. “No Brasil se respeita o gancho da novela, em Portugal não. Ou seja, é muito mais difícil respeitar a curva dramática do capítulo, uma vez que o autor nunca sabe onde o capítulo começa ou acaba. Não faz qualquer sentido”, finalizou.

Boogie Oogie
Os atores Isis Valverde e Marco Pigossi em cena de Boogie Oogie, única novela brasileira assinada por Rui Vilhena (Imagem: Divulgação / Globo)
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Daniel Ribeiro cobre televisão desde 2010. No RD1, ao longo de três passagens, já foi repórter e colunista. Especializado em fotografia, retorna ao site para assinar uma coluna que virou referência enquanto esteve à frente, a Curto-Circuito. Pode ser encontrado no Twitter através do @danielmiede ou no danielribeiro@rd1.com.br.

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