Saída da Globo não apaga trajetória vitoriosa de Aguinaldo Silva

Aguinaldo Silva
Autor de sucessos como Tieta e Senhora do Destino, Aguinaldo Silva deixa a Globo após 40 anos (Imagem: Divulgação / Globo)

Após 40 anos de parceria, Aguinaldo Silva e Globo não renovaram contrato. O autor deixa a emissora onde assinou sucessos, lançou formatos e faturou um Emmy Internacional após o fracasso de O Sétimo Guardião, sua última empreitada às 21h. O rompimento, porém, não apaga a história. Assim como a última incursão no horário que o consagrou não desabona a trajetória vitoriosa de Silva – apto a voos maiores, por cima dos muros dos Estúdios Globo.

Aguinaldo chegou à Globo em 1979. O canal buscava renovar a dramaturgia, substituindo as novelas das 22h por séries. O até então repórter policial foi destacado para Plantão de Polícia, centrada justamente na figura de um jornalista – Waldomiro Pena (Hugo Carvana) –, encarregado de cobrir as mazelas do Rio de Janeiro, de madrugadas tomadas pelo crime.

Em 1982, respondeu por outra reformulação na área onde a Globo, desde sempre, se destacou. Assinou, com Doc Comparato, a primeira minissérie da casa: Lampião e Maria Bonita – medalha de ouro no Festival de Filmes e Televisão de Nova York; APCA de revelação masculina da TV para os autores. Também conduziu Bandidos da Falange (1983), outra produção centrada na violência urbana, e Padre Cícero (1984), figura de destaque no Nordeste tal qual o casal de cangaceiros. As duas com Doc.

No mesmo 1984, surge a primeira oportunidade como autor de novelas. Sem Janete Clair (falecida no ano anterior), Lauro César Muniz (dispensado após o fracasso de Os Gigantes, 1979) e Manoel Carlos (em luto após a morte de Jardel Filho durante Sol de Verão, 1982), o canal contava apenas com Gilberto Braga às 20h. Cassiano Gabus Mendes, rei das 19h, foi testado na faixa “mais nobre”, sem êxito; sobrou então para Aguinaldo e Glória Perez.

Os autores, porém, divergiam em muitos pontos. Ela levou a ótica feminina, de quem havia desenvolvido episódios para Malu Mulher (1979) e colaborado com Janete em seu último folhetim, Eu Prometo. Ele abastecia a narrativa policial. Parecia o casamento perfeito. Mas um era extremamente metódico, enquanto a outra se deixava guiar pela intuição. Sem rumo – e atacada pela Censura do regime militar –, Partido Alto acabou desfigurada.

Silva voltou às minisséries, marcando a celebração dos 20 anos da Globo com a adaptação de Tenda dos Milagres (1985), do romance de Jorge Amado, em parceria com Regina Braga. Foi então chamado por Dias Gomes para roteirizar o clássico Roque Santeiro (1985). Dias aceitou retomar a trama, vetada pela ditadura militar em 1975, sem, no entanto, a obrigação de entregar seis capítulos semanais à produção.

Roque Santeiro acabou marcada por diversos entreveros entre Dias e Aguinaldo. Boatos de que o primeiro se melindrou com o sucesso do segundo à frente da novela – recordista de audiência –, retomando a feitura de cenas e diálogos nos momentos finais. Os direitos acerca do texto, em casos de vendas para o mercado externo, por exemplo, demandaram especial atenção de Boni, então todo-poderoso da estação: 40% para Dias Gomes, 40% de Aguinaldo Silva e 20% para os colaboradores.

Passada a tempestade, veio a… Desesperança. Primeira investida de Aguinaldo como autor solo às 20h não foi, necessariamente, vitoriosa. O Outro (1987) padeceu com problemas de bastidores – houve quem cogitasse, na época, boicote dos envolvidos na produção ao autor. Reencontrou o sucesso em 1988, convidado por Gilberto Braga para dividir com ele e Leonor Bassères os capítulos de Vale Tudo; na modesta opinião deste colunista, a melhor novela da TV brasileira.

