Até que ponto o apoio político pode comprometer uma carreira?

José de Abreu, Lacombe e Regina Duarte demonstram apoio político sem qualquer receio
José de Abreu, Luís Lacombe e Regina Duarte demonstram apoio político sem qualquer receio (Imagens: Divulgação / Montagem RD1)

Com a popularização das redes sociais, artistas ganharam um canal de comunicação direta com o público. Não raramente, os famosos são cobrados a se posicionar sobre acontecimentos relevantes para a sociedade. Com relação ao apoio político, não é diferente.

E alguns deles parecem não ter qualquer receio de demonstrar publicamente o seu apreço a partidos e governos. Mas até que ponto o apoio político pode comprometer uma carreira? É o que este colunista se propõe a refletir a partir da análise de casos recentes.

Regina teve medo. E nos deu medo também

Regina Duarte
Regina Duarte caiu em desgraça após entrevista polêmica (Imagem: Reprodução / CNN Brasil)

Regina Duarte, lá em 2002, dizia ter medo da eleição de Lula para a presidência. Os anos se passaram e, exceto em episódios pontuais, a atriz se manteve contida. Mas, com a eleição de Jair Bolsonaro a veterana deixou de lado qualquer vestígio de bom senso.

Em várias publicações de seu Instagram, ela disseminou Fake News e postou diversas mensagens alinhadas a ideologia do atual governo. O apoio explícito lhe rendeu o convite para assumir a Secretaria Especial de Cultura.

Foi aí, antes mesmo de assumir, que ela começou a cair em desgraça com a classe artística. Ao publicar uma montagem com colegas que supostamente apoiavam a sua nomeação, Carolina Ferraz, agora contratada da Record, gravou um áudio no Whatsapp solicitando que sua imagem fosse removida.

Depois, a polêmica entrevista para a CNN Brasil. Já no cargo, Regina Regina minimizou as mortes da ditadura e cantou Pra Frente Brasil, canção associada aos militares. “Não era gostoso cantar isso?”, questionou.

Antes, citou Stalin e Hitler. “Na humanidade, não para de morrer [gente]. Por que as pessoas ainda ficam ó [chocadas]? Não quero arrastar um cemitério de mortos nas costas”, defendeu.

As declarações deixaram a classe artística estarrecida. Como resposta, mais de 500 assinaturas em um manifesto de repúdio. Músicos, esportistas, autores e atores fizeram questão de tornar pública sua ojeriza às falas da ex-namoradinha do Brasil.

Além disso, Daniel Filho – ex-marido da atriz – e Antônio Fagundes, seu parceiro de cena em várias novelas, não pouparam críticas.

A pergunta que não quer calar: na hipótese, bastante remota, de Regina decidir voltar a atuar, onde ela conseguiria emprego? Além da hostilidade dos colegas, grande parte do público, que admirava sua performance como atriz, hoje a rejeita.

Será mesmo que todo o apoio político valeu a pena? É bastante provável que, mesmo com toda a sua trajetória, a ideologia de Regina tenha lhe fechado portas. O arranhão a sua imagem foi grande.

Lacombe: o jornalista bolsonarista

Lacombe pediu para sair após Band intervir em programa (Imagem: Divulgação / Band)

Situação semelhante viveu o jornalista Luís Ernesto Lacombe durante a sua passagem pela Band. Assim como muitos outros colegas, ele trocou o jornalismo pelo entretenimento.

À frente do Aqui na Band, ele se autodeclarou “conservador”. Com o aval do então diretor Vildomar Batista, o matinal se transformou em uma espécie de palanque em defesa do governo Bolsonaro.

A parcialidade nas pautas, porém, provocou a ira do departamento de Jornalismo, que venceu a queda de braço. Com a intervenção, Lacombe pediu para sair e o matinal segue na base de reprises até a estreia de Mariana Godoy.

E para Lacombe, o que resta? Como jornalista, a sua isenção está comprometida. Tentar um cargo no governo? A própria Regina Duarte está aí para provar que transformar o apoio político em emprego pode ser uma grande furada.

Resta a ele, quem sabe, tentar uma boquinha no SBT, Record ou RedeTV!, emissoras que estão claramente alinhadas ao governo. Ou quem sabe, tentar um canal no YouTube, para destilar seus impropérios sem censura.

O apoio político: muito além do Bolsonarismo

José de Abreu
José de Abreu não poupa críticas aos opositores de Lula (Imagem: Reprodução / Instagram)

Para ser justo,  é preciso reconhecer que o apoio político não se restringe ao Bolsonarismo. No extremo oposto, José de Abreu já se envolveu em uma série de polêmicas por sua defesa ferrenha ao petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 2016, ele cuspiu no rosto de um casal após uma discussão pública em um restaurante.  Ano passado, ao insinuar que Glória Perez e Guilherme de Pádua estariam apoiando o mesmo espectro político, foi chamado de canalha pela autora.

Nas redes sociais, continua disparando desaforos aos apoiadores do presidente, sejam eles famosos ou não. Agora, ele é mais um dos que se desligou da emissora, Seu próximo passo será tentar a carreira internacional. Mas será que se indispõe por lá também?

Outra que não economiza nos impropérios é Tássia Camargo. Justamente pelas divergências políticas, a primeira apresentadora do Vídeo Show já fez duras críticas à Regina Duarte, a quem chamou de canastra e desmereceu pelo uso de ponto eletrônico.

Esta análise toda foi feita só para concluir que eu não condeno os artistas que preferem se manter neutros quando são cobrados a demonstrar, publicamente, o seu apoio político.

Às vezes, é melhor se manter calado do que desagradar à parcela de eleitores que se opõe à sua visão política. Afinal de contas, os danos à imagem podem ser permanentes e irrecuperáveis.

PS: Se interessar a alguém, este jornalista sempre foi e sempre será #ForaBolsonaro.

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Piero Vergílio é jornalista profissional desde 2006. Já trabalhou em revistas de entretenimento no interior de SP e teve passagens pelo próprio RD1. Em tempos de redes sociais, criou um perfil (@jornalistavetv) para comentar TV pelo Twitter e interagir com outros fãs do veículo. Agora, volta ao RD1 com a missão de publicar novidades sobre a programação sem o limite de 280 caracteres.