Deu tão certo que Gilberto ensaiou repetir a parceria com O Dono do Mundo (1991). A Globo, porém, queria Aguinaldo como titular. Ou melhor: com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, na criação de outra trama regionalista como a exitosa Tieta (1989). Veio então Pedra Sobre Pedra (1992). Depois, Fera Ferida (1993). E por fim, apenas com Ricardo, A Indomada (1997). O gênero “realismo fantástico” respondeu pelos maiores índices do horário das 20h na última década do século XX.

Neste mesmo período, adaptou Riacho Doce (1990), de José Lins do Rêgo, com Ana Maria Moretzsohn; voltou às séries policiais em A Justiceira (1997); supervisionou Linhares em Meu Bem Querer (1999). E amargou o fracasso de Suave Veneno (1999), enredo concebido às pressas, que marcou sua volta aos folhetins urbanos. Mas até fracassando, Aguinaldo fez história: quem não se lembra de Maria Regina Berganti Cerqueira, ex-Figueira (Letícia Spiller), vilã com vocação para memes?

Em 2001, outra versão de Jorge Amado, nova parceria com Ricardo Linhares: Porto dos Milagres não agradou o autor, já cansado do regionalismo, mas atingiu o público em cheio.

Três anos depois, retomou o hábito de buscar sinopses em notícias de jornais, tal qual Manoel Carlos: transformou Vilma, malvada da “vida real” que sequestrou um bebê na maternidade e o criou por mais de quinze anos, em Nazaré Tedesco (Renata Sorrah). E abasteceu Maria do Carmo (Susana Vieira), a que teve o filho roubado, com características de sua própria mãe. Assim nasceu Senhora do Destino, a novela de maior audiência e repercussão da primeira década do século XXI.

Em 2011, inovou ao lançar a primeira MasterClass para autores de novelas. Levou alunos e a sinopse formatada durante as aulas, Marido de Aluguel, para a Globo. O título foi alterado para Fina Estampa. De novo: novela de maior audiência, agora da segunda década do século XXI. Nos bastidores, porém, uma polêmica, com Aguinaldo alfinetando Walcyr Carrasco por, supostamente, copiar o núcleo central da trama das 21h em uma paralela de Morde & Assopra, às 19h.

Aguinaldo Silva coleciona polêmicas do tipo. Nas redes sociais, ele também faz a linha provocador – no trato pessoal, comigo, sempre foi um doce. O Sétimo Guardião foi outra trama concebida numa MasterClass; alguns alunos, porém, foram à Justiça reivindicar os créditos. Silva manteve-se impassível, na imprensa e nas redes; não deixou de rebater, nem esmoreceu, como boa parte dos veículos de mídia e dos que não simpatizam com ele gostariam.

A saída da Globo, certamente, alegra os detratores. Alegra também a emissora que, em tempos de contenção de despesas, não pode se dar ao luxo de manter em seu banco, inativo, um profissional de altos rendimentos. E alegra Aguinaldo, por que não, após anos de história, envolvido em disse-me-disse, tendo que colocar um Boeing no ar toda noite – voando baixo na audiência.

De lamentar, porém, que ele, provavelmente, não encontre espaço na TV aberta. A Record produz o que se afina com a Igreja Universal do Reino de Deus; as pautas de Aguinaldo diferem das do canal. O SBT mantém seus folhetins infanto-juvenis, com uma estreia a cada dois anos. Talvez a gente reencontre Aguinaldo, sua habilidade e seu talento no streaming… Aguinaldo Silva, primeiro autor de novelas da Netflix. Quem sabe? Sucesso pra ele. Merece.

PS: A saída de Aguinaldo Silva, após 40 anos de serviços prestados à emissora, foi anunciada através de um comunicado sucinto, resumindo toda a trajetória do autor ao Emmy Internacional conquistado por Império (2014). Minimizar a história de Aguinaldo é minimizar a própria história, Rede Globo.

Duh Secco é “telemaníaco” desde criancinha. Em 2014, criou o blog “Vivo no Viva”, repercutindo novelas e demais atrações do Canal Viva. Foi contratado pela Globosat no ano seguinte. Integra o time do RD1 desde 2016, nas funções de repórter e colunista. Também está nas redes sociais e no YouTube (@DuhSecco), sempre reverenciando a história da TV e comentando as produções atuais.

